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EUA endurecem Epic Fury e empurram guerra com Irã para impasse regional

A campanha militar dos Estados Unidos contra o Irã entra neste sábado (29) em uma nova fase, um mês após o início da Operação Epic Fury. Com a morte do aiatolá Ali Khamenei e o colapso das negociações de paz, Washington abandona a ideia de uma ofensiva rápida e passa a preparar uma guerra de exaustão que se espalha por vários pontos do Oriente Médio.

Do ataque de choque à guerra de exaustão

O primeiro mês da Epic Fury deixa um saldo de destruição sem precedentes em território iraniano, segundo fontes militares americanas e relatos da imprensa estatal de Teerã. Refinarias, bases de mísseis, centros de comunicação e instalações nucleares sofrem ataques sucessivos de bombardeiros B-52 e enxames de drones, numa tentativa de desorganizar as forças armadas iranianas antes que consigam reagrupar suas unidades.

A morte de Khamenei, confirmada por Teerã nos primeiros dias da ofensiva, altera o cálculo político tanto em Washington quanto na região. A ausência de um líder supremo embaralha a sucessão interna, alimenta protestos em dezenas de cidades e expõe uma disputa aberta entre generais da Guarda Revolucionária e remanescentes do establishment político. Em vez de acelerar uma saída diplomática, porém, a crise interna empurra o conflito para um terreno mais imprevisível.

Em Washington, o “Plano de 15 Pontos” da administração Trump, que previa alívio parcial de sanções em troca de garantias nucleares e abertura do Estreito de Ormuz, perde qualquer tração. O governo americano acusa Teerã de ter “sabota do” as últimas rodadas de conversas e, com o colapso das tratativas, passa a trabalhar abertamente com três cenários militares, segundo fontes do Pentágono ouvidas sob condição de anonimato.

O eixo principal é o chamado “estrangulamento energético”. Trump fixa o dia 6 de abril como prazo final para o Irã reabrir o Estreito de Ormuz à navegação comercial. Assessores próximos descrevem esse ultimato como a “linha vermelha” da Casa Branca. Se o canal seguir bloqueado, a opção na mesa é atacar de forma sistemática refinarias e campos de petróleo na ilha de Kharg, responsável por uma parcela decisiva das exportações iranianas. “A mensagem é simples: sem Ormuz, não há petróleo”, resume um alto funcionário do Departamento de Estado.

Em paralelo, estrategistas americanos apostam no desgaste interno do regime. As imagens que circulam nas redes sociais mostram manifestações contínuas em Teerã, Mashhad e Isfahan, descritas por analistas como a maior onda de protestos desde 1979. A Casa Branca assume publicamente que espera uma ruptura vinda de dentro. “O povo iraniano não precisa de uma invasão terrestre para retomar o país”, afirma um assessor de segurança nacional. Washington evita falar em mudança de regime, mas sinaliza que pretende explorar fissuras entre oficiais da Guarda Revolucionária e a população urbana exausta por décadas de sanções.

O terceiro pilar é a escalada de precisão. Bombardeiros de longo alcance e grupos de ataque navais cruzam o Golfo Pérsico e o Mar Arábico com uma missão clara: localizar e destruir o que resta dos cerca de 2,5 mil mísseis balísticos iranianos. O objetivo é limitar qualquer capacidade de retaliação de médio alcance e impedir que o Irã use a dissuasão nuclear, mesmo que apenas como ameaça política.

Houthis abrem segunda frente e pressionam rotas de energia

O cálculo americano muda de escala quando os Houthis deixam as sombras e entram formalmente na guerra. O grupo iemenita, apoiado por Teerã há pelo menos uma década, assume o lançamento de mísseis contra Israel e o ataque ao porto de Salalah, em Omã, um dos principais pontos de apoio logístico da região. A decisão transforma o que era um conflito centrado no Golfo em uma rede de frentes entrelaçadas.

Com o Irã tentando fechar o Estreito de Ormuz e os Houthis ameaçando o estreito de Bab al-Mandab, as rotas de energia que cruzam o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho sofrem um aperto inédito. Tanqueiros passam a contornar o Cabo da Boa Esperança, numa viagem que pode acrescentar até duas semanas a cada trajeto. Operadores de navios estimam aumento imediato de até 30% nos custos de frete, o que já se reflete nos contratos futuros de petróleo em Londres e Nova York.

