Ultimas

Messias aposta em discurso conciliador para chegar ao STF

O advogado-geral da União, Messias, chega ao Senado em 29 de abril para a sabatina que pode levá-lo ao Supremo Tribunal Federal. Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele aposta em diálogo silencioso, inclusive com a oposição, para garantir ao menos 41 votos e ocupar a vaga na mais alta corte do país.

Negociação discreta em meio à tensão entre Poderes

A sabatina na Comissão de Constituição e Justiça, marcada para a manhã de 29 de abril de 2026, ocorre em um ambiente de atrito entre Congresso e STF. Parlamentares criticam o que consideram avanço do Judiciário sobre prerrogativas legislativas, enquanto a corte reage a ataques e tentativas de limitar seus poderes. É nesse cenário que Messias tenta se apresentar como ponte entre os Poderes.

Aliados de Lula dizem, reservadamente, que a contagem de votos já é confortável. Falam em um placar entre 48 e 52 senadores a favor, bem acima do mínimo de 41 exigido pela Constituição. O discurso é de tranquilidade, mas a movimentação dos últimos dias mostra que o Palácio do Planalto e o próprio indicado não tratam a votação como jogo ganho.

Messias intensifica reuniões com senadores desde a semana passada, em gabinetes e conversas reservadas nos corredores do Congresso. O foco é reduzir o risco de surpresas na votação secreta no plenário. O movimento segue o roteiro clássico de nomeações ao Supremo, mas ganha peso adicional diante da polarização política e da resistência aberta de parte da oposição.

O advogado-geral procura dialogar também com quem o rejeita publicamente. Ele se encontra com o líder do PL no Senado, Carlos Portinho, mesmo após a sigla fechar posição contra a indicação de Lula. No dia seguinte, conversa com o senador Eduardo Girão, que depois relata à imprensa uma reunião “cordial” e “respeitosa”, mas reafirma o voto contrário. A postura, ainda assim, atende ao script traçado pelo próprio Messias.

Em conversas com interlocutores, o indicado repete que pretende fazer uma sabatina em tom de “paz e amor”. O plano é manter serenidade diante de provocações, evitar choques com a oposição e responder de forma técnica às perguntas mais sensíveis. Três palavras guiam a estratégia: serenidade, sobriedade e tecnicidade. A mensagem que ele quer deixar é simples: não será um ativista político togado.

Temas sensíveis e apoio do campo conservador

Os principais testes de resistência devem surgir quando o debate entrar em temas de costumes e direitos civis. Senadores já antecipam perguntas sobre aborto e sobre fraudes no INSS, assunto que envolve não só moral e religião, mas também orçamento e política social. Nesses pontos, Messias se equilibra entre a base progressista de Lula e a expectativa de grupos conservadores que o enxergam como aliado.

Evangélico, ele recebe apoio de parlamentares da mesma fé, que veem na indicação a chance de consolidar uma voz conservadora em decisões sobre família, sexualidade e direitos reprodutivos. Aliados religiosos apostam que, no plenário do STF, Messias tenderá a posições mais restritivas em temas como a descriminalização do aborto, mesmo que adote linguagem moderada na sabatina.

Parte dos senadores, no entanto, afirma que religião pesa pouco na hora de apertar o botão do painel eletrônico. Lembram que o jogo real envolve espaço político, relação com o governo e cálculo eleitoral em 2026 e 2028. Outros apontam um ponto de atrito concreto: o parecer da Advocacia-Geral da União contra uma resolução do Conselho Federal de Medicina que proibia a assistolia fetal, um procedimento usado em casos de aborto legal após 22 semanas. Para esse grupo, o episódio levanta dúvidas sobre como Messias atuará em ações ligadas à pauta de costumes.

O histórico do Senado, porém, joga a favor do indicado. Um levantamento da CNN Brasil mostra que a Casa não rejeita uma indicação ao Supremo desde 1894, ainda na República Velha. Em mais de um século, governos de perfis opostos viram seus nomes aprovados, do regime militar aos mandatos de Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. A tradição é de questionamento duro na sabatina, seguido de confirmação no plenário.

A aprovação de Messias, se confirmada, fortalece a estratégia de Lula de consolidar uma maioria discreta, mas alinhada, no STF. O presidente já indica ministros com perfil técnico e discurso moderado, apostando menos em aliados de palanque e mais em juristas que ajudem a reduzir o choque com o Congresso. O novo ministro entra em uma corte pressionada por julgamentos sobre meio ambiente, políticas sociais, segurança pública e limites da atuação policial nas periferias.

O que está em jogo na sabatina e depois dela

O rito na CCJ segue o manual. Messias faz uma exposição inicial, responde a horas de questionamentos, enfrenta intervenções da base e da oposição e, ao fim, assiste à votação do parecer sobre seu nome. Se aprovado na comissão, segue para o plenário do Senado, onde uma nova votação, secreta, define seu futuro. A expectativa é que todo o processo se encerre em um único dia, mas acordos de bastidor podem alongar a sessão.

O resultado impacta não apenas a composição da corte, mas também a relação entre Executivo e Legislativo. Uma vitória folgada reforça a capacidade de articulação do governo no Senado e sinaliza que Lula ainda coordena uma base sólida em temas institucionais. Um placar apertado, ou eventual derrota, acende o alerta no Planalto e empurra o presidente a negociar outro nome em um ambiente mais hostil, sob pressão da oposição e da própria base.

No STF, a presença de Messias tende a influenciar julgamentos sobre políticas públicas e disputas federativas, além das ações de alto impacto político que hoje pautam o debate nacional. Um ministro com trânsito no Congresso e discurso conciliador pode ajudar a esfriar a temperatura entre os Poderes, mas também será cobrado a fixar limites claros para interferências do Judiciário em decisões de maioria parlamentar.

Os próximos dias servem de termômetro. Senadores calibram discursos, grupos de interesse pressionam em silêncio e o governo tenta evitar ruídos de última hora. A sabatina de 29 de abril se torna, assim, mais do que um exame individual. É um teste sobre até onde o País está disposto a ir na tentativa de pacificar a relação entre política e Justiça – e que tipo de Supremo quer para os próximos anos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *