Ancelotti define lista de 26 e coloca Neymar em xeque na seleção
Carlo Ancelotti anuncia na segunda-feira (16) os 26 convocados para os amistosos contra França e Croácia, em 26 e 31 de março, última parada antes da Copa. A lista ensaia a seleção que o Brasil leva ao Mundial e expõe a maior dúvida do ciclo: o lugar de Neymar Jr.
Neymar sob observação e a contagem regressiva
A poucos meses da Copa do Mundo, a convocação ganha peso de julgamento final. O treinador italiano transforma a Data-Fifa de março na vitrine derradeira para quem ainda tenta garantir passagem para o torneio. Neymar, que por uma década é protagonista quase automático da seleção, entra nesse processo como ponto de interrogação, não como certeza.
O cenário fica mais evidente no último fim de semana. Ancelotti viaja ao estádio Municipal José Maria de Campos Maia, o Maião, para observar Mirassol x Santos, de olho no camisa 10. O jogo termina 2 a 2, mas o nome mais esperado nem entra em campo. O Santos preserva Neymar por desgaste muscular, e o técnico volta para casa sem o olhar de perto que planejava ter sobre o atacante.
A ausência não tira Neymar da pré-lista, mas reduz a margem de erro. O clássico contra o Corinthians, no domingo (15), às 16h, na Vila Belmiro, vira exame de última hora. O desempenho, a resposta física e até o comportamento em campo pesam na decisão final. Na prática, o jogador mais decisivo da seleção na era pós-2014 precisa provar que ainda cabe no desenho tático e no plano físico de uma Copa que exige intensidade de 90 minutos.
Ancelotti equilibra história e presente. Sabe que Neymar ainda oferece talento raro, mas também lida com uma sequência de lesões e períodos longos longe do auge. A convocação para os amistosos não garante vaga na Copa, mas indica o caminho. Se o atacante ficar fora agora, a sinalização para o Mundial tende a ser clara.
Coluna vertebral definida e oito vagas em disputa
Enquanto Neymar vive a fase mais delicada com a camisa amarelinha, outros nomes caminham em terreno firme. O grupo de jogadores praticamente garantidos soma experiência e protagonismo recente. Alisson no gol, Marquinhos na defesa, Casemiro e Bruno Guimarães no meio, além de Vinicius Jr., Raphinha e Matheus Cunha no ataque formam a espinha dorsal pensada para 2026. A eles se juntam Éder Militão, Danilo, Gabriel Magalhães, Alex Sandro, Andrey Santos e o jovem Estevão, destaque recente e aposta de renovação.
Rodrygo, que até poucas semanas atrás integra esse núcleo intocável, sai da rota por causa de uma grave lesão ligamentar. O corte do atacante do Real Madrid mexe com o tabuleiro ofensivo. Abre espaço para reposicionamentos e acelera a ascensão de candidatos como Gabriel Martinelli, que ganha força imediata, e Endrick, que volta a somar minutos no Lyon depois de trabalhar com Ancelotti no Real Madrid.
A lateral direita ilustra bem as decisões técnicas em curso. Wesley, da Roma, surge como possível único lateral de origem na lista. Danilo, hoje no Flamengo, e Militão, ambos zagueiros de formação, oferecem a alternativa de atuar pelo setor e dão mais versatilidade ao elenco. A escolha revela a prioridade por jogadores que ocupam mais de uma função e ampliam soluções em jogos de mata-mata.
No meio-campo, a discussão se concentra na reserva de Bruno Guimarães, peça que organiza a saída de bola e dita o ritmo ofensivo. Gabriel Sara, em boa fase no Galatasaray, e Danilo, do Botafogo, são observados como possíveis herdeiros do posto. A definição desse nome pode mudar o equilíbrio da seleção: um reserva mais técnico indica time de controle; um jogador mais físico aproxima a equipe de um modelo de transição rápida.
O ataque deve ser o setor mais numeroso. A comissão trabalha com a ideia de levar entre nove e dez atacantes para a Copa. Além de Martinelli, Richarlison se mantém bem cotado, sustentado por presença em todas as convocações de Ancelotti até agora. João Pedro, do Chelsea, e Lucas Paquetá, em processo de readaptação ao futebol brasileiro no retorno ao Flamengo, seguem avaliados de perto. Rayan, revelado pelo Vasco e hoje no Bournemouth, aparece como novidade de impacto, acompanhado de perto pela imprensa inglesa. Igor Thiago, do Brentford, corre por fora, mas ainda figura nas anotações da comissão.
Amistosos ganham cara de teste final para a Copa
Os dois jogos de março, contra França e Croácia, deixam de ser simples amistosos. A seleção encara rivais que somam três finais de Copa em 20 anos. O Brasil enfrenta a França, campeã em 2018 e vice em 2022, e a Croácia, que chega às semifinais em 2018 e 2022. A comissão usa esse nível de exigência como termômetro real. O desempenho sob pressão, em 180 minutos, vale mais que uma série de treinos fechados.
As decisões da próxima segunda-feira mexem com muito mais gente que os 26 escolhidos. Atletas que ficam fora veem suas chances de Mundial despencarem em questão de horas. Clubes europeus e brasileiros ajustam planejamento, rotação de elenco e até negociações a partir da convocação. Patrocinadores e emissoras usam os nomes definidos por Ancelotti para calibrar campanhas publicitárias e grades de transmissão até o fim do ano.
O peso simbólico também é alto. Esta é a primeira Copa que o Brasil disputa sob o comando de um técnico estrangeiro. A lista de março ajuda a mostrar o quanto Ancelotti se afasta ou se aproxima de tradições históricas da seleção, como o espaço a jogadores badalados no país mesmo em baixa na Europa, ou a preferência por veteranos em fases decisivas.
Torcedores entram na semana da convocação com a mesma pergunta no centro das conversas: Neymar ainda é indispensável? A resposta sai em parte na segunda-feira, com a divulgação dos 26 nomes, e em parte nos 90 minutos contra o Corinthians, na Vila Belmiro. O restante fica para os amistosos em 26 e 31 de março, quando o Brasil testa, pela última vez, a cara que pretende levar ao mundo.
Quando a bola rolar diante de França e Croácia, a lista da Copa estará praticamente desenhada. O que Ancelotti vê nessas quatro datas — 16, 15, 26 e 31 de março — tende a selar carreiras, reinventar hierarquias na seleção e responder se a era de Neymar na equipe principal entra em um novo capítulo ou se aproxima do ponto final.
