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Insultos e ameaça de processo marcam reta final da CPMI do INSS

O relator da CPMI do INSS, Alfredo Gaspar, e o deputado Lindbergh Farias (PT) trocam insultos e ameaças de processo em uma reunião tensa no Senado nesta quinta-feira (27). O confronto explode durante a leitura do relatório final da comissão, a três dias do prazo limite para conclusão dos trabalhos.

Clima de fim de feira na reta final da comissão

A sessão, realizada no plenário da CPMI no Senado, em Brasília, começa com o script esperado: leitura de um relatório de cerca de 4.340 páginas, dividido em nove núcleos de investigação. O texto mira 218 pessoas, entre empresários, intermediários, servidores e dirigentes de entidades suspeitos de atuar em fraudes e esquemas envolvendo o INSS.

O roteiro desanda quando Gaspar decide resgatar uma fala do ministro Luís Roberto Barroso, de março de 2018, em uma sessão do Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, Barroso chama o colega Gilmar Mendes de “pessoa horrível” e de “mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia”. Gaspar lê o trecho e classifica a fala como uma “poesia”.

O comentário vem na esteira da decisão recente do STF, que derruba a liminar que permitia a prorrogação da CPMI, instalada em 20 de agosto e com encerramento previsto para sábado, dia 28 de março de 2026. Em tom irônico, o relator afirma: “Eu não sei, mas gostei da poesia”. Lindbergh reage imediatamente: “Isso é um circo ou um relatório? Cadê o relatório?”.

Gaspar devolve com outra provocação: “Deputado Lindinho, não estamos falando de Odebrecht, calma”. O apelido e a referência à empreiteira, símbolo da Operação Lava Jato, acendem o estopim. Exaltado, Lindbergh chama o relator de “estuprador” em meio ao burburinho da sala.

Gaspar reage aos gritos: “Olha, me chamou de estuprador. Eu estuprei corruptos como Vossa Excelência, que roubam o Brasil. Ladrão, corrupto!”. Na sequência, ao falar com jornalistas, amplia o ataque: “Seu canalha, eu vou lhe processar. Você é do submundo do crime, nasceu no pó, continua no pó”. No mesmo embalo, chama o petista de “bandido, criminoso e cafetão”.

O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), tenta conter o incêndio. Ele classifica a acusação de Lindbergh como “grave” e ameaça retirar o deputado da sessão. “Isso vai ficar para o Conselho de Ética”, avisa, antes de devolver a palavra a Gaspar. Lindbergh permanece no plenário, sob protestos cruzados da base governista e da oposição.

Da apuração de fraudes ao desgaste político

O descontrole expõe o grau de tensão em torno da CPMI do INSS, criada para investigar fraudes em benefícios e irregularidades administrativas no órgão que paga aposentadorias e pensões a cerca de 39 milhões de brasileiros. O relatório de Gaspar pede o indiciamento de 218 pessoas, entre elas Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, o advogado Carlos Zucolotto, conhecido como Careca do INSS, e outros nomes ligados a esquemas de intermediação de vantagens.

Gaspar sustenta que há indícios de pagamentos do chamado Careca do INSS a Lulinha e recomenda a prisão preventiva do filho do presidente Lula, medida extrema que mira o coração político do governo. A inclusão de figuras próximas ao Planalto torna o texto um instrumento de disputa eleitoral antecipada, mais do que um simples documento de apuração técnica.

O relator tenta capitalizar esse momento ao desafiar publicamente Lindbergh. “Eu coloco minha vida a limpo e quero fazer um desafio: Lindbergh, prove hoje e agora qualquer indício disso. Eu renuncio meu mandato imediatamente. Agora, se você não provar, renuncie o seu [mandato]”, afirma, diante de câmeras e gravadores, logo após a sessão. Em seguida, avisa: “Vou processá-lo [na Justiça] e no Conselho de Ética. É uma mentira inventada para me desestabilizar”.

Lindbergh não apresenta provas na sessão, mas sustenta a acusação e insiste que o relator atua com motivação política. Aliados do PT afirmam que o relatório é “um libelo eleitoral” contra o governo Lula e questionam a robustez de parte dos indícios reunidos pelo relator. Parlamentares da oposição, por sua vez, veem no texto uma oportunidade de prolongar o desgaste do Planalto para além do encerramento formal da comissão.

A troca de ofensas ofusca o conteúdo técnico do relatório e alimenta a percepção de uma CPMI transformada em palanque. A cada nova fala, desaparecem os números, as quebras de sigilo, os depoimentos e os dados reunidos ao longo de pouco mais de sete meses de trabalho. Ganha espaço a guerra de narrativas, transmitida ao vivo e multiplicada em redes sociais.

No Senado, o episódio repercute de forma imediata. Parlamentares de diferentes partidos classificam a cena como “degradação” do ambiente institucional e cobram reação dos conselhos de ética da Câmara e do Senado. A defesa da liberdade de expressão dá lugar a um novo debate: onde termina a crítica dura e começa o ataque que pode configurar quebra de decoro.

Risco de crise ética e disputa prolongada

O presidente da CPMI decide encaminhar o caso ao Conselho de Ética, movimento que abre a possibilidade de processos disciplinares, advertências e até perda de mandato em cenário extremo. A medida atinge diretamente Gaspar e Lindbergh, mas também funciona como recado para o plenário: a escalada verbal tem custo político concreto.

Os processos que Gaspar promete mover na Justiça contra Lindbergh podem se arrastar por anos e manter o episódio vivo no noticiário. A disputa entre os dois não se limita ao bate-boca desta quinta-feira. Ela tende a se refletir nas bases eleitorais, na relação com seus partidos e na barganha por espaços em futuras comissões e relatorias.

O relatório de 4.340 páginas, se aprovado até sábado, segue para o Ministério Público, para o Tribunal de Contas da União e para outros órgãos de controle. As conclusões podem embasar novas investigações criminais e ações de ressarcimento aos cofres públicos. O teor das acusações contra Lulinha, o Careca do INSS e demais citados ainda deve gerar reações duras do governo e de sua base no Congresso.

O fim formal da CPMI não encerra a disputa. Governistas se mobilizam para deslegitimar o relatório nas próximas semanas, enquanto a oposição promete transformar cada um dos 218 pedidos de indiciamento em munição política. O embate desta quinta-feira antecipa o tom da batalha que se desloca agora para o plenário, os tribunais e, em breve, as urnas.

Entre insultos, ameaças de renúncia e promessas de processo, a pergunta que permanece é se o eleitor conseguirá, ao fim, separar o que é prova do que é performance em uma CPI que nasce para investigar o INSS e desemboca em um novo capítulo da polarização política brasileira.

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