Mãe iraniana cobra justiça na ONU por ataque a escola infantil
Uma mãe iraniana que perdeu os dois filhos em um ataque aéreo a uma escola cobra justiça diante do Conselho de Direitos Humanos da ONU nesta sexta-feira (27). Em um depoimento emocionado em Genebra, ela relembra a última conversa com as crianças e transforma luto em acusação direta contra os responsáveis pelo erro militar que matou dezenas de estudantes.
Dor pessoal exposta ao mundo
A sala principal do Conselho, em Genebra, fica em silêncio quando a iraniana recebe o microfone. Ela fala em voz firme, mas as pausas revelam o esforço para conter o choro. Os delegados de mais de 40 países acompanham a cena, enquanto tradutores tentam acompanhar cada palavra.
Ela conta que, na manhã do ataque, em uma cidade do oeste do Irã, se despede dos filhos às 7h15. O mais velho, de 10 anos, pede para levar um desenho para mostrar à professora. A filha, de 8, reclama do café da manhã apressado e promete ligar no intervalo. “Essa foi a última vez que ouvi as vozes deles”, diz. Minutos depois, um míssil atinge a escola.
Segundo autoridades locais, ao menos 32 crianças morrem na explosão e outras 14 ficam gravemente feridas. O prédio, que abriga cerca de 300 alunos do ensino fundamental, desaba parcialmente. Fotos divulgadas por organizações humanitárias mostram carteiras retorcidas, mochilas queimadas e quadros cobertos de poeira.
A mãe relata que chega ao local menos de 20 minutos após o impacto. Enfrenta fumaça, gritos e sirenes. Reconhece a mochila do filho entre escombros. “Não encontrei corpos. Encontrei silêncio”, afirma. O relato transforma um evento já politizado em história concreta de perda, diante de uma plateia acostumada a números e relatórios.
Erro militar e pressão internacional
O ataque, segundo veículos de imprensa dos Estados Unidos, resulta de um erro militar em uma operação que mirava um alvo considerado estratégico na região. Fontes militares sob anonimato admitem à mídia americana que sistemas de orientação falham e desviam o míssil em alguns quilômetros. A escola infantil acaba atingida em cheio.
O reconhecimento do erro, ainda que extraoficial, alimenta a indignação dentro da ONU. Delegações de países europeus cobram investigações independentes. Representantes de nações em conflito lembram que a Convenção de Genebra protege escolas, hospitais e demais espaços civis. Diplomatas apontam que ao menos 40% das vítimas de ataques em zonas de guerra hoje são crianças, de acordo com estimativas de organizações internacionais.
A sessão emergencial do Conselho, convocada em menos de 48 horas após o ataque, tenta responder a essa pressão. O embaixador que representa o país acusado de autoria do míssil evita admitir culpa direta. Fala em “tragédia inaceitável” e promete colaboração com “um inquérito abrangente”. A mãe reage de imediato. “Meu problema não é a palavra tragédia”, contesta. “Meu problema é a palavra erro. Um erro que mata crianças não pode ser tratado como acidente de percurso.”
Os números reforçam o argumento. Em relatórios recentes, agências da ONU calculam que mais de 2,3 mil escolas em áreas de conflito sofrem algum tipo de ataque ou ocupação por forças armadas entre 2020 e 2025. No Irã e em países vizinhos, bombardeios e confrontos obrigam milhares de famílias a retirar filhos das aulas. A promessa de educação, diz a mãe, vira rotina de medo. “Quando mando meus filhos para a escola, não deveria precisar escolher entre aprender e sobreviver”, afirma.
Responsabilização e futuro incerto
O encontro em Genebra busca mais que um gesto simbólico. Delegados discutem, a portas fechadas, a criação de um mecanismo específico para apurar ataques contra escolas em zonas de conflito, com possibilidade de envio de casos ao Tribunal Penal Internacional. A proposta inclui prazos para investigações e punições a comandantes que autorizem operações sem checagem rigorosa de alvos civis.
Organizações de direitos humanos pressionam por prazos claros. Sugerem que o relatório inicial sobre o ataque à escola iraniana seja apresentado em até 60 dias, com nomes de responsáveis diretos e cadeia de comando. A mãe, sem cargos nem mandato, resume a urgência em uma frase: “Não quero condolências diplomáticas. Quero que alguém assine o papel que diz: eu autorizei esse míssil”.
A repercussão do caso ultrapassa o Conselho. Em capitais de pelo menos dez países, incluindo Teerã, Londres e Paris, grupos de pais organizam vigílias em frente a embaixadas e sedes da ONU. Velas, fotos de crianças e cartazes com a pergunta “Quem protege nossos filhos?” ocupam calçadas e praças. O episódio reacende o debate sobre a venda de armamentos e o controle de operações conduzidas a distância, muitas vezes a milhares de quilômetros do alvo.
A discussão sobre responsabilidade militar agora se cruza com o futuro de comunidades inteiras. Se a ONU conseguir avançar em mecanismos de investigação e punição, comandantes terão mais obstáculos antes de aprovar ataques em áreas urbanas. Se fracassar, a imagem daquela mãe iraniana, parada diante de microfones desligados, tende a virar símbolo de uma era em que a escola deixa de ser refúgio. A pergunta que ecoa em Genebra, e fora dela, é se as próximas crianças terão mais do que memória e nomes gravados em placas de mármore.
