Ciencia e Tecnologia

Rodrigo Bocardi lança BocaTV Canal com foco na voz do público

Rodrigo Bocardi estreia em 17 de maio de 2026 o BocaTV Canal, um canal digital 24 horas ancorado em São Paulo que transforma mensagens do público em programação diária. A operação, que nasce com cerca de 12 horas de conteúdo ao vivo por dia, aposta em jornalismo de serviço e entretenimento guiados pelas demandas locais enviadas pelos espectadores.

Do WhatsApp ao Largo da Batata

O lançamento acontece em um evento aberto no Largo da Batata, na zona oeste de São Paulo, e marca a primeira grande empreitada de Bocardi após a saída da TV Globo. O projeto se apoia em uma estrutura central na capital paulista e em células regionais responsáveis por abastecer o canal com relatos e problemas do cotidiano, sem a figura tradicional do correspondente fixo.

A gênese do BocaTV Canal está em um gesto simples, ainda sem cenário ou vinheta. Bocardi passa a divulgar um número de WhatsApp para receber mensagens de moradores sobre buracos em ruas, falhas em serviços públicos e situações que raramente ganham espaço no noticiário convencional. “A operação começou de forma muito simples, quase como uma brincadeira”, lembra. “Mas foi ganhando escala, virou uma relação direta com o público e hoje é um projeto estruturado.”

Essa relação rende volume desde cedo. O apresentador calcula receber hoje cerca de 600 mensagens por dia, enviadas de diferentes regiões. Desses relatos saem pautas, quadros e desdobramentos práticos. “A ideia é dar espaço para que as pessoas falem com a própria voz e transformar essas interações em conteúdo com desdobramentos práticos”, afirma. “A partir disso, consigo entender as dores das pessoas por região e encaminhar essas demandas.”

Para montar a operação, Bocardi reúne profissionais com experiência em TV aberta e plataformas digitais. Mariano Boni assume a direção geral. Sergio Maria cuida da distribuição. Guilherme Castanho responde pela área comercial. Maya Santana lidera a produção, enquanto Rodrigo Mariz coordena o conteúdo. O grupo aposta em uma rotina próxima da TV tradicional, mas inteiramente voltada ao ambiente digital.

Grade digital e conteúdo de serviço

O BocaTV Canal estreia em plataformas como YouTube e canais FAST, sigla em inglês para televisão gratuita financiada por anúncios, em um modelo que lembra o zapping das TVs conectadas. A grade prevê cerca de dez programas por dia, em blocos sequenciais, que mesclam jornalismo, entretenimento, prestação de serviço e interação com o público espalhado pelo país.

O objetivo declarado é criar hábito em um cenário de consumo fragmentado, no qual vídeos curtos competem com transmissões ao vivo e podcasts. “A gente quer inverter um pouco a lógica do algoritmo. Hoje, está tudo disponível o tempo todo, mas falta hábito. A ideia é trazer para o digital aquilo que a TV aberta sempre teve, que é a grade”, explica Sergio Maria.

O canal não se apresenta como um competidor direto das redações focadas em hard news, o noticiário factual em tempo real. Bocardi evita a corrida por furos e breaking news, concentrando esforços em temas que atravessam o dia a dia das cidades. “Não quero correr atrás do factual. Tem muita gente fazendo isso. A gente quer oferecer coisas úteis, melhorar a vida das pessoas e conectar isso com marcas e serviços”, diz.

A linha editorial dá prioridade a problemas concretos, da iluminação de rua à demora em filas de postos de saúde, e acompanha possíveis soluções. Órgãos públicos e empresas podem ser chamados a responder. Segundo a equipe, a grade só se rompe em situações de relevância incontornável, como entrevistas com candidatos em período eleitoral ou fatos que alterem a rotina das cidades.

A diferença central, enfatiza Bocardi, está na manutenção da fala original do público. Áudios, vídeos e textos enviados por moradores viram ponto de partida para reportagens e quadros. “Se eu tiro a voz do público, acabou o meu veículo. A essência é essa. É a voz da população”, afirma. O lema interno, repetido em reuniões, é direto: “o nosso repórter é a população”.

Negócios, ética e efeito no mercado

No campo comercial, o BocaTV Canal estreia com BYD e Urban como patrocinadoras iniciais e se vende como plataforma de soluções, não apenas de mídia. “É um modelo novo. As marcas ainda estão entendendo como funciona. Mas existe uma capacidade de entrega grande, porque a gente consegue atuar em diferentes frentes”, avalia Guilherme Castanho, superintendente comercial.

O desenho prevê ações que atravessam a tela. Experiências físicas em praças, feiras e eventos de bairro se somam a ativações digitais integradas aos programas. O time oferece projetos feitos sob medida para anunciantes, guiados por demandas reais do público. “A gente não está vendendo só mídia. A gente constrói soluções junto com as marcas”, diz Castanho.

Bocardi coloca um limite explícito nesse modelo ao falar de casas de apostas, um dos segmentos que mais investem em publicidade digital nos últimos anos. “Não quero ser promotor de aposta”, afirma. Ele admite a presença de empresas regulamentadas como anunciantes, mas rejeita contratos que envolvam participação no risco ou incentivo direto à jogatina. A postura busca marcar distância de um tipo de associação que desgasta a imagem de comunicadores.

Para Mariano Boni, a aposta em um canal digital de vocação popular acompanha um movimento que se acelera na indústria. “É um mercado mais fragmentado, com múltiplas plataformas. Esse movimento para o digital é inevitável”, diz. O desafio, segundo ele, é combinar a agilidade das redes sociais com a credibilidade que ainda se atribui a marcas jornalísticas consolidadas. “As pessoas consomem conteúdo no celular, mas ainda buscam validação em veículos confiáveis. O projeto tenta unir essas duas frentes”, afirma.

O lançamento de um canal com 24 horas de funcionamento e forte presença ao vivo entra em um ambiente em que emissoras tradicionais enfrentam queda de audiência linear e migração para o streaming. Ao colocar o público como protagonista das pautas, o BocaTV Canal pressiona concorrentes a rever a distância entre redação e rua. Também abre espaço para novos comunicadores, com um processo seletivo anunciado já em 6 de abril de 2026.

O que vem depois da estreia

O evento de 17 de maio no Largo da Batata funciona como vitrine e laboratório. A equipe testa formatos, mede reações presenciais e online e ajusta a programação ao que chega pelo celular. A promessa é de uma operação gradualmente expansiva, com novas células regionais e mais faixas ao vivo à medida que a base de audiência cresce.

Bocardi insiste que o ritmo de expansão não pode romper o fio que sustenta o projeto: a proximidade com quem manda mensagem, gravada em áudio de um ônibus lotado ou de uma calçada alagada. “A gente está construindo isso passo a passo. A estrutura cresce, mas o mais importante é manter a proximidade com o público e a utilidade do conteúdo”, resume.

O sucesso do BocaTV Canal passa por um teste claro nos próximos meses: a capacidade de transformar desabafo em resposta concreta e rotina digital em hábito de audiência. Se conseguir, pode redesenhar a relação entre moradores e veículos de comunicação, em especial nas grandes cidades. Se não mantiver essa escuta ativa, corre o risco de virar apenas mais um canal na lista infinita de opções que o próprio público hoje aprendeu a ignorar com um toque na tela.

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