Haddad diz que São Paulo cresce menos que o Brasil e mira gestão Tarcísio
Fernando Haddad afirma, nesta quarta-feira (15), que São Paulo cresce menos que o Brasil e enfrenta deterioração na segurança pública, e responsabiliza a gestão Tarcísio de Freitas. O ex-ministro da Fazenda anuncia que vai basear a pré-campanha ao governo paulista em comparações de indicadores oficiais antes e depois da atual administração.
São Paulo no centro da disputa nacional
O diagnóstico de Haddad surge no momento em que o Palácio do Planalto tenta reforçar a presença política no maior colégio eleitoral do país. Em entrevista à CNN Brasil, o petista descreve um estado com economia mais lenta que a média nacional e índices de violência em alta, cenário que, segundo ele, contrasta com o volume de investimentos federais desde 2023.
Haddad relata que decide disputar o governo após insistência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-ministro conta que, inicialmente, se dedica a elaborar estudos para o plano de governo federal, mas muda de posição diante da avaliação de que São Paulo se torna um ponto frágil do projeto lulista. “Eu estava interessado em estudar o potencial [do Brasil] para apresentar o plano de governo, mas o presidente me convenceu por várias outras razões”, diz.
O pré-candidato afirma que o problema não é apenas local. Ele enquadra o desempenho paulista como risco ao crescimento do país. “São Paulo está com muitos problemas, apesar do governo federal. É um estado muito importante e o presidente entende que São Paulo não pode crescer menos que o Brasil, como está acontecendo”, afirma. Na mesma linha, repete uma ideia que pretende transformar em slogan de campanha: “Para um Brasil forte, não dá para ter um estado de São Paulo fraco”.
Nos bastidores, aliados de Haddad defendem que a eleição de 2026 em São Paulo terá peso semelhante ao de uma disputa presidencial. A avaliação é que o estado, responsável por cerca de 30% do PIB brasileiro e mais de 22% do eleitorado, funciona como vitrine do governo Lula ou, no cenário atual, como vitrine da oposição encarnada por Tarcísio de Freitas.
Campanha ancorada em números oficiais
Haddad avisa que pretende transformar a comparação de dados em eixo central da pré-campanha. Ele cita indicadores econômicos, como ritmo de geração de empregos, arrecadação e desempenho industrial, e menciona taxas de criminalidade, com foco em homicídios, roubos e violência policial. A estratégia busca esvaziar acusações de campanha negativa e apresentar o debate como disputa de resultados.
Segundo o ex-ministro, o próprio histórico recente do estado fornece o material para criticar a continuidade da gestão Tarcísio. “Os dados oficiais vão mostrar para a população que uma recondução não é boa ideia”, afirma, ao antecipar que a comparação entre 2022 e 2026 deve ganhar espaço em programas de TV, redes sociais e debates. O plano é divulgar séries históricas, variações anuais e recortes regionais, amparados por estatísticas de órgãos estaduais, do IBGE e do governo federal.
A pré-campanha já começa a testar essa narrativa. As primeiras peças nas redes destacam obras financiadas com recursos federais em rodovias, ferrovias e infraestrutura urbana em municípios paulistas. Em conteúdos de menos de 60 segundos, Haddad enfatiza o papel do Tesouro Nacional e de bancos públicos e relativiza o protagonismo do governo estadual na execução dos projetos.
A investida mira um ponto sensível para Tarcísio, ex-ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, que constrói sua imagem sobre obras e concessões. Ao reivindicar para o governo Lula a origem de parte dos investimentos em São Paulo, Haddad tenta, ao mesmo tempo, nacionalizar o debate estadual e diminuir o capital político acumulado pelo atual governador, que é cotado por aliados da direita como nome viável para a eleição presidencial de 2026 ou 2030.
Impacto na economia, na segurança e na disputa eleitoral
O alerta de que São Paulo cresce menos que o Brasil serve como fio condutor para a crítica ao governo estadual. Na visão de Haddad, um desempenho abaixo da média nacional, mesmo com juros em queda desde 2023 e aumento de investimentos públicos, indica falhas de gestão. Ele associa a desaceleração paulista a perda de competitividade industrial, atraso em obras de mobilidade e incertezas na política de segurança.
Na segurança pública, o discurso mira o aumento da sensação de violência em grandes cidades e episódios de letalidade policial que ganham repercussão nacional. Ao vincular essa situação à administração Tarcísio, Haddad tenta atrair eleitores moderados, que apontam o tema como principal preocupação em pesquisas qualitativas. A mensagem é direta: sem controle da violência na maior economia do país, o resto do Brasil também sente o impacto.
A leitura no entorno do petista é que o conflito com Tarcísio reorganiza o xadrez eleitoral. Uma vitória da oposição no estado, após duas décadas de hegemonia de siglas de centro e direita, consolidaria a influência de Lula em São Paulo e ampliaria a margem de manobra para políticas nacionais, inclusive na relação com o Congresso. Uma derrota, por outro lado, reforçaria o governador como contraponto ao Planalto.
O uso de dados oficiais como arma de campanha também pressiona a própria máquina estadual. A cada divulgação trimestral de indicadores, o debate tende a se reacender. Se a economia paulista acelerar ou os índices de criminalidade recuarem, Tarcísio ganha munição para rebater a narrativa do adversário. Se a diferença em relação ao restante do país se ampliar, Haddad terá números frescos para sustentar o discurso de estagnação.
Próximos movimentos na corrida pelo Bandeirantes
Haddad entra na disputa com a vantagem de já ter disputado o governo em 2022 e alcançado o segundo turno, quando obteve mais de 10 milhões de votos. A campanha atual, porém, se organiza em ambiente diferente. O PT ocupa o Palácio do Planalto, administra um orçamento federal bilionário e deve usar a vitrine de obras em São Paulo para reforçar a mensagem de parceria entre União e municípios, em contraste com o governo estadual.
Nas próximas semanas, a pré-campanha deve intensificar viagens pelo interior e pela Grande São Paulo, com eventos em cidades que concentram polos industriais e índices elevados de violência. A promessa é apresentar diagnósticos específicos e metas para quatro anos, com prazos, percentuais e valores previstos em investimento, na tentativa de transformar o debate abstrato sobre “crescimento” em compromisso verificável.
O embate com Tarcísio tende a ganhar força à medida que os dois lados coloquem seus próprios números em circulação. A disputa por narrativas estatísticas deve atravessar todo o calendário eleitoral e testar, mais uma vez, a disposição do eleitor paulista de punir ou premiar governantes com base em resultados concretos. Resta saber se, diante de um cenário nacional ainda marcado por desigualdade e insegurança, o voto em São Paulo será guiado por gráficos, obras visíveis ou pela memória recente de cada gestão.
