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Trump diz ter “obliterado” alvos militares na ilha do petróleo do Irã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma que bombardeia nesta sexta-feira (13/3) alvos militares na Ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo do Irã. Ele divulga a operação na rede Truth Social logo após embarcar no Air Force One rumo à Flórida e ameaça voltar seus mísseis contra a infraestrutura petrolífera caso Teerã feche a passagem de navios no Estreito de Ormuz.

Bombardeio em área vital para o petróleo iraniano

Trump descreve o ataque como um dos bombardeios “mais poderosos da história do Oriente Médio”. Segundo o presidente, o Comando Central dos EUA “obliterou completamente todos os alvos MILITARES na joia da coroa do Irã, a Ilha de Kharg”. O governo americano mira diretamente a espinha dorsal logística do regime iraniano, sem tocar, por ora, nos tanques e oleodutos que sustentam 90% das exportações de petróleo do país.

O anúncio vem em meio à escalada de uma ofensiva conjunta de EUA e Israel contra o Irã. Desde o fim de fevereiro, mais de 200 aviões de combate e embarcações militares atacam cerca de 5 mil alvos em território iraniano, com o objetivo declarado de enfraquecer o regime islâmico no poder desde 1979. Os bombardeios deixam mais de mil mortos, incluindo ao menos 100 meninas atingidas dentro de uma escola em Minab, no sul do país, em 28 de fevereiro.

Kharg, uma estreita faixa de terra de cerca de 8 quilômetros de extensão e situada a 28 quilômetros da costa iraniana, passa a ser o símbolo mais sensível dessa disputa. Grandes navios-tanque atracam na ilha, carregam petróleo bruto vindo por dutos submarinos de campos como Aboozar, Forouzan e Dorood e seguem pelo Golfo Pérsico e pelo Estreito de Ormuz, em direção a clientes como a China. Estima-se que 1,3 milhão de barris por dia circulem pelo terminal, que tem capacidade de armazenar 18 milhões de barris.

Ao anunciar o ataque, Trump ressalta que poupa deliberadamente essa estrutura. “Optei por NÃO destruir a infraestrutura de petróleo da ilha”, escreve. Na mensagem seguinte, faz o que soa como um ultimato: “Caso o Irã, ou qualquer outro país, fizer alguma coisa para interferir na passagem livre e segura de navios pelo Estreito de Ormuz, reconsiderarei imediatamente essa decisão”.

Ameaças cruzadas e risco para a economia global

A resposta iraniana é imediata. Segundo veículos locais citados pela agência Reuters, Teerã avisa que qualquer ataque à sua infraestrutura de petróleo e energia levará a investidas contra instalações de empresas que cooperam com os Estados Unidos na região. O recado mira não só Washington, mas também monarquias do Golfo e grandes petroleiras internacionais, que dependem de rotas seguras para manter contratos bilionários.

A disputa se concentra em um dos gargalos mais sensíveis do comércio global de energia. O Estreito de Ormuz, corredor estreito entre Irã e Omã, é a porta de saída de cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. A ilha de Kharg funciona como válvula de pressão desse sistema: qualquer dano duradouro à sua infraestrutura pode reduzir de forma abrupta a oferta de petróleo iraniano e empurrar para cima preços já em alta.

Antes mesmo do bombardeio, o petróleo tipo Brent gira em torno de US$ 120 o barril, cerca de R$ 620. O analista Neil Quilliam, especialista em Oriente Médio do centro de estudos britânico Chatham House, alerta que um ataque direto às instalações de Kharg pode levar a cotação para perto de US$ 150, aproximadamente R$ 775. “E não seria um preço que depois cairia rapidamente”, avalia. Para economias importadoras, da Europa à América Latina, a conta chega em forma de combustíveis mais caros, inflação e pressão política interna.

A decisão de poupar, por ora, a estrutura petrolífera também dialoga com debates anteriores em Washington. Reportagem do jornal britânico The Guardian revela que assessores do Pentágono sugerem a Trump não bombardear a ilha, mas cogitam tomá-la, em uma operação de ocupação. A lógica seria asfixiar financeiramente o regime iraniano: “Se não puderem vender o petróleo, [o Irã] não tem como financiar o regime”, afirma um dos conselheiros ao jornal.

Trump evita falar abertamente sobre esse cenário. Em entrevista à rádio Fox News na quinta-feira (12/3), ele reage com irritação ao ser questionado sobre um eventual plano de assumir o controle de Kharg. “Não está no topo da lista”, responde. “É apenas uma entre tantas coisas diferentes, e eