Israel intensifica ofensiva no Líbano para enfraquecer Hezbollah
Israel lança, em março de 2026, uma ofensiva em larga escala contra posições do Hezbollah no sul do Líbano após novos disparos de foguetes contra o norte israelense. A campanha mira infraestrutura militar, arsenais e comandantes do grupo apoiado pelo Irã e já deixa mais de 680 mortos em território libanês.
Janela de oportunidade e mudança de cálculo
No início de janeiro, o alto comando israelense conclui, em silêncio, os planos para uma nova operação na fronteira norte. O cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos em novembro de 2024 reduz o ritmo dos combates, mas não encerra o conflito de fato. Israel mantém tropas no sul do Líbano, com uma base militar e cinco pontos estratégicos sob controle, à espera do próximo movimento.
O governo libanês promete, no acordo de 2024, desarmar o Hezbollah. Na prática, não consegue cumprir. Em Tel Aviv, oficiais relatam frustração e avaliam que o grupo militante usa a trégua para se reorganizar ao norte do rio Litani. A percepção é de que o tempo trabalha a favor do Hezbollah, não de Israel.
O cenário vira em 2 de março. Menos de 48 horas depois de ataques coordenados de Israel e Estados Unidos contra alvos no Irã, o Hezbollah dispara seis foguetes contra o norte de Israel. O ataque, uma resposta à operação que mata o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, fornece o pretexto decisivo para tirar do papel os planos guardados há meses.
“O Hezbollah caiu em uma emboscada estratégica”, afirma o chefe do Comando Norte de Israel, major-general Rafi Milo. Ele classifica a decisão do grupo de abrir fogo após a ofensiva contra o Irã como “erro grave” e promete seguir com os bombardeios até que o movimento sofra “um golpe sério”.
O cálculo israelense também se ancora na situação interna do Irã. Protestos em massa contra o regime abalam Teerã e outras cidades desde o início do ano, interrompendo fluxos de dinheiro e armas que, por duas décadas, garantem cerca de US$ 1 bilhão anuais ao Hezbollah. Para estrategistas israelenses, o grupo atravessa um de seus momentos mais frágeis.
Ofensiva aérea, zona tampão e crise humanitária
A partir do novo ataque de foguetes, a Força Aérea israelense desencadeia ondas sucessivas de bombardeios em todo o território libanês, com ênfase no sul. O alvo declarado inclui agentes graduados do Hezbollah, centros de comando, depósitos de armas, lançadores de mísseis e instalações de treinamento. Fontes militares falam também em operações especiais discretas além da linha de fronteira.
O efeito é imediato sobre a população civil. As Forças de Defesa de Israel (IDF) emitem dezenas de avisos de evacuação, e centenas de milhares de libaneses fogem para o norte, para além do rio Litani. O Ministério da Saúde do Líbano informa, na quarta-feira 11, mais de 680 mortos desde o início da nova ofensiva, somando combatentes e civis.
Israel avança mais de 1 quilômetro dentro do território libanês e define a operação terrestre como criação de uma “zona tampão de defesa avançada”. A área se soma a outros cinturões de segurança que o país estabelece ou amplia desde 2023 em Gaza, na Síria e ao longo da fronteira com o próprio Líbano. O objetivo, segundo oficiais, é manter civis israelenses o mais distante possível do alcance direto de mísseis e foguetes.
No Líbano, a reação política expõe a fratura interna em relação ao Hezbollah. O presidente Joseph Aoun condena o avanço israelense, acusa Tel Aviv de ignorar “as leis da guerra e as leis internacionais” e, ao mesmo tempo, declara ilegais as atividades militares do grupo xiita. Em discurso duro, diz que o Hezbollah age “em prol dos cálculos do regime iraniano” e proíbe novas operações armadas da organização.
Na prática, o exército libanês não demonstra capacidade para impor essa decisão. Em 2025, quando anuncia ter controle operacional ao sul do Litani, Israel descarta a declaração como “longe de ser suficiente”. Analistas apontam que o Hezbollah, ainda que enfraquecido, mantém estoque relevante de mísseis, drones e armas de precisão capazes de atingir alvos a até 10 quilômetros dentro de Israel.
Mesmo sob ataque, o grupo responde com intensidade. Na noite de quarta-feira, lança mais de 100 foguetes em uma única barragem contra o norte israelense. Também tenta incursões de sua força de elite, Radwan, em território israelense. Dois soldados de Israel morrem e ao menos 14 ficam feridos em combates no sul do Líbano, segundo as IDF.
Redesenho da fronteira norte e próximos passos
Israel enxerga a campanha atual como parte de um redesenho mais amplo de sua doutrina de segurança desde outubro de 2023, quando o ataque do Hamas força a evacuação de mais de 60 mil moradores da fronteira norte. A cúpula militar afirma que o país não pretende repetir uma retirada em massa de civis e aposta em zonas tampão para criar uma barreira física entre comunidades israelenses e grupos apoiados pelo Irã.
O discurso encontra eco na ala mais à direita da coalizão de governo. O deputado Amit Halevi, do Likud, defende que o rio Litani, a cerca de 9,6 quilômetros dentro do território libanês, “deve se tornar a nova Linha Amarela do norte”, em referência à linha até a qual Israel avança em Gaza. A pressão política por uma presença prolongada no sul do Líbano cresce à medida que os ataques avançam.
Militares israelenses insistem que a operação atual é “limitada e direcionada”, mas admitem, reservadamente, que o objetivo é “terminar o trabalho no Líbano”. A meta declarada é dupla: degradar de forma duradoura as capacidades do Hezbollah e fortalecer a fronteira norte. Sem isso, avaliam, qualquer acordo político com Beirute tende a ser frágil.
Assaf Orion, general da reserva e membro do Washington Institute for Near East Policy, resume a equação. “O governo libanês pediu negociações, mas Israel considera as condições atuais inaceitáveis, e o atual governo em Jerusalém provavelmente não concordará em encerrar o conflito sem uma conquista militar significativa”, afirma. Para ele, “é preciso lembrar quem detém as armas”.
O fator americano adiciona outra camada de incerteza. Washington coordena ataques com Israel, mantém apoio político e militar e, ao mesmo tempo, tenta evitar uma guerra aberta em várias frentes. Segundo Orion, o desfecho da ofensiva contra o Irã, possivelmente condicionado por uma decisão do presidente Donald Trump, tende a liberar a força aérea israelense para uma operação ainda mais ampla contra o Hezbollah.
Israel acredita que dispõe de poucas semanas para operar nessa “janela de oportunidade”, enquanto o Irã lida com protestos internos e o Hezbollah tenta preservar o que resta de seu arsenal. Do outro lado da fronteira, centenas de milhares de civis libaneses assistem à formação de mais uma zona militarizada em seu território, sem clareza sobre quando – e em que condições – poderão voltar para casa.
