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Israel avança no sul do Líbano para enfraquecer Hezbollah

Israel executa no início de 2026 uma ofensiva militar coordenada contra o Hezbollah ao longo da fronteira com o Líbano, após ataques de foguetes do grupo. A operação mira bases, arsenais e comandantes da milícia, com apoio dos Estados Unidos e sob a justificativa de eliminar a ameaça de mísseis ao norte israelense.

Ofensiva ganha força após ataques ao Irã

O avanço no Líbano amadurece em silêncio desde janeiro, quando o governo de Benjamin Netanyahu conclui planos para uma nova campanha terrestre e aérea na fronteira norte. A ideia surge pouco mais de um ano depois do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, em novembro de 2024, que encerra formalmente treze meses de confronto aberto com o Hezbollah.

O acordo previa que o governo libanês desarmasse a milícia apoiada pelo Irã no sul do país. Autoridades israelenses dizem que isso nunca acontece de fato. Em conversas reservadas relatadas à CNN Internacional, oficiais classificam o compromisso de Beirute como “longe de ser suficiente” e acusam o Hezbollah de usar o período de trégua para se reorganizar ao norte do rio Litani.

Os planos de uma nova ofensiva quase saem do papel no início do ano, mas o cenário muda em poucos dias. Protestos em massa explodem no Irã e abalam o principal patrocinador político, militar e financeiro do Hezbollah. A cúpula de segurança israelense decide concentrar energia na coordenação de uma grande operação conjunta com os Estados Unidos contra alvos iranianos.

O ponto de inflexão ocorre em 2 de março, menos de 48 horas depois de Israel e EUA lançarem ataques coordenados contra o Irã. Em resposta à morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, em bombardeios israelenses, o Hezbollah dispara seis foguetes contra o norte de Israel. Em Tel Aviv, o gesto é lido como a “abertura” esperada.

“O Hezbollah caiu em uma emboscada estratégica”, afirma o chefe do Comando Norte, general Rafi Milo, na semana passada. Ele chama o ataque da milícia de “erro grave” e promete manter a pressão militar até que o grupo sofra um “golpe sério” em suas capacidades.

Zona tampão e saldo humano no sul do Líbano

Israel reage com ondas sucessivas de ataques aéreos e de artilharia contra posições do Hezbollah em todo o Líbano. As Forças de Defesa de Israel anunciam que miram quadros graduados da organização, centros de comando, depósitos de armas, lançadores de mísseis e instalações de treinamento. Autoridades libanesas dizem que os bombardeios atingem também áreas civis densamente povoadas.

O Ministério da Saúde do Líbano informa que mais de 680 pessoas morrem até a quarta-feira, 11 de março, em meio à escalada. Dezenas de milhares deixam aldeias e cidades do sul em direção ao norte do país, além do rio Litani, após avisos de evacuação disparados por Israel. Fontes militares israelenses descrevem o movimento como parte da criação de uma zona tampão de “defesa avançada”.

Israel mantém desde o cessar-fogo de 2024 uma base militar dentro do território libanês e controla cinco pontos estratégicos no sul. Nos últimos dias, tropas avançam mais de um quilômetro além da fronteira oficial, o que aprofunda o temor de uma ocupação prolongada. Oficiais garantem em público que a operação é “limitada” e voltada a afastar combatentes e armamentos do Hezbollah das comunidades israelenses vizinhas.

O presidente do Líbano, Joseph Aoun, condena o avanço israelense e acusa o país de ignorar “as leis da guerra” e o direito internacional. Ao mesmo tempo, rompe politicamente com o Hezbollah, a quem chama de traidor, e proíbe formalmente suas atividades militares. Em entrevista, afirma que a milícia age “em prol dos cálculos do regime iraniano” e defende negociações diretas com Israel para uma “cessação final das hostilidades”.

Do outro lado da fronteira, o Hezbollah tenta mostrar que ainda tem fôlego militar. A milícia, que durante duas décadas recebe até US$ 1 bilhão por ano do Irã, dispara centenas de foguetes e drones contra cidades e bases no norte de Israel. Em uma única noite de quarta-feira, lança mais de 100 foguetes. Também monta ações contra posições israelenses no sul do Líbano. Dois soldados de Israel morrem e ao menos 14 ficam feridos, segundo as Forças de Defesa.

Janela de oportunidade e risco de escalada regional

Com o apoio iraniano em xeque e a milícia sob forte pressão militar, autoridades israelenses avaliam que o Hezbollah vive “um de seus pontos mais fracos de todos os tempos”. A inteligência de Israel estima que o grupo manteve, após a guerra de treze meses encerrada em 2024, até um terço do arsenal de mísseis pré-guerra. “Seja 30% ou 10%, isso ainda é suficiente para representar uma ameaça séria aos civis no norte”, diz um oficial à CNN Internacional.

Mesmo com perdas sucessivas de comandantes e arsenais, o Hezbollah preserva mísseis antitanque, foguetes de curto alcance de 8 a 10 quilômetros e um programa ativo de drones, segundo fontes israelenses. O grupo busca reforçar a própria narrativa de “resistência” à medida que o governo libanês tenta se afastar da agenda militar e apostar na diplomacia. “É preciso lembrar quem detém as armas”, afirma Assaf Orion, general da reserva e membro do Washington Institute for Near East Policy.

A campanha atual expõe uma mudança mais profunda na doutrina de segurança israelense desde os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, que forçam a evacuação de mais de 60 mil moradores do norte. A meta declarada agora é impedir qualquer cenário em que civis precisem abandonar cidades fronteiriças por causa de foguetes ou incursões armadas. Em Gaza, no Líbano e na Síria, Israel redesenha na prática “linhas de segurança” com zonas tampão sob vigilância militar.

A estratégia também dialoga com as ambições territoriais da coalizão de extrema direita que governa Israel. O deputado do Likud Amit Halevi defende publicamente que o rio Litani, quase dez quilômetros dentro do Líbano, “deve se tornar a nova Linha Amarela do norte”. A frase ecoa dentro do governo e alimenta a pressão interna por uma presença mais duradoura no sul do país vizinho.

Para analistas próximos ao Exército, o governo em Jerusalém não aceita encerrar a campanha sem uma “conquista militar significativa”. “Israel quer terminar o trabalho no Líbano”, resume um alto funcionário ouvido pela CNN Internacional. Ao mesmo tempo, o foco estratégico continua voltado ao Irã, prioridade que depende da disposição de Washington em sustentar operações conjuntas.

Assaf Orion avalia que a frente iraniana não permanece aberta por tempo indefinido. A previsão é que Israel consiga manter algumas semanas de engajamento limitado com o Hezbollah antes de considerar uma ofensiva total. O desfecho tende a depender tanto de decisões militares em Tel Aviv quanto de cálculos políticos na Casa Branca e em Beirute.

Enquanto a artilharia cruza o céu entre o norte de Israel e o sul do Líbano, a pergunta permanece sem resposta: até onde o governo israelense está disposto a ir para transformar uma “janela de oportunidade” em nova fronteira permanente?

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