Ciencia e Tecnologia

Relógio científico da USP monitora saúde de astronautas da Artemis II

Um relógio científico desenvolvido na Universidade de São Paulo (USP) acompanha, em tempo real, o sono e a saúde dos astronautas da missão Artemis II, prevista para 2024. O dispositivo, um actígrafo criado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), leva tecnologia brasileira ao pulso da tripulação da Nasa.

Tecnologia brasileira no espaço

O actígrafo, semelhante a um relógio de pulso, mede de forma contínua padrões de sono, atividade física, batimentos cardíacos e exposição à luz. A diferença em relação a relógios inteligentes vendidos no varejo está no propósito: aqui, o foco é científico, com precisão pensada para pesquisa em cronobiologia, neurociência e saúde pública.

O equipamento é coordenado pelo professor Mario Pedrazzoli, especialista em estudos do sono na EACH-USP. Ele lidera há anos pesquisas sobre como o corpo humano reage a ambientes extremos, como hospitais, plataformas marítimas e, agora, o espaço. “A missão Artemis II coloca à prova tudo o que aprendemos sobre ritmos biológicos em situações de isolamento e desajuste de luz”, afirma o pesquisador.

Na prática, cada astronauta utiliza o actígrafo no pulso durante a missão, prevista para marcar o retorno de humanos à órbita da Lua após mais de 50 anos. O aparelho registra, minuto a minuto, quando o tripulante se movimenta, quando está em repouso, como varia a frequência cardíaca e quanto tempo passa exposto a diferentes intensidades de luz artificial dentro da nave.

Essas informações alimentam bancos de dados usados por equipes médicas e científicas da Nasa e da USP. Os pesquisadores identificam, por exemplo, se o sono é fragmentado, se há sinais de fadiga acumulada ou se a rotina de trabalho no espaço desorganiza o relógio biológico interno. “Se o sono piora hoje, o desempenho cai amanhã. Em uma missão complexa, isso pode significar risco real”, explica Pedrazzoli.

Impacto na saúde dos astronautas e na ciência

Ambientes confinados, ausência de ciclo claro de dia e noite e alta carga de estresse tornam o sono um ponto crítico em missões espaciais. A exposição irregular à luz afeta diretamente o relógio interno do corpo, que regula temperatura, hormônios e humor. Sem esse ajuste fino, aumentam as chances de erro humano, problemas cardiovasculares e queda de imunidade.

O actígrafo permite observar essas alterações com detalhes inéditos. O dispositivo registra variações ao longo de 24 horas por dia e reúne dados que, somados ao longo de semanas, revelam padrões invisíveis a olho nu. A partir desses números, equipes de solo ajustam horários de repouso, intensidade da iluminação e distribuição das tarefas críticas durante a missão.

Mario Pedrazzoli resume o ganho prático: “Não é apenas um relógio que conta passos. É uma ferramenta que ajuda a decidir quando o astronauta deve trabalhar, quando precisa descansar e quando está em risco”. Segundo o pesquisador, o mesmo tipo de informação auxilia hoje estudos sobre distúrbios do sono em trabalhadores noturnos, motoristas profissionais e pacientes com insônia crônica.

O reconhecimento internacional veio com o uso da tecnologia em programas da Nasa e com o interesse de outros centros de pesquisa. A participação em Artemis II consolida o equipamento como referência em monitoramento biomédico em ambiente extremo. Ao mesmo tempo, reforça a capacidade da ciência brasileira de entregar soluções para problemas de fronteira, como a adaptação humana a viagens espaciais longas.

A tecnologia também encontra aplicações diretas na Terra. Em estudos com populações urbanas, o actígrafo revela como a desregulação do sono e a exposição constante à luz artificial afetam pressão arterial, ganho de peso e quadros de ansiedade e depressão. Os dados ajudam a orientar políticas de saúde pública, desde campanhas de higiene do sono até diretrizes para iluminação em escolas, hospitais e grandes cidades.

Próximos passos na pesquisa espacial e na saúde pública

O uso do actígrafo na Artemis II abre espaço para novos acordos entre a USP, a Nasa e outras agências espaciais interessadas em missões de longa duração. Projetos ligados a futuras viagens à Lua e a Marte exigem monitoramento constante dos ritmos biológicos dos tripulantes, que podem passar meses ou anos longe da Terra. Dispositivos precisos, leves e de baixo consumo energético, como o actígrafo brasileiro, tornam-se peças estratégicas nessa equação.

No Brasil, a expectativa é ampliar o uso da tecnologia em redes de pesquisa sobre sono e saúde mental. Grupos de hospitais universitários e serviços públicos avaliam incorporar o equipamento em estudos com pacientes com apneia do sono, depressão e transtornos de ansiedade. A meta é transformar dados de alta complexidade em recomendações claras para médicos, gestores e pacientes.

O avanço também pressiona por mais investimentos contínuos em ciência e inovação. A presença de um equipamento projetado na USP no pulso de astronautas da Nasa reforça a discussão sobre financiamento estável, formação de pesquisadores e cooperação internacional. O resultado concreto, hoje, é um relógio científico que ajuda a proteger quem viaja à órbita da Lua. A próxima etapa é saber até onde essa tecnologia pode ir ao enfrentar um desafio ainda maior: garantir noites de sono melhores aqui na Terra.

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