Mísseis dos Houthis atingem Israel e ampliam guerra no Oriente Médio
Os Houthis do Iêmen lançam mísseis contra Israel neste sábado (28), em seu primeiro ataque desde o início da ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. A ação aprofunda o risco de uma guerra regional que já entra na quinta semana e paralisa rotas vitais da economia global.
Escalada em meio à guerra contra o Irã
O disparo de mísseis ocorre enquanto Washington e Tel Aviv mantêm bombardeios contra alvos iranianos desde 28 de fevereiro, data que marca o início formal da guerra. Em pouco mais de um mês, milhares de pessoas morrem em diferentes frentes, de Teerã a Riad, e o Oriente Médio volta a girar em torno de uma disputa que mistura poder regional, petróleo e rotas marítimas.
O grupo houthi, alinhado ao Irã e baseado no norte do Iêmen, já vinha ameaçando reagir ao que chama de “agressão” contra Teerã e o chamado eixo de resistência, que inclui aliados como o Hezbollah e milícias no Iraque e na Síria. Desta vez, os mísseis deixam o discurso e tornam concreta a abertura de uma nova frente contra Israel, com alcance que ultrapassa a Península Arábica.
Na véspera, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirma que Washington espera encerrar as operações militares “dentro de algumas semanas”. A fala sugere uma tentativa de limitar o conflito. A resposta dos Houthis, porém, vai no sentido oposto. Em comunicado, o porta-voz militar Yahya Saree anuncia que o movimento está pronto para continuar “enquanto a escalada contra o Irã e o eixo de resistência prosseguir”.
A ofensiva houthi acontece poucas horas depois de Israel declarar ter realizado uma série de ataques contra Teerã. Segundo o Exército israelense, os alvos são “instalações de infraestrutura pertencentes ao governo iraniano”. O Irã reage mantendo seu próprio ritmo de ataques e atinge uma base aérea na Arábia Saudita, ferindo 12 militares norte-americanos, dois em estado grave.
Rotas marítimas sob pressão e impacto global
O envolvimento direto dos Houthis agrava um ponto sensível da guerra: o controle das principais passagens marítimas da região. O conflito já leva ao fechamento quase total do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo consumido no planeta. A interrupção é descrita por analistas como a maior já registrada no fornecimento global de energia.
Ao atuar a partir do Iêmen, o grupo ameaça também o Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e funciona como gargalo para navios que seguem rumo ao Canal de Suez. Qualquer ataque a cargueiros ou petroleiros nessa área pode forçar desvios de milhares de quilômetros pelo sul da África, encarecer fretes e empurrar para cima os preços de combustíveis, alimentos e produtos industrializados.
Os Houthis já demonstram essa capacidade em 2023, quando passam a atacar navios ligados a Israel em resposta à guerra na Faixa de Gaza após os ataques de 7 de outubro. Naquele momento, companhias de navegação suspendem temporariamente rotas pelo Mar Vermelho e ampliam seguros contra risco de guerra. Agora, com o Irã diretamente envolvido e com o Estreito de Ormuz praticamente paralisado, o potencial de dano é maior.
A guerra atinge em cheio economias dependentes de energia importada, da Europa à Ásia. Países que ainda se recuperam dos efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia veem surgir uma nova pressão sobre inflação, juros e crescimento. Governos e bancos centrais acompanham o avanço dos combates com atenção redobrada, calculando o impacto de semanas adicionais de instabilidade em um mercado de energia já pressionado.
Para o comércio internacional, a combinação entre Ormuz e Bab al-Mandab sob risco funciona como um estrangulamento duplo. Seguradoras elevam prêmios para navios que cruzam a região, e grandes armadores começam a rever cronogramas e rotas. Em poucos dias, atrasos no transporte de contêineres podem se traduzir em prateleiras vazias, componentes em falta e cadeias de produção interrompidas.
Diplomacia em movimento e incerteza sobre próximos passos
No campo diplomático, o Irã tenta mostrar que não está isolado. O presidente Masoud Pezeshkian conversa por telefone com o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e busca coordenar uma frente política que reduza a pressão militar. Islamabad recebe neste domingo ministros das Relações Exteriores da Turquia e da Arábia Saudita, em uma reunião que mira algum tipo de freio à escalada.
Os países envolvidos, porém, chegam à mesa com interesses conflitantes. A Arábia Saudita sofre ataques a bases em seu território e teme ver seus campos de petróleo em risco direto. A Turquia tenta preservar canais com Teerã, Washington e Moscou, enquanto usa seu peso militar na Otan como carta de barganha. O Paquistão busca evitar que a guerra se aproxime de suas fronteiras e pressione ainda mais sua frágil economia.
Para os Estados Unidos, o desafio é encerrar a operação sem parecer recuar diante do Irã e de grupos aliados, como os próprios Houthis. A declaração de Marco Rubio sobre a intenção de concluir os bombardeios em “algumas semanas” abre espaço para uma negociação, mas o cronograma depende da disposição de Teerã em conter ataques a alvos americanos e sauditas.
Israel mantém o foco em enfraquecer a infraestrutura militar iraniana, ao mesmo tempo em que precisa lidar com o risco de novos disparos de mísseis vindos do Iêmen. Se os Houthis passarem a atacar com frequência, as defesas aéreas israelenses terão de se dividir entre ameaças vindas do Líbano, da Síria, de Gaza e agora do sul da Península Arábica.
O cenário mais temido por diplomatas na região é o da consolidação de várias frentes de combate simultâneas, envolvendo Irã, Israel, Estados Unidos, Arábia Saudita e grupos armados aliados. Nesse quadro, qualquer erro de cálculo pode levar a uma guerra mais ampla, com participação direta de novos países e impacto ainda maior sobre energia, comércio e segurança global.
As próximas semanas indicam se os ataques de mísseis dos Houthis serão um recado isolado ou o início de uma campanha prolongada contra Israel e rotas marítimas estratégicas. Enquanto a diplomacia tenta ganhar tempo em reuniões emergenciais, navios aguardam instruções em portos congestionados, mercados ajustam preços a cada novo ataque e milhões de pessoas acompanham à distância uma guerra que redefine, em tempo real, o mapa do poder no Oriente Médio.
