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Zema usa fantoches para atacar ministros do STF e acirra crise

Romeu Zema, candidato à Presidência, divulga neste domingo (26) um vídeo satírico em que usa fantoches para criticar os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, do STF. A peça circula nas redes desde o início da manhã e provoca em poucas horas uma enxurrada de reações de apoio e repúdio. A estratégia reforça o confronto aberto do presidenciável com o Supremo em plena pré-campanha de 2026.

Humor agressivo como arma eleitoral

O vídeo tem pouco mais de dois minutos e é publicado primeiro nos perfis oficiais de Zema no X, no Instagram e no TikTok, onde o candidato soma hoje mais de 7 milhões de seguidores. Em cena, dois fantoches com traços caricatos, identificados como “Gilmar” e “Xandão”, discutem decisões judiciais recentes, enquanto uma voz em off, atribuída ao próprio Zema, acusa o Supremo de “passar por cima da vontade do povo”. A gravação traz trilha leve, cortes rápidos e legendas coloridas, pensadas para consumo rápido em celulares.

O conteúdo é divulgado sem aviso prévio, em meio a um fim de semana considerado estratégico pela campanha, a exatamente seis meses do primeiro turno, marcado para 4 de outubro de 2026. Assessores de Zema afirmam, reservadamente, que a peça é “apenas o primeiro episódio” de uma série de sátiras com o objetivo de “traduzir para o público comum” o embate entre o presidenciável e o STF. Em grupos de apoiadores no WhatsApp e no Telegram, o vídeo é compartilhado com mensagens que falam em “enfrentar a ditadura da toga” e “desmascarar os poderosos”.

Em um dos trechos, o boneco que representa Alexandre de Moraes diz, em tom de deboche: “Eu mando prender quem eu quiser, quando eu quiser”. O fantoche de Gilmar responde: “E eu solto, desde que seja do meu time”. A fala é seguida por uma risada em off e pela entrada de Zema em quadro, em imagem real, olhando para a câmera. “É esse o Brasil que você quer?”, pergunta o candidato, antes de pedir compartilhamento do vídeo. O roteiro condensa críticas que ele repete há pelo menos três anos, desde que passou a se posicionar com mais força contra decisões do Supremo em casos de políticos investigados.

Polarização e desgaste entre Poderes

A publicação chega em um momento de tensão acumulada entre Executivo e Judiciário. Nas últimas semanas, decisões de Moraes em inquéritos sobre desinformação nas redes, além de julgamentos relatados por Gilmar sobre regras eleitorais e financiamento público de campanha, servem de munição para ataques de setores da direita. Zema tenta se destacar nesse campo com um discurso de ruptura que, desde 2022, mira diretamente o Supremo, a quem acusa de “interferência política” em ao menos dez discursos públicos registrados pela própria campanha.

A reação ao vídeo é imediata. Em menos de três horas, a peça supera 3 milhões de visualizações somadas nas principais plataformas, segundo a equipe digital do candidato. Hashtags com o nome de Zema e dos ministros entram entre os assuntos mais comentados no X no Brasil, divididas entre elogios à “coragem” do presidenciável e críticas ao que opositores chamam de “ataque institucional”. Um integrante da coordenação jurídica da campanha afirma, sob condição de anonimato, que “não há ofensa pessoal, mas crítica dura a decisões públicas” e diz que o conteúdo foi avaliado previamente por advogados.

Juristas ouvidos pela reportagem avaliam que, mesmo amparado pela liberdade de expressão, o vídeo pode ampliar o desgaste entre os Poderes. “Quando um candidato à Presidência reduz ministros da mais alta Corte a fantoches, ele não atinge apenas pessoas físicas, atinge a autoridade do próprio tribunal”, diz um professor de direito constitucional da USP. “Isso alimenta uma percepção de que decisões judiciais valem menos do que a vontade de líderes políticos, o que é perigoso para qualquer democracia.”

Líderes de oposição a Zema acusam o presidenciável de apostar na radicalização para consolidar sua base. Um senador ligado ao governo federal afirma que a peça “cruza uma linha” ao personalizar o embate com o Supremo. “Discordar de decisões é legítimo, ridicularizar ministros com bonecos é um passo além e serve apenas para incendiar a militância”, afirma. Aliados de Zema, por outro lado, veem na estratégia uma chance de atrair o eleitorado jovem, que hoje representa cerca de 16% do eleitorado, segundo dados do TSE, e consome majoritariamente conteúdo em vídeo curto.

Campanha testará o limite entre crítica e ataque institucional

A aposta em humor agressivo marca uma mudança de patamar na campanha de Zema e testa o limite da crítica política no Brasil de 2026. A campanha calcula que o desgaste do STF, que atinge índices de rejeição próximos a 40% em pesquisas internas citadas por aliados, pode render votos em segmentos desconfiados de instituições. O risco é catalisar uma nova frente de conflito com o Judiciário em meio a um calendário já apertado, que prevê propaganda eleitoral em rádio e TV a partir de 16 de agosto e debates nacionais a partir de setembro.

Eventuais medidas de reação do Supremo ainda são incertas. Integrantes do tribunal avaliam que a resposta deve ser institucional, evitando personalização do conflito, mas admitem preocupação com a escalada retórica de pré-candidatos. Se representações forem apresentadas ao TSE por adversários de Zema, a Corte eleitoral pode ser chamada a definir, mais uma vez, onde termina a crítica política e onde começa o ataque às instituições.

A repercussão do vídeo tende a dominar o noticiário e as redes nos próximos dias, pressionando outros candidatos a se posicionar sobre o Supremo e sobre os limites da campanha negativa. A disputa não se dá apenas pelos votos deste ano, mas pela narrativa sobre quem manda no país: políticos eleitos ou juízes de tribunais superiores. Nesse embate, a cena dos fantoches de Gilmar e Moraes pode se tornar um símbolo da eleição de 2026 ou apenas mais um episódio da escalada de tensão entre Poderes que o Brasil ainda não conseguiu encerrar.

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