Analistas de mercado ouvidos por bancos de investimento calculam que uma interrupção prolongada em Ormuz e Bab al-Mandab pode empurrar o barril para perto de US$ 150 nas próximas semanas, acima do pico registrado em 2008. Isso significa combustíveis mais caros nas bombas americanas em um ano eleitoral e pressão direta sobre a inflação mundial. “O coração do comércio global passa por esses gargalos. Se eles se fecham, o efeito em cascata é imediato”, diz um consultor energético baseado em Dubai.

No Mar Vermelho, a presença dos Houthis adiciona uma camada de desafio militar. O grupo testa um modelo de guerra de atrito assimétrica que desgasta a superioridade tecnológica americana. Drones de cerca de US$ 20 mil cruzam o céu em direção a cargueiros e navios de guerra, obrigando destróieres a disparar mísseis interceptadores que podem custar dezenas de milhões de dólares cada. Em poucas semanas, os EUA queimam parte relevante de seus estoques de munição guiada, segundo relatórios internos citados pela imprensa americana.

Oficiais do Pentágono admitem em privado que, se essa dinâmica se prolongar por meses, a frota americana no Mar Vermelho e no Golfo pode enfrentar restrições reais de munição de precisão. Isso abriria espaço para que ataques mais numerosos escapem da defesa e atinjam navios militares ou terminais de petróleo. “É como usar pedras baratas para quebrar vitrines muito caras”, resume um ex-comandante da Marinha dos EUA.

A entrada dos Houthis reacende também temores em Riad. A Arábia Saudita, alvo de ataques de mísseis e drones lançados do Iêmen na década passada, vê o conflito se aproximar novamente de suas fronteiras petrolíferas. Autoridades sauditas avaliam duas saídas: pressionar Washington por uma intervenção terrestre no Iêmen para desmontar a infraestrutura Houthi ou, ao contrário, recuar da coalizão para evitar nova devastação em seu território. Em ambos os casos, os EUA arriscam isolamento diplomático, ao lado de Israel, em uma região que redefine suas alianças.

Epicentro global de risco e horizonte incerto

A mudança de desenho da Epic Fury deixa cada vez mais claro que o sucesso americano não depende apenas de destruir alvos no mapa iraniano. A sobrevivência política da estratégia passa por manter abertas as artérias comerciais do mundo sob fogo cruzado de drones iemenitas e mísseis iranianos. Seguradoras marítimas já revisam prêmios para o trânsito em Ormuz e Bab al-Mandab, enquanto grandes empresas de logística elaboram planos de contingência para rotas alternativas pela África.

A guerra de exaustão em curso também redesenha a política interna dos próprios EUA. Com o prazo de 6 de abril se aproximando, Trump enfrenta a pressão de aliados republicanos que exigem uma vitória visível, e de democratas que alertam para o risco de atolamento militar parecido com o do Iraque em 2003. Em entrevistas recentes, o presidente insiste que “não busca mudança de regime”, mas repete que “todas as opções continuam na mesa” caso o Irã mantenha fechado o estreito.

Diplomatas europeus tentam reabrir canais discretos com Teerã e Washington, mas relatam um ambiente rarefeito. A morte de Khamenei dificulta a formação de um interlocutor único do lado iraniano, enquanto a escalada simultânea no Golfo e no Mar Vermelho reduz o espaço para cessar-fogos localizados. Em vez de um grande acordo, o cenário mais provável, segundo negociadores acostumados à região, é uma sequência de trégua parciais, frágeis e sujeitas a rupturas repentinas.

No curto prazo, o mundo se prepara para combustível mais caro, cadeias de suprimento sob estresse e um xadrez diplomático em que velhos adversários podem se aproximar por conveniência energética. A Rússia e a China observam de perto as dificuldades americanas e tentam capitalizar o desgaste com novos acordos de fornecimento a países asiáticos e africanos.

Enquanto destróieres americanos patrulham o Mar Vermelho e caças cruzam o céu sobre o Estreito de Ormuz, a pergunta central permanece sem resposta: até que ponto Washington está disposto a estender uma guerra que começou como punição cirúrgica e, um mês depois, ameaça se tornar um teste prolongado de fôlego econômico, político e militar para todo o Ocidente.

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