Em meio à guerra, palestinos de Gaza realizam votação simbólica
Moradores de Deir al-Balah, na Faixa de Gaza, realizam em 25 de abril de 2026 uma votação simbólica para marcar a retomada da participação política após quase 20 anos sem eleições. O pleito improvisado ocorre em meio à guerra e à falta de infraestrutura básica, mas ganha peso de gesto coletivo de resistência e afirmação de direitos.
Urnas improvisadas em meio a escombros
O dia ainda nem clareou por completo quando as primeiras filas começam a se formar na região central de Deir al-Balah, cidade de cerca de dezenas de milhares de habitantes espremida entre o Mediterrâneo e os escombros de ataques recentes. Em um salão comunitário parcialmente destruído, voluntários montam mesas de madeira, uma caixa de papelão reforçada serve de urna e listas impressas à mão substituem cadastros oficiais. A votação não tem valor legal, mas para quem atravessa ruas esburacadas para chegar ao local, ela vale como um exercício de futuro.
O gesto tenta preencher um vazio que se estende por quase duas décadas. As últimas eleições gerais nos territórios palestinos ocorrem em 2006. Desde então, disputas internas, o bloqueio à Faixa de Gaza e sucessivas ofensivas militares paralisam qualquer tentativa de renovação institucional. Moradores que hoje têm 30 ou 35 anos votam pela primeira vez, mesmo sabendo que o resultado não será homologado por nenhuma autoridade oficial.
A dinâmica lembra um pleito convencional apenas à distância. Em vez de cabines de votação, panos pendurados em portas quebradas garantem algum sigilo. Em vez de fiscais partidários, jovens voluntários verificam nomes e distribuem cédulas. A cidade enfrenta racionamento de água e eletricidade, com cortes que chegam a muitas horas por dia, mas ainda assim um gerador emprestado garante iluminação mínima do espaço. Em algumas paredes, cartazes escritos à mão resumem o espírito do dia: “Nosso voto, nossa voz”.
O objetivo declarado é simples e ambicioso ao mesmo tempo: provar que, mesmo sob bombardeios, há disposição para discutir poder, representar opiniões e reivindicar direitos civis básicos. A votação simbólica nasce de conversas entre líderes comunitários, educadores locais e organizações civis palestinas que atuam na região. Ao longo de semanas, eles articulam a logística possível, convidam famílias, explicam que não se trata de escolher um governo imediato, mas de marcar posição diante de um impasse político prolongado.
Quase 20 anos de hiato político
O hiato eleitoral que se arrasta por cerca de 20 anos tem impacto direto no cotidiano em Gaza. Sem renovação de mandatos, a distância entre representantes e representados aumenta, e a população se acostuma a viver sob decisões tomadas sem consulta formal. A guerra, que destrói casas, escolas, hospitais e estradas, também corrói a ideia de participação política regular, vista por muitos como luxo inalcançável em meio à luta diária pela sobrevivência.
Em Deir al-Balah, a iniciativa de 25 de abril busca romper essa lógica. Organizações locais estimam que centenas de moradores passem pelo salão ao longo do dia, em turnos informais que consideram toques de recolher, horários de distribuição de ajuda e momentos de maior risco de ataques. Famílias chegam juntas, muitas com crianças pequenas, que observam curiosas o ritual de preencher cédulas e depositá-las na urna improvisada.
Os idealizadores descrevem o processo como um ensaio para uma futura reconstrução institucional. A votação simbólica serve para testar fluxos, registrar demandas e, principalmente, reacender o gesto de escolha. O simples ato de formar fila, aguardar a vez e ser chamado pelo nome vale como lembrança concreta de que cada pessoa continua tendo um papel na vida pública, mesmo quando os sistemas formais desmoronam.
Em conversas com moradores, a palavra esperança aparece com frequência. Pais contam que trazem os filhos para que vejam “como seria uma eleição de verdade”. Jovens relatam frustração por nunca terem votado em um processo oficial e descrevem a iniciativa como uma forma de “não deixar a política nas mãos apenas de quem tem armas”. Em um território marcado por deslocamentos forçados e perdas sucessivas, reservar um dia para falar de futuro em vez de fuga tem peso simbólico específico.
Impacto local e sinal ao mundo
A votação simbólica de Deir al-Balah não escolhe um presidente nem altera a correlação formal de forças na região, mas produz efeitos concretos. Ao registrar preferências e prioridades em cédulas, moradores ajudam a mapear temas urgentes, como acesso à água, reconstrução de escolas, abertura de corredores humanitários e garantia mínima de segurança para deslocamentos diários. Esses registros podem orientar futuras propostas de governança local quando houver condições para negociações políticas mais amplas.
O gesto também funciona como mensagem ao exterior. Em um cenário em que Gaza aparece nas manchetes principalmente por causa de bombardeios e números de mortos, a cena de pessoas fazendo fila para votar desloca o foco. Organizações humanitárias e observadores estrangeiros veem na iniciativa um lembrete de que, por trás dos dados sobre destruição, há uma sociedade que tenta se organizar e reivindicar direitos políticos, não apenas ajuda emergencial.
Especialistas em processos de reconstrução pós-conflito apontam que experiências semelhantes em outras regiões tendem a abrir caminho para reformar leis eleitorais, treinar mesários e reconstruir estruturas básicas de votação. Em Gaza, onde prédios públicos, escolas e centros comunitários são frequentemente alvo de ataques, cada experiência local de organização civil ajuda a desenhar alternativas para quando houver cessar-fogo duradouro e espaço político para reformas.
O impacto simbólico se estende para além da cidade. O fato de a iniciativa ocorrer em Deir al-Balah, e não em capitais políticas tradicionais, reforça o papel de comunidades periféricas na pressão por mudanças. A mensagem central, repetida por moradores ao longo do dia, é que a guerra não esgota a agenda da população. Entre sirenes e alertas, ainda há quem reserve algumas horas para reivindicar algo tão básico quanto o direito de escolher quem fala em seu nome.
Próximos passos e incertezas
Os organizadores pretendem compilar os resultados da votação simbólica em relatórios simples, com percentuais de apoio a diferentes prioridades e propostas. A ideia é compartilhar esses documentos com organizações civis palestinas, grupos de mediação internacional e potenciais doadores envolvidos na reconstrução da Faixa de Gaza. Em um cenário de recursos escassos, apresentar dados produzidos pela própria comunidade pode ajudar a direcionar investimentos para o que os moradores consideram mais urgente.
Líderes locais falam em repetir a experiência nos próximos meses, em Deir al-Balah e em outras cidades de Gaza, caso as condições mínimas de segurança permitam. A ambição de longo prazo é contribuir para a retomada de um calendário eleitoral oficial, que inclua registros formais, órgãos fiscalizadores e observadores independentes. Não há prazos definidos, nem garantias de que isso se viabilize em meio ao conflito atual, mas o pleito simbólico de 25 de abril entra para a memória recente como tentativa concreta de encurtar a distância entre a população e o poder.
A partir de agora, a principal dúvida é se esse gesto local conseguirá ecoar além das fronteiras de Deir al-Balah. A comunidade aposta que, ao registrar por conta própria suas prioridades, cria um arquivo político difícil de ignorar em futuras negociações sobre o destino de Gaza. Em uma região acostumada a decidir pouco sobre o próprio rumo, o simples fato de contar votos, ainda que simbólicos, vira forma de lembrar ao mundo que há um eleitorado à espera de vez e de voz.
