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Açude Orós volta a sangrar e atinge 100% da capacidade no Ceará

O Açude Orós, segundo maior reservatório do Ceará, volta a sangrar na manhã desta quarta-feira (15), por volta das 8h30, e atinge 100% da capacidade. O fenômeno encerra semanas de expectativa na região do Alto Jaguaribe e renova a segurança hídrica para cidades do interior e da Região Metropolitana de Fortaleza.

Fenômeno esperado e celebração às margens do Jaguaribe

O vertimento do Orós, na Bacia do Alto Jaguaribe, ocorre pelo segundo ano seguido, depois de um intervalo de 14 anos sem sangria. O reservatório, com capacidade para armazenar 1,9 bilhão de metros cúbicos de água, já havia encerrado 2025 com volume elevado e recebe desde o início de 2026 um aporte constante das chuvas na região.

Nas primeiras horas da manhã, o secretário municipal de Turismo de Orós, Eduardo Barbosa, acompanha o nível da água e confirma o início da sangria. “O fenômeno ocorre hoje, por volta das 8h30”, afirma. Nas redes sociais oficiais, a Prefeitura divulga imagens e trata o momento como de “alegria, esperança e renovação” para os moradores.

A sangria ainda é discreta, com lâmina de água baixa vertendo pela parede do açude, mas técnicos e gestores projetam aumento do volume nos próximos dias, a depender do regime de chuvas. A imagem da água ultrapassando o limite da barragem volta a mobilizar moradores, comerciantes, agricultores e visitantes, que desde março acompanham o avanço diário da lâmina d’água.

Para parte da população, o retorno da sangria após anos de escassez tem peso simbólico semelhante ao de uma colheita farta. O reservatório já chegou a registrar apenas 4,73% do volume em 2020, no auge do ciclo de seca que atinge o Ceará entre 2012 e 2018, com reflexos em alguns municípios até 2020.

Monitoramento diário e disputa de números

A confirmação da sangria resulta de um monitoramento diário feito à margem do açude. Uma régua instalada na parede do reservatório orienta a leitura do nível, realizada por um fiscal que repassa as informações à gestão municipal. “Todos os dias a gente observa essas informações, que mostram o nível do açude, o volume de água e como ele está se comportando com as chuvas e entradas”, explica Eduardo Barbosa. “É com base nesses dados que o município se organiza e se planeja”.

Os números do Orós são acompanhados por dois órgãos: o Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs), responsável pela administração da barragem, e a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), que opera a gestão integrada das águas no Ceará. As porcentagens divulgadas por cada instituição nem sempre coincidem.

Segundo a Cogerh, o Dnocs se baseia nos dados originais do projeto, da época da construção do açude, sem atualização do desenho do fundo. A companhia adota estudos mais recentes, que consideram o acúmulo de sedimentos e mudanças na profundidade efetiva do reservatório. A diferença na metodologia explica variações nos percentuais, mesmo quando a realidade física é a mesma: o Orós está cheio e verte.

Uma reunião entre representantes do Dnocs e da Cogerh está prevista para esta semana, em Fortaleza, para alinhar critérios de medição e interpretação dos dados. A harmonização das informações é vista como estratégica para o planejamento hídrico do Estado, sobretudo em um cenário de recarga robusta após anos de estiagem.

Segurança hídrica, turismo e economia local em movimento

A sangria do Orós tem efeito imediato na segurança hídrica de boa parte do Ceará. Desde o fim de fevereiro, por deliberação dos Comitês de Bacia dos Vales do Jaguaribe e Banabuiú, a Cogerh transfere água do Orós e do Castanhão, maior reservatório do Estado, com 6,7 bilhões de metros cúbicos de capacidade, para o sistema integrado que abastece Fortaleza e municípios da Região Metropolitana.

O reservatório funciona como uma grande caixa-d’água para múltiplos usos. A água acumulada garante a perenização do Rio Jaguaribe, viabiliza projetos de irrigação no Médio e Baixo Jaguaribe, sustenta atividades de piscicultura e reforça o consumo humano em diversas cidades. O vertimento atual abre margem para planejamento mais ousado de agricultura irrigada e de investimentos em cadeias produtivas dependentes de água estável.

Nas margens do açude, a sangria também movimenta a economia local. A Prefeitura de Orós instala uma câmera para transmitir em tempo real o avanço da água, estimulando visitas e reservas em pousadas e restaurantes. “A sangria é oportunidade para movimentar o turismo local, com programações culturais aos fins de semana, valorizando bandas da terra, aquecendo o comércio e reforçando orientações sobre cuidados com o meio ambiente”, diz o secretário de Turismo. Segundo ele, o objetivo é garantir “lazer com responsabilidade para todos”.

O aumento do fluxo de visitantes leva o município a montar uma força-tarefa, sobretudo nos fins de semana. A operação inclui equipes de apoio com seguranças, bombeiros civis, agentes do Demutran, salva-vidas e, quando necessário, apoio da Marinha do Brasil na fiscalização das áreas aquáticas. A combinação de festa e vigilância busca evitar acidentes em áreas de banho e de navegação, que ficam mais disputadas durante a sangria.

O que muda para os próximos anos

O retorno da sangria em 2025, repetido agora em 2026, marca uma virada no histórico recente do Orós. Depois de verter em 2011, o reservatório entra em trajetória de queda e acompanha o período de seca prolongada no Ceará. A recuperação gradual, com volumes crescentes a partir de 2020, culmina na sequência de dois anos com capacidade máxima, algo que não ocorre há mais de uma década.

Gestores estaduais e municipais tratam o momento como janela para consolidar um modelo de uso mais racional da água. A expectativa é de que o estoque acumulado permita atravessar anos de chuva menos generosa sem repetir o cenário crítico da década passada. Ao mesmo tempo, técnicos alertam que o atual conforto hídrico não elimina o risco de novos ciclos de estiagem, cada vez mais intensos sob influência das mudanças climáticas.

Em Orós, o desafio é transformar o espetáculo da sangria em política permanente. Enquanto moradores se reúnem na parede da barragem para registrar em fotos a lâmina d’água transbordando, o poder público lida com decisões de longo prazo: como distribuir o recurso entre consumo humano, irrigação e indústria; como preservar as margens; como manter a qualidade da água em um reservatório que volta a operar no limite.

As próximas semanas devem consolidar o retrato definitivo da quadra chuvosa de 2026 e indicar até onde vai o alívio trazido pelo açude cheio. A sangria que hoje simboliza abundância também recoloca uma pergunta antiga no centro do debate: como garantir que a água que agora sobra continue existindo quando a chuva voltar a faltar.

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