Ultimas

Lula faz ofensiva na Europa para destravar acordo Mercosul–UE

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia, entre 17 e 21 de abril de 2026, uma ofensiva diplomática na Europa. Ele passa por Espanha, Alemanha e Portugal para impulsionar a reindustrialização do Brasil, atrair investimentos e preparar terreno para a entrada provisória do acordo Mercosul–União Europeia, prevista para 1º de maio.

Missão em três frentes para recolocar o Brasil no jogo

A viagem costura três palcos distintos, mas conectados pelo mesmo objetivo: mostrar que o Brasil quer voltar ao centro das decisões políticas e econômicas globais. Em Barcelona, Lula participa da 1ª Cúpula Brasil–Espanha e do Fórum Democracia Sempre. Em seguida, segue para a Alemanha, onde o Brasil é país parceiro da Feira Industrial de Hannover, a maior exposição de tecnologia e indústria do mundo. A agenda termina em Portugal, com reuniões em Lisboa para discutir imigração, tecnologia e relações bilaterais.

O cronograma não é casual. A missão acontece às vésperas da entrada provisória do acordo Mercosul–União Europeia, prevista para começar em 1º de maio, após mais de duas décadas de negociações intermitentes. O governo vê a janela de abril como momento decisivo para aparar resistências políticas, sinalizar previsibilidade regulatória e convencer governos europeus de que o Brasil é parceiro confiável em temas sensíveis, como meio ambiente e segurança jurídica para investimentos.

Barcelona abre série de gestos políticos e econômicos

A primeira parada é Barcelona, onde Lula participa da 1ª Cúpula Brasil–Espanha, encontro que o Itamaraty trata como ponto de virada na relação bilateral. Os dois países mantêm parceria estratégica desde 2003, mas o Palácio do Planalto quer atualizar essa agenda para temas que hoje dominam a política global: transição energética, inclusão social e regulação das plataformas digitais. A programação inclui reuniões entre chefes de governo, encontros ministeriais e a assinatura de acordos em áreas como igualdade de gênero, ciência, tecnologia, saúde, cultura e telecomunicações.

O embaixador Roberto Abdalla, secretário de Europa e América do Norte do Itamaraty, descreve um alinhamento raro entre os governos. “Há uma enorme convergência de valores e prioridades políticas entre os dois governos, o que tem favorecido a cooperação entre o Brasil e a Espanha, em temas como defesa da democracia, combate à desinformação, direitos humanos, igualdade racial e de gênero, inclusão social e desenvolvimento sustentável”, afirma. O recado mira tanto o eleitorado progressista europeu quanto investidores atentos à agenda ESG, que cruza meio ambiente, responsabilidade social e governança.

Lula também participa, ainda na Espanha, do Fórum Democracia Sempre, criado em 2024 para articular governos e entidades em defesa das instituições democráticas. A embaixadora Vanessa Dolce de Faria explica que o fórum se estrutura em três eixos principais: “multilateralismo, desigualdades e combate à desinformação”. O encontro discute, entre outros temas, a sucessão na Secretaria-Geral da ONU e a ampliação da presença feminina em organismos internacionais, além de inserir a violência política e digital de gênero na agenda global. Para o Planalto, associar democracia, combate às fake news e inclusão social ao discurso econômico é peça central da estratégia.

Hannover vira vitrine da reindustrialização brasileira

Na Alemanha, segunda etapa da viagem, o foco muda de tom e passa da diplomacia política para a vitrine tecnológica. Lula vai a Hannover para a principal feira industrial do mundo, onde o Brasil é o país parceiro oficial da edição de 2026. O pavilhão brasileiro terá cerca de 2.700 metros quadrados e reúne mais de 140 empresas nacionais, das gigantes de energia e mineração a startups de automação e softwares industriais. A presença massiva é apresentada pelo governo como prova de que o país busca voltar a produzir bens de maior valor agregado, depois de anos de desindustrialização.

