Guerra no Sudão entra no 3º ano com drones e fome em escala recorde
A guerra no Sudão completa três anos nesta quarta-feira (15) sob uma combinação explosiva de violência armada, uso intensivo de drones e colapso humanitário. O conflito entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e os paramilitares das Forças de Apoio Rápido (RSF) já mata mais de 100 mil pessoas e desloca quase 14 milhões, enquanto ataques a civis e bloqueios à ajuda humanitária empurram o país para um abismo cada vez mais profundo.
Conflito esquecido em meio a números extremos
O Sudão entra no quarto ano de guerra civil como uma das maiores crises do planeta e, ao mesmo tempo, uma das menos visíveis no debate internacional. Enquanto Ucrânia e Oriente Médio dominam a agenda de líderes globais, a violência no país do Norte da África ganha o rótulo de “maior conflito esquecido” da atualidade entre diplomatas e organizações humanitárias.
Desde 15 de abril de 2023, combates entre o general Abdel Fattah al-Burhan, que comanda o Exército regular, e o líder paramilitar Mohamed Hamdan Dagalo, o Hemeti, transformam cidades inteiras em zonas de bombardeio. O que começa como disputa pelo controle do Estado após a queda do antigo regime se converte em guerra prolongada, sem avanço territorial decisivo de nenhum lado e sem qualquer perspectiva imediata de cessar-fogo.
As tentativas de trégua lideradas por Estados Unidos, países árabes, União Africana e outras potências fracassam em sequência. As conversas emperram, os acordos anunciados não se consolidam e, na prática, a frente de batalha se aproxima da população. Mercados, estações de água, redes de energia e hospitais entram para a lista de alvos cotidianos.
No país que já acumulava índices altos de pobreza, inflação e desemprego antes da primeira explosão de tiros, a guerra desmonta o pouco que funcionava. “O sofrimento causado pela guerra atinge novos níveis de agonia para a população, sobretudo devido ao impacto em infraestruturas essenciais”, escreve Daniel O’Malley, chefe do Comitê Internacional da Cruz Vermelha no Sudão. Ele afirma que “todo o país foi, em algum momento, afetado por ataques indiscriminados”.
Drones, hospitais sob ataque e crianças na linha de fogo
O campo de batalha muda de escala nos últimos meses com a adoção em massa de drones armados. A tecnologia, que já marca outros conflitos, chega com atraso ao Sudão, mas rapidamente redefine o padrão de violência. De janeiro a meados de março de 2026, mais de 500 civis morrem em ataques desse tipo, segundo a ONU, muitos deles longe das linhas de frente tradicionais.
A Médicos Sem Fronteiras (MSF) relata bombardeios com drones sobre áreas densamente povoadas e estruturas logísticas essenciais, em especial na região de Kordofan, no centro-sul, hoje o epicentro dos combates. Crianças se tornam vítimas recorrentes. Quase 80% das mortes e ferimentos infantis registrados neste ano estão ligados a esse tipo de armamento, de acordo com balanços da organização.
A infraestrutura de saúde desmorona sob pressão dupla: a da sobrecarga e a dos ataques diretos. A Organização Mundial da Saúde estima que 37% das unidades médicas do país já estejam inoperantes. Desde o início da guerra, pelo menos 217 ataques a instalações de saúde deixam mais de 2.000 mortos, número que faz do Sudão o palco de 82% das mortes globais ligadas à violência contra hospitais em 2025.
Bombardeios recentes ilustram a escalada. Em 20 de março, um ataque atribuído ao Exército sudanês mata 70 pessoas, entre elas 15 crianças, em um hospital de Darfur Oriental. Duas semanas depois, um ataque que autoridades locais atribuem às RSF atinge o município de Al Jabalain e mata outras 10 pessoas, sete delas profissionais de saúde. Hospitais são saqueados, ocupados por combatentes ou simplesmente abandonados por equipes que fogem de ameaças, detenções e deslocamento forçado.
