EUA aliviam sanções ao petróleo russo e irritam aliados europeus
Os Estados Unidos suspendem por 30 dias parte das sanções ao petróleo russo para conter a disparada do barril e provocam forte reação de aliados europeus nesta sexta-feira (13). A medida, anunciada na véspera, tenta segurar preços que encostaram em US$ 120 após a escalada da crise no Oriente Médio, mas reacende o debate sobre o financiamento da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Kiev, Paris e Berlim cobram coerência do Ocidente na pressão econômica sobre Moscou.
Alívio no preço, pressão na frente de guerra
A isenção temporária permite, por 30 dias, que países comprem petróleo russo e derivados que estão sob sanção e retidos em alto-mar. O governo americano apresenta a decisão como resposta de emergência à escalada do preço do barril, que chegou perto de US$ 120 na segunda-feira (9), em meio ao confronto envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã no Oriente Médio.
O efeito é imediato nas cotações. Na manhã de sexta-feira, os preços do petróleo recuam na Ásia, em parte devido à perspectiva de entrada adicional de óleo russo no mercado. Segundo o enviado presidencial russo Kirill Dmitriev, a medida pode destravar até 100 milhões de barris, volume próximo a um dia inteiro da produção global.
O alívio, porém, cobra um preço político. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirma que a decisão de Washington não contribui para encurtar a guerra iniciada por Moscou em 2022. “Essa única flexibilização dos EUA pode fornecer à Rússia cerca de US$ 10 bilhões para a guerra. Certamente não ajuda a alcançar a paz”, diz, após reunião em Paris com Emmanuel Macron.
Zelensky também expressa preocupação com a sobrecarga dos sistemas de defesa antiaérea no Oriente Médio, acionados contra mísseis lançados a partir do território iraniano. Países do golfo Pérsico usam estoques estratégicos de defesa, o que reduz margens para transferir baterias e mísseis para a frente ucraniana. Na prática, a guerra na Ucrânia disputa recursos militares com a crise entre Estados Unidos, Israel e Irã.
Ao mesmo tempo, Kiev espera por um empréstimo de 90 bilhões de euros proposto na União Europeia, que ainda enfrenta resistência entre países-membros. Parte do dinheiro deve financiar compras de armas e munições. O governo ucraniano trabalha com a expectativa de que o pacote esteja operacional até meados de abril, mas a falta de consenso expõe fadiga política no bloco.
Racha entre aliados e apetite asiático pelo óleo russo
A decisão americana agrava fissuras no G7. O presidente francês Emmanuel Macron insiste que o conflito no Oriente Médio não justifica aliviar a pressão sobre a Rússia. “A posição comum tem sido manter as sanções contra a Rússia, e para os europeus e a França, também é mantê-las. A situação atual de forma alguma justifica a suspensão dessas sanções”, afirma.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, reforça o desconforto em Berlim. Ele classifica a medida como “errada” e questiona a lógica do governo americano. “Acreditamos que isso está errado. Atualmente há um problema de preço, mas não um problema de quantidade. E, portanto, gostaria de saber quais outros motivos levaram o governo americano a tomar essa decisão”, declara.
O Reino Unido alinha-se à crítica europeia e defende a manutenção da linha dura. O porta-voz do primeiro-ministro Keir Starmer afirma que a posição britânica é “clara” e que “todos os parceiros devem manter a pressão sobre a Rússia e seu cofre de guerra”. A fala sinaliza que Londres não pretende seguir Washington na flexibilização.
Em sentido oposto, Moscou tenta transformar a brecha em mudança estrutural. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, pede que os Estados Unidos suspendam mais sanções sobre as exportações de petróleo russas. “Nesse aspecto, nossos interesses coincidem. A situação está repleta de riscos de uma crise crescente no setor energético global. Sem volumes significativos de petróleo russo, a estabilização do mercado é impossível”, afirma.
O movimento americano desperta interesse imediato na Ásia. Governos do Japão e da Tailândia indicam que podem aproveitar a janela de 30 dias para comprar petróleo russo. A região já se firma como destino central do óleo de Moscou desde o início das sanções ocidentais em 2022, com descontos que atraem refinarias que operam com margens apertadas.
Dados da Vortexa, empresa de análise de fluxos de petróleo, apontam que cerca de 7,3 milhões de barris de óleo russo estão hoje em armazenamento flutuante, ancorados em alto-mar à espera de destino. Outros 148,6 milhões de barris seguem em navios em trânsito, parte deles desviando regularmente de rotas e portos tradicionais para contornar restrições.
A flexibilização também pode liberar até 420 mil toneladas métricas de diesel e gasóleo, segundo dados da LSEG e de fontes comerciais. Esse volume de combustíveis, guardado em navios-tanque, entra no radar de países que enfrentam pressão inflacionária doméstica, em especial mercados emergentes asiáticos.
Dilema entre energia barata e desgaste político
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, admite que a isenção complica os esforços para drenar o caixa de guerra do Kremlin. O governo tenta equilibrar a promessa de manter a pressão econômica sobre Vladimir Putin com a necessidade de evitar um novo choque de energia que possa derrubar o crescimento global e alimentar a inflação.
As grandes economias importadoras de energia ganham com a possibilidade de preços mais baixos e maior oferta, ainda que temporária. Países europeus, no entanto, temem que a injeção de dólares no setor de petróleo russo prolongue a capacidade de Moscou de financiar a ofensiva militar na Ucrânia, hoje fortemente dependente das receitas de exportação de commodities.
No campo diplomático, o gesto americano expõe a assimetria de custos entre Washington e seus aliados. Os Estados Unidos são hoje menos dependentes de importações de petróleo do que boa parte da Europa, que pagou caro para reduzir o consumo de gás e óleo russos desde 2022. Ao aliviar sanções, ainda que por 30 dias, a Casa Branca reforça a percepção de que administra sua própria inflação enquanto terceiriza parte da conta estratégica para parceiros.
O impasse ocorre em um momento em que o debate sobre sanções atinge nova fase. Após dois anos de guerra, a capacidade de impor novas restrições severas à Rússia diminui, e os efeitos colaterais sobre mercados globais ficam mais evidentes. A disputa passa a ser menos sobre quantidade de sanções e mais sobre credibilidade das regras já adotadas.
Os próximos dias devem mostrar até que ponto países asiáticos vão aproveitar a janela aberta pelos EUA e quanto petróleo russo de fato chegará ao mercado sob a isenção. Em paralelo, europeus tentam fechar o empréstimo de 90 bilhões de euros a Kiev e pressionam Washington a tratar energia e segurança com a mesma unidade exibida nos discursos.
Ao final dos 30 dias, a Casa Branca terá de decidir se retoma integralmente as sanções ao petróleo russo ou se transforma a exceção em novo padrão. O resultado definirá não só o rumo dos preços do barril, mas também o peso real da arma econômica do Ocidente na guerra que segue sem horizonte claro de fim.