O ministro Carlos Henrique Moscardo, chefe da Divisão de Programas de Promoção Comercial e Investimentos, resume a aposta. “O objetivo é ampliar a nossa visibilidade internacional, mostrar a integração do ecossistema brasileiro e reforçar o posicionamento do país como um destino de investimentos, tecnologia e negócios”, diz. Na prática, a comitiva tenta transformar discursos sobre “neoindustrialização” em contratos, memorandos e anúncios concretos de fábricas, centros de pesquisa e parcerias em inovação, energia limpa, defesa e digitalização da indústria.

Além de circular pelos estandes, Lula tem encontros com o chanceler alemão Friedrich Merz, participa de rodadas econômicas e deve assinar cerca de dez acordos em áreas como inovação, energia, defesa e cooperação tecnológica. O embaixador Abdalla destaca o peso de Berlim na estratégia brasileira. “A cooperação ambiental, obviamente, é um dos eixos mais tradicionais e bem-sucedidos da nossa agenda”, afirma. A Alemanha é peça central em fundos climáticos, financiamento de projetos de preservação da Amazônia e desenvolvimento de cadeias de hidrogênio verde, área em que o Brasil tenta se posicionar como fornecedor global.

Portugal fecha giro com foco em migração e comunidades

A etapa final ocorre em Portugal, onde Lula se reúne com o primeiro-ministro Luís Montenegro e o presidente António José Seguro. A agenda inclui temas sensíveis para milhares de famílias brasileiras, como regras de imigração, vistos, reconhecimento de diplomas e condições de trabalho da comunidade brasileira, hoje estimada em cerca de 500 mil pessoas registradas em território português. No sentido inverso, Lisboa acompanha com atenção a situação da expressiva diáspora portuguesa no Brasil, que mantém laços econômicos, culturais e familiares históricos.

Abdalla ressalta esse caráter singular. “Há uma expressiva diáspora portuguesa no Brasil, uma numerosa comunidade brasileira em Portugal, que está estimada em torno dos 500 mil brasileiros registrados”, observa. O governo brasileiro vê na pauta migratória uma chance de combinar direitos humanos, qualificação profissional e integração produtiva, em um momento de escassez de mão de obra em vários setores da economia europeia, da construção civil à tecnologia da informação.

Disputa por investimentos e lugar na mesa de decisões

A ofensiva europeia de Lula também responde a um movimento global de recomposição de cadeias produtivas após a pandemia e as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Estados Unidos, União Europeia, China e Índia disputam fornecedores confiáveis de energia, alimentos e minerais estratégicos, como lítio, nióbio e terras raras. O Brasil tenta se apresentar como alternativa estável, com matriz elétrica majoritariamente renovável, mercado interno de mais de 200 milhões de consumidores e espaço para expansão da indústria de baixo carbono.

O giro por Espanha, Alemanha e Portugal busca, assim, mais que fotos protocolares. A expectativa do Planalto é sair da viagem com uma carteira ampliada de projetos, cartas de intenção e acordos que ajudem a destravar investimentos privados ao longo dos próximos anos. A proximidade da entrada provisória do acordo Mercosul–União Europeia aumenta a pressão por resultados. Se o pacote avançar, setores como agronegócio, indústria de autopeças, química fina, tecnologia da informação e energias renováveis podem ganhar novos mercados. Se emperrar, cresce o risco de o Brasil perder espaço para concorrentes da Ásia e de outros emergentes.

Ao fim da viagem, Lula volta a Brasília com um teste imediato: transformar compromissos assinados e discursos em mudanças palpáveis na economia real, da geração de empregos industriais à ampliação de exportações de maior valor agregado. O balanço dessa missão europeia, somado ao desfecho do acordo Mercosul–União Europeia em 1º de maio, ajuda a definir se o país volta a ocupar lugar de influência nas grandes negociações multilaterais ou se continua falando alto em um concerto internacional cada vez mais disputado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *