Entrada dos Houthis leva guerra EUA-Irã a novo patamar no Oriente Médio
Um mês após o início da Operação Epic Fury, a guerra entre Estados Unidos e Irã entra neste sábado (29) em uma fase mais arriscada. A entrada formal dos Houthis, grupo armado do Iêmen, transforma o conflito em uma disputa regional pelo controle das principais rotas de energia do planeta.
De campanha punitiva a guerra de exaustão
O bombardeio inicial americano, lançado no fim de fevereiro, tem como objetivo enfraquecer a estrutura militar iraniana e forçar uma rendição negociada. A morte do líder supremo Ali Khamenei, nos primeiros dias da ofensiva, parecia confirmar a aposta dos estrategistas em Washington de que a “decapitação” do regime derrubaria também sua rede de milícias aliadas.
O cálculo não se sustenta um mês depois. O colapso das negociações de paz e a rejeição explícita de Teerã ao chamado Plano de 15 Pontos, proposto pela Casa Branca, empurram o conflito para uma fase de exaustão. Em reuniões fechadas no Pentágono, generais trabalham hoje com três caminhos: estrangular a economia iraniana, apostar em uma mudança de regime por dentro ou prolongar a campanha de bombardeios de precisão.
No centro da estratégia de estrangulamento está o Estreito de Ormuz, passagem por onde, em tempos de paz, circulam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. Donald Trump fixou o dia 6 de abril como prazo final para o Irã reabrir totalmente a rota. Caso Teerã mantenha o bloqueio parcial, a opção sobre a mesa é a destruição completa das refinarias e campos de petróleo na ilha de Kharg, responsável por boa parte das exportações do país.
Assessores próximos ao presidente descrevem a lógica com frieza. “O objetivo é simples: pressionar até o colapso econômico e forçar uma capitulação militar”, resume um alto funcionário do Departamento de Defesa, sob condição de anonimato. A Casa Branca evita falar em invasão terrestre, mas admite que essa hipótese volta ao radar se a pressão econômica e os ataques aéreos não produzirem uma saída negociada.
Enquanto mira a infraestrutura petrolífera, Washington tenta aproveitar a maior onda de protestos internos no Irã desde 1979. Imagens de cidades como Isfahan, Shiraz e Tabriz mostram milhares de manifestantes nas ruas, em atos impulsionados pelo racionamento de combustível, pela inflação em disparada e pela percepção de que a elite militar protege seus privilégios em plena guerra.
Em paralelo, bombardeiros B-52 e navios da 5ª Frota mantêm no ar a fase mais tecnológica da Epic Fury: a caça ao que resta dos cerca de 2,5 mil mísseis balísticos iranianos. O comando americano quer neutralizar qualquer capacidade de retaliação nuclear ou de ataque massivo a aliados como Israel e Arábia Saudita. “Enquanto controlarmos o céu, o Irã não terá como mudar o rumo do conflito”, afirma um oficial da Marinha, em conversa com jornalistas em Bahrein.
Pinça naval e guerra de atrito assimétrica
A sensação de que os Estados Unidos detêm a iniciativa começa a ruir com o avanço dos Houthis. Até a semana passada, o grupo atuava na penumbra, oferecendo apoio logístico e lançando drones esporádicos contra alvos secundários. O quadro muda com o disparo de mísseis em direção a Israel e o ataque ao porto de Salalah, em Omã, um dos principais pontos de apoio da navegação comercial no norte do oceano Índico.
A ofensiva iemenita cria uma pinça naval sobre o fluxo global de energia. De um lado, o Irã ameaça fechar o Estreito de Ormuz, estreito de 39 km que separa o Golfo Pérsico do Golfo de Omã. De outro, os Houthis passam a mirar o Bab al-Mandab, gargalo entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden. Juntas, as duas passagens conectam campos de petróleo do Golfo, refinarias da Ásia e terminais europeus no Mediterrâneo.
Com as duas rotas sob risco, navios petroleiros começam a evitar a região e a contornar o cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África. A mudança acrescenta até duas semanas a algumas travessias e encarece em dezenas de milhões de dólares cada viagem de grandes cargueiros. Analistas calculam que, somente em março, o preço do barril de petróleo acumula alta superior a 30%, empurrando para cima combustíveis e fretes em grandes economias, inclusive nos Estados Unidos.