Crianças pequenas concentram um dos rostos mais cruéis da crise. Em apenas um ano, mais de 15 mil menores de cinco anos são internados por desnutrição aguda, segundo a MSF. Campanhas de vacinação são suspensas, e o sistema que monitora surtos de doenças deixa de funcionar. Sarampo, cólera e hepatite E avançam por diferentes regiões, empurrando famílias que fogem da guerra para filas improvisadas de atendimento em abrigos superlotados.
A violência sexual entra na rotina de guerra como método de terror. Somente no último ano, equipes da MSF registram mais de 4.200 casos, a maioria contra mulheres e meninas, usados como arma para expulsar comunidades, punir supostos inimigos e consolidar o controle de áreas estratégicas. A mesma guerra que atinge hospitais e escolas torna estradas e postos de controle sinônimos de risco permanente.
Fome, bloqueios e pressão internacional em ritmo lento
O avanço da fome expõe de forma crua o efeito combinado dos combates e dos bloqueios à ajuda. Estimativas internacionais indicam que 61,7% da população sudanesa, cerca de 28,9 milhões de pessoas, enfrenta insegurança alimentar aguda. Em regiões como Darfur do Norte e Kordofan do Sul, famílias sobrevivem com uma refeição por dia, muitas vezes à base de folhas ou ração animal.
Convoys humanitários ficam retidos em estradas ou são barrados por combatentes que controlam o acesso a pontes e cidades. A MSF relata bloqueios sistemáticos que tornam áreas inteiras praticamente inacessíveis. Kordofan, uma das regiões mais pressionadas pela guerra, recebe menos ajuda do que o mínimo planejado, o que aumenta o risco de massacres silenciosos em vilarejos isolados.
Enquanto isso, os deslocamentos internos e externos redesenham o mapa humano do país e da região. Quase 14 milhões de pessoas deixam suas casas desde 2023, um número superior ao registrado na guerra da Ucrânia, estimado em cerca de 10 milhões de deslocados. Parte dessa população se espalha por países vizinhos já fragilizados, criando temores de instabilidade regional prolongada e pressão crescente sobre sistemas de saúde, educação e emprego locais.
Organizações como Cruz Vermelha e ONU alertam que o custo da inação cresce a cada mês. Em nota divulgada na segunda-feira (13), a Cruz Vermelha informa que o número de pessoas dadas como desaparecidas no Sudão ultrapassa 11 mil, um aumento superior a 40% em um ano. Para a MSF, “o silêncio e a inação estão prolongando o sofrimento de milhões” e exigem medidas urgentes para proteger civis, garantir acesso à ajuda e responsabilizar autores de violações.
Capitais estrangeiras discutem novas rodadas de negociação, sanções direcionadas e pressão diplomática sobre os líderes das SAF e das RSF, mas nenhum plano robusto de cessar-fogo ganha forma concreta. A fragmentação de mediadores, a disputa de interesses regionais e a sobrecarga de outras crises ajudam a empurrar o Sudão para o fim da fila da agenda global.
Quarto ano de guerra testa limites da comunidade internacional
O início do quarto ano de conflito funciona como marco simbólico para governos, agências da ONU e organizações humanitárias, que tentam usar a data para reabrir canais políticos. A avaliação nos bastidores é que o tempo passa a jogar ainda mais contra o país: quanto mais longo o confronto, maior o risco de fragmentação interna, surgimento de novos grupos armados e pulverização do controle territorial.
Diplomatas veem a continuidade da guerra como ameaça não só ao Sudão, mas a toda a região do Chifre da África e do Sahel, já marcada por golpes militares, grupos extremistas e migrações em massa. Um colapso ainda maior em Cartum e nas principais cidades pode acelerar fluxos de refugiados rumo à Líbia, ao Egito e ao Mar Vermelho, com impacto direto sobre rotas migratórias até a Europa.
Para milhões de sudaneses, porém, o cálculo é mais imediato: encontrar água, comida e abrigo até o próximo dia. Em campos improvisados, famílias acompanham de longe as negociações fracassadas e veem drones cruzando o céu com a mesma frequência que caminhões de ajuda rarefeitos. Sem um cessar-fogo sólido e sem corredores humanitários seguros, o quarto ano de guerra tende a repetir o roteiro dos três anteriores, com mais vítimas anônimas e menos atenção do mundo.
