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Após desgaste na CPMI, Fávaro deixa Agricultura e mira Senado em 2026

Carlos Fávaro decide não voltar ao Ministério da Agricultura após a votação da CPMI do INSS e antecipa sua saída do governo Lula. O ministro passa a concentrar esforços na disputa por uma vaga no Senado por Mato Grosso em 2026, enquanto o Palácio do Planalto redesenha o comando da área agrícola.

Desgaste na CPMI acelera saída do ministério

A decisão rompe a expectativa de que Fávaro deixaria o cargo apenas na próxima segunda-feira, 30 de março de 2026, prazo considerado interno pelo governo. A movimentação política em torno da CPMI do INSS, instalada para apurar irregularidades no instituto, altera o cronograma e empurra o ministro de volta ao tabuleiro eleitoral em Mato Grosso.

O governo chama ministros de volta ao Congresso em votações sensíveis, para reforçar a base e evitar derrotas em comissões mistas como a da Previdência. Fávaro participa desse movimento e se vê no centro de um jogo que envolve não só sua sobrevivência política, mas também a força da própria gestão Lula no Senado.

O parecer do relator Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas, pede o indiciamento de 216 pessoas, entre elas o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. A inclusão do nome de Lulinha transforma a CPMI em foco de desgaste direto para o Planalto, amplia a pressão sobre a base aliada e encurta o espaço de manobra de ministros com mandato eletivo.

No Senado, a suplente Margareth Buzetti, do PP de Mato Grosso, ocupa a cadeira aberta por Fávaro desde o início do governo. Com o acirramento da disputa em torno do relatório, interlocutores no Congresso relatam que ela sinaliza apoio ao texto de Gaspar, alinhando-se a interesses da oposição e de parte do centrão. O gesto acende o alerta no governo e acelera a estratégia de reorganização da bancada governista.

Rearranjo no campo e disputa em Mato Grosso

O movimento de Fávaro tem efeito imediato sobre o comando da política agrícola. André de Paula, atual ministro da Pesca e Aquicultura, deve ser deslocado para a Agricultura, em substituição ao colega de governo. A mudança ainda depende de oficialização, prevista para uma cerimônia no Palácio do Planalto, mas já é tratada como definida por auxiliares próximos do presidente.

O rearranjo ocorre a menos de uma semana do prazo legal de 4 de abril, quando ocupantes de cargos no Executivo precisam se desincompatibilizar para disputar as eleições municipais de 2026. A regra atinge ministros que pretendem concorrer e cria uma onda de saídas antecipadas, que o Planalto administra caso a caso. No caso de Fávaro, o relógio eleitoral se mistura à necessidade de conter danos da CPMI.

Ex-senador por Mato Grosso, ele deixa o mandato em 2023 para assumir a Agricultura no terceiro governo Lula. À época, o gesto simboliza a tentativa do PT de reduzir a resistência do agronegócio e se aproximar de uma das bancadas mais influentes do Congresso. Fávaro atua como ponte com produtores rurais e cooperativas, enquanto Margareth Buzetti, sua suplente, assume a vaga no Senado.

A votação da CPMI expõe, porém, a fragilidade desse arranjo. Com a suplente indicando voto favorável ao relatório que mira Lulinha, o governo perde margem de segurança em um dos colegiados mais sensíveis do momento. O retorno de Fávaro ao Senado, ainda que só em 2026, passa a ser visto dentro do Planalto como forma de recuperar influência em Mato Grosso e reequilibrar a relação com o agronegócio em um ambiente mais hostil.

Aliados do ministro avaliam que a antecipação da saída do cargo também evita que ele se torne alvo direto de desgaste prolongado. Na leitura desses interlocutores, estender a permanência na Esplanada em meio ao ruído da CPMI poderia enfraquecer sua imagem junto ao eleitorado rural e tornar mais difícil a tarefa de voltar ao Senado com força competitiva.

Impacto político e próximos passos no governo Lula

A troca na Agricultura mexe com um orçamento bilionário e com políticas que afetam diretamente o campo, do crédito rural a programas de seguro e apoio à produção. Ao transferir André de Paula para a pasta, o governo busca dar continuidade às ações já em curso, reduzir ruídos com o setor e sinalizar estabilidade em ano politicamente sensível.

A CPMI do INSS segue como pano de fundo. A rejeição ou aprovação do relatório de Alfredo Gaspar influencia o clima no Congresso e o grau de exposição do governo às acusações de irregularidades. A presença de aliados fiéis nas comissões e no plenário torna-se decisiva para blindar o Planalto e limitar o alcance dos pedidos de indiciamento que miram o entorno do presidente.

O calendário eleitoral de 2026 adiciona outra camada de tensão. Em Mato Grosso, a disputa por uma vaga no Senado deve opor Fávaro a nomes ligados ao agronegócio mais distante do governo federal e a lideranças de direita já consolidadas no estado. O desempenho do ministro na Agricultura e sua atuação na crise em torno da CPMI entram no cálculo dos eleitores, sobretudo em cidades dependentes do campo.

No Congresso, a reorganização da base aliada inclui negociações por espaços em comissões, relatorias estratégicas e cargos no segundo e terceiro escalões. A escolha de quem comanda a Agricultura passa a ser peça central nessa barganha, já que o ministério dialoga com uma cadeia produtiva que responde por mais de 20% do PIB brasileiro e pelo saldo positivo da balança comercial.

O Planalto prepara uma cerimônia para formalizar a saída de Fávaro e a posse de André de Paula, gesto que pretende transmitir calma e continuidade. A dúvida, dentro e fora do governo, é se essa reorganização será suficiente para conter o desgaste provocado pela CPMI do INSS e preservar o capital político necessário para enfrentar as urnas em 2026, em Brasília e em Mato Grosso.

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