No Mar Vermelho, a assimetria da disputa expõe uma vulnerabilidade americana. Os Houthis empregam drones avaliados em cerca de US$ 20 mil por unidade para testar, saturar e provocar os sistemas de defesa de navios de guerra. Cada interceptação, feita com mísseis guiados lançados de destroyers e cruzadores, pode custar dezenas de milhões de dólares. O desequilíbrio financeiro, multiplicado por semanas de ataques, drena estoques de munição de precisão e encarece a permanência de cada navio na região.
Oficiais americanos admitem em privado que a guerra de atrito no ar e no mar tende a se prolongar. “Estamos gastando munição de alto valor para neutralizar ameaças de baixo custo”, reconhece um militar da coalizão, em base no litoral saudita. O receio é que, mantido esse ritmo por meses, a frota perca capacidade de resposta rápida diante de um ataque coordenado de mísseis ou de uma crise paralela em outro teatro, como o Pacífico.
A entrada firme dos Houthis também reabre uma ferida sensível para Washington: a relação com a Arábia Saudita. Riad trava, desde 2015, um conflito devastador no Iêmen contra o mesmo grupo, apoiado pelo Irã. O temor, agora, é que novos mísseis caiam sobre cidades sauditas ou sobre instalações da estatal Aramco, alvo de bombardeios em 2019. Nesse cenário, diplomatas acreditam que os sauditas podem exigir maior compromisso militar americano em terra ou, ao contrário, se afastar da coalizão para evitar nova onda de ataques.
Mercados em alerta e dilema estratégico dos EUA
As consequências começam a aparecer na economia real. Companhias marítimas reajustam tabelas de frete quase semanalmente, enquanto seguradoras elevam prêmios de risco para qualquer embarcação que cruze o Mar Vermelho ou se aproxime do Golfo Pérsico. Bancos revisam para cima projeções de inflação global para 2026, e governos preparam pacotes emergenciais de subsídio a combustíveis.
Executivos do setor de energia falam em um possível “choque de oferta” caso o bloqueio duplo em Ormuz e Bab al-Mandab se prolongue além de abril. Em alguns mercados, o diesel já acumula alta de dois dígitos em menos de 30 dias, pressionando cadeias de transporte, alimentos e indústria pesada. Nos Estados Unidos, assessores de Trump acompanham pesquisas que mostram crescente preocupação com o preço da gasolina, tema sensível em anos eleitorais.
A fragmentação do conflito em múltiplas frentes mostra o limite da estratégia de decapitação do comando iraniano. A eliminação de Khamenei não desarticula a constelação de milícias alinhadas a Teerã. No Líbano, no Iraque, na Síria e agora no Iêmen, grupos armados continuam a operar com relativa autonomia, abrindo focos de tensão que tornam mais difícil qualquer saída diplomática rápida.
Para o Pentágono, o sucesso da Operação Epic Fury deixa de ser medido apenas pelo número de alvos destruídos no território iraniano. A métrica passa a incluir a capacidade de manter abertas as artérias comerciais que sustentam a economia global, sob fogo constante de drones e mísseis lançados de desertos e montanhas iemenitas. “Se perdermos o controle do mar, todo o esforço aéreo se torna insuficiente”, resume um analista de defesa em Washington.
A próxima virada de página está marcada no calendário: 6 de abril, prazo fixado por Trump para a reabertura do Estreito de Ormuz. Até lá, diplomatas tentam reanimar canais discretos com Teerã, em meio a mensagens públicas cada vez mais duras de ambos os lados. Uma extensão do bloqueio pode empurrar os Estados Unidos para decisões ainda mais arriscadas, como ataques massivos à infraestrutura petrolífera iraniana ou o envio de tropas terrestres à região.
A pergunta que se impõe, em capitais do Ocidente e do Oriente Médio, é se Washington está disposto a sustentar uma guerra de desgaste em várias frentes, com custos crescentes em recursos militares, estabilidade regional e inflação global. A resposta, por enquanto, continua perdida entre reuniões a portas fechadas no Pentágono, protestos nas ruas iranianas e drones de baixo custo que cruzam silenciosamente o céu do Mar Vermelho.
