Presidente do Botafogo minimiza anúncio de venda da SAF e afasta risco de fim
O presidente do Botafogo associativo, João Paulo Magalhães Lins, minimiza nesta terça-feira (14) o anúncio de que a SAF do clube está à venda e afasta qualquer risco de extinção do Alvinegro. Em entrevista ao programa Prime Time, da CNN, ele afirma manter diálogo constante com John Textor e demais envolvidos na disputa societária da Eagle Holdings para proteger os interesses do Botafogo.
Venda em classificados britânicos expõe disputa internacional
A entrevista vai ao ar por volta das 22h, em São Paulo, horas depois de vir a público o anúncio da administradora judicial da Eagle Holdings no jornal britânico Financial Times. O texto coloca a SAF do Botafogo, o Lyon e outros ativos do grupo entre ofertas de mercado, como se fossem mais um item nos classificados do jornal econômico.
João Paulo admite o constrangimento de ver o clube exposto dessa forma, mas procura enquadrar o episódio como parte de um procedimento jurídico obrigatório na Inglaterra. “Obviamente é extremamente desagradável você estar nos classificados da Inglaterra, ‘vendo aqui um carro e vendo aqui o Botafogo, o Lyon’. É uma situação muito chata”, diz. Ele explica que o administrador judicial, indicado pela Justiça inglesa, precisa “colocar os ativos na rua” para colher propostas e buscar o melhor cenário possível para pagamento de credores.
A Eagle Holdings é a companhia por meio da qual John Textor concentra suas participações em clubes, inclusive a SAF do Botafogo, criada em 2022 no bojo da lei das Sociedades Anônimas do Futebol. Hoje, a Eagle atravessa uma disputa societária internacional entre Textor e sócios, o que leva a Justiça britânica a intervir na gestão dos ativos. É esse conflito que, na prática, leva o nome do Botafogo às páginas do Financial Times.
O presidente do Botafogo associativo reforça que o clube é minoritário na SAF e tenta decifrar um cenário montado a milhares de quilômetros de General Severiano. “Temos acompanhado atentamente essa briga internacional entre os sócios da Eagle Holdings, a companhia que é acionista do Botafogo”, afirma. Segundo ele, a diretoria busca entender cada passo do processo para evitar que a guerra de sócios respingue de forma irreversível no futebol alvinegro.
Clube busca blindagem enquanto Textor lida com crise de caixa
Desde que assumiu a presidência do Botafogo associativo, João Paulo estabelece como prioridade a relação com o controlador da SAF. O modelo separa o clube social, responsável por patrimônio e esportes amadores, da empresa que administra o futebol profissional. No caso alvinegro, a Eagle de Textor detém a maioria das ações, enquanto o Botafogo tradicional permanece como sócio minoritário, com direitos específicos de veto em temas sensíveis.
É desse lugar de acionista minoritário que o presidente atua agora. “Temos mantido diálogo com todas as partes envolvidas, o dono da SAF do Botafogo, John Textor, com seus sócios, os administradores”, relata. As conversas, segundo ele, são frequentes e têm um objetivo único: “Estamos falando para tentar entender, já que somos os minoritários e estamos nos deparando com toda essa situação nova, a melhor forma de se portar para a gente garantir a proteção do Botafogo, acima de tudo sempre”.
A crise que atinge a Eagle não nasce no Rio. João Paulo aponta a decisão de Textor de comprar o Lyon, da França, como ponto de virada nas finanças do grupo. “O Textor é uma pessoa que fez muito pelo Botafogo. Já tive essa conversa com ele, acho que ele fez uma decisão errada em algum momento de comprar o Lyon, isso gerou um buraco de caixa na empresa dele”, afirma. A opção de expandir o império do empresário americano para um mercado europeu de maior custo acaba, segundo o dirigente, criando uma “bola de neve” que atinge o Botafogo.
O efeito prático desse buraco de caixa aparece em atrasos, ajustes de orçamento e renegociações internas na SAF, que em 2023 e 2024 chega a brigar por títulos nacionais, mas encerra a temporada pressionada por cobranças de credores. As dificuldades financeiras reacendem o debate sobre o modelo de SAF no Brasil, ainda recente, e sobre o grau de dependência dos clubes em relação ao investidor principal.
Em meio à enxurrada de notícias sobre venda de ativos, João Paulo é perguntado diretamente se existe risco de o Botafogo deixar de existir. A resposta é enfática. “Meu dever é proteger o Botafogo da melhor maneira. Estamos mantendo conversas com o John Textor regularmente. Tem risco de algumas coisas acontecerem. Risco do Botafogo acabar não existe, isso não é caso nem da gente falar isso. O Botafogo é imortal”, diz, mirando não apenas investidores, mas uma torcida acostumada a crises sucessivas.
Mercado em alerta e pressão por ajustes na gestão da SAF
A fala do presidente funciona como recado para três públicos distintos: torcedores, mercados financeiro e esportivo, e os próprios sócios da Eagle. Para a arquibancada, a mensagem é a de que o controle societário pode mudar de mãos, mas o CNPJ do clube e sua história de mais de 120 anos, fundada em 1904, não estão em jogo. No mercado, o tom de tranquilidade busca mostrar que, mesmo em meio à disputa jurídica, a estrutura jurídica da SAF preserva o futebol do clube.
Investidores que observam o movimento com cautela tendem a ler a entrevista como sinal de resiliência institucional. O fato de o ativo ir a anúncio em um veículo como o Financial Times, um dos principais jornais de economia do mundo, dá visibilidade internacional à SAF do Botafogo. Ao mesmo tempo, expõe ao mundo a fragilidade financeira da Eagle e reposiciona o clube num tabuleiro global de investidores em futebol, que inclui fundos do Oriente Médio, grupos norte-americanos e conglomerados europeus.
Na prática, qualquer mudança de controle na SAF precisa passar por aprovação regulatória no Brasil, por análise da CBF e, em alguns casos, por questionamentos da própria associação civil, que guarda direitos específicos no contrato de venda do futebol. Esse desenho jurídico cria um colchão de proteção, mas não afasta a necessidade de ajustes internos na governança da SAF, algo que o próprio João Paulo reconhece como caminho provável.
O episódio evidencia também a complexidade de operações cruzadas que ligam o futebol brasileiro a estruturas empresariais montadas em paraísos fiscais ou em praças financeiras como Londres. O torcedor enxerga o time em campo, mas o destino do elenco passa por assembleias de acionistas, decisões de juízes estrangeiros e anúncios em jornais internacionais. Cada movimento societário fora do Brasil pode resultar em impacto direto sobre folha salarial, investimentos em base e capacidade de brigar por títulos.
Próximos capítulos da disputa e futuro da SAF alvinegra
Os próximos meses tendem a ser decisivos para a SAF do Botafogo. O processo conduzido pelo administrador judicial na Inglaterra deve atrair sondagens e eventuais propostas formais de compra do pacote de clubes ligados à Eagle. A partir daí, a discussão deixa de ser abstrata e passa a envolver nomes, valores e prazos, com impacto direto no planejamento de temporadas futuras no Brasil.
Do lado alvinegro, João Paulo promete manter a estratégia de vigilância e diálogo permanente com Textor e possíveis interessados. A diretoria associativa trabalha para reforçar as cláusulas de proteção do clube em qualquer cenário de transição, enquanto o departamento de futebol precisa seguir montando elenco, pagando salários e disputando campeonatos nacionais e continentais. A entrevista desta terça-feira alivia parte da angústia da torcida, mas deixa no ar uma questão que só o tempo responde: quem estará no comando da SAF do Botafogo quando a poeira da disputa internacional finalmente baixar?
