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Mensagens recuperadas indicam que PM Gisele pedia divórcio antes de ser morta

Mensagens recuperadas do celular da soldado Gisele Alves Santana indicam que ela pede o divórcio do marido, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, horas antes de ser morta em março de 2026, em São Paulo. A perícia aponta que o oficial acessa e apaga conteúdos do telefone depois do disparo, em um cenário que, segundo a investigação, busca simular suicídio.

Conflito exposto nas conversas

O relatório pericial obtido pela reportagem mostra uma curva de tensão que se intensifica nas horas finais de Gisele. As mensagens, enviadas a partir de seu celular, revelam que a soldado descobre uma suposta traição, confronta o marido e decide pela separação. Em um dos trechos recuperados, ela escreve: “Quero me separar. Vou ser ex, não corna”.

As conversas analisadas contradizem a versão que Geraldo apresenta em depoimentos oficiais. O tenente-coronel sustenta que é ele quem pede o divórcio e que a esposa não aceita o fim do casamento. A extração de dados do aparelho mostra o inverso: Gisele insiste que não consegue mais confiar no companheiro e afirma que a separação é o único caminho possível.

Nas trocas de mensagens, a policial relata ter sido informada por terceiros sobre a suposta traição e se sente humilhada pela omissão do marido. “Você sabe que a informação sobre a traição tomou uma proporção grande, todo mundo falou. O que me doeu foi você não ter me contado o que estava fazendo. Quando te perguntei, você mentiu”, escreve em outro trecho, segundo o laudo. O conteúdo reforça o quadro de desgaste profundo e de ruptura iminente do casamento.

Cena do crime sob suspeita

A morte de Gisele ocorre em um contexto que hoje a Justiça trata como feminicídio qualificado com fraude processual. O caso é registrado inicialmente como suicídio, mas os primeiros laudos já indicam inconsistências. No imóvel onde o casal vive, em São Paulo, peritos encontram vestígios de sangue incompatíveis com um disparo voluntário, sinais de agressão e evidências de que o corpo é movimentado após o tiro.

De acordo com a investigação, na manhã do crime, depois de uma nova discussão, Geraldo imobiliza a esposa por trás e dispara à queima-roupa contra o rosto dela. Em seguida, ancora sua defesa na tese de suicídio. A perícia aponta que o oficial reposiciona o corpo, coloca a arma na mão de Gisele e altera a cena do quarto para dar aparência de autoextermínio.

O acesso ao celular da vítima depois do disparo se torna um dos pontos centrais da acusação. O laudo indica que, logo após o momento estimado do tiro, o telefone é desbloqueado e manuseado, mesmo quando os exames atestam que Gisele ainda está viva. A movimentação digital é descrita como uma “limpeza” de conteúdos, com exclusão de mensagens e tentativas de reorganizar o histórico de conversas.

Investigações anteriores já descrevem um relacionamento marcado por violência psicológica, física e patrimonial, além de controle coercitivo. Mensagens às quais a reportagem tem acesso mostram o comportamento autoritário do tenente-coronel, que exige obediência e submissão da esposa. A combinação de ciúmes, pressão emocional e dependência financeira compõe o quadro que, segundo o Ministério Público, culmina no crime.

Defesa reage e contesta exposição

A Justiça decreta a prisão preventiva de Geraldo, que está detido no Presídio Militar Romão Gomes desde março. O Superior Tribunal de Justiça mantém a decisão e o caso segue para julgamento no Tribunal do Júri, ainda sem data definida. A acusação sustenta que houve feminicídio qualificado e fraude processual, tese que pode levar o oficial a uma pena superior a 30 anos de prisão em regime fechado.

A defesa do tenente-coronel nega o crime e insiste na versão de suicídio. Em nota, o escritório Malavasi Sociedade de Advogados afirma que atua no “acompanhamento das investigações relativas ao suicídio de sua esposa” e diz estar “estarrecido pela manutenção da competência de ambas as jurisdições”, a comum e a militar. A equipe informa que protocolou reclamação no STJ contra o decreto da Justiça Militar e estuda um habeas corpus para questionar a decisão da 5ª Vara do Júri da Capital.

Os advogados argumentam que Geraldo não tenta fugir e colabora com as autoridades desde o início das apurações. Segundo a nota, ele “não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço”, onde o mandado de prisão é cumprido. A defesa classifica a ordem de prisão como “manifestamente ilegal pois proferida por autoridade incompetente”, mas diz que o tenente-coronel não resiste ao ato.

O texto divulgado pelo escritório também critica a exposição pública do caso. “Reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade”, diz a nota. A banca afirma que “no momento oportuno” vai contestar judicialmente qualquer divulgação ou interpretação que, em sua avaliação, viole a intimidade e a imagem do oficial.

Feminicídio em evidência e próximos passos

O caso de Gisele se soma a um cenário nacional de violência de gênero que permanece em níveis elevados. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam, em balanços recentes, centenas de mulheres mortas por ano em circunstâncias classificadas como feminicídio, muitas delas dentro de casa e por parceiros ou ex-companheiros. A morte da soldado, inicialmente tratada como suicídio, acende o alerta para a subnotificação e para os riscos de enquadramentos equivocados nas primeiras horas de investigação.

Especialistas em violência doméstica ouvidos por entidades de pesquisa apontam que situações como a de Gisele expõem as dificuldades de romper relações abusivas mesmo quando há emprego formal, renda e acesso a serviços públicos. A soldado, que tem carreira na corporação, relata em mensagens episódios de humilhação, controle e desconfiança. O processo criminal em curso tenta reconstruir, com base em laudos, testemunhos e dados digitais, a sequência de decisões que leva ao disparo e ao suposto apagamento de provas.

O julgamento de Geraldo no Tribunal do Júri deve testar a capacidade do sistema de Justiça de lidar com crimes de gênero que envolvem agentes do próprio Estado. A defesa promete disputar cada laudo e questionar a interpretação de mensagens privadas. A acusação tenta consolidar a narrativa de que Gisele busca sair de um relacionamento violento e paga com a vida pela decisão de se separar.

Até que os jurados se reúnam, permanecem abertas duas perguntas centrais: em que medida o aparato de proteção a mulheres em situação de violência funciona quando o agressor é um superior hierárquico fardado, e quantas outras histórias semelhantes seguem silenciadas antes que a perícia tenha tempo de recuperar as últimas mensagens de uma vítima.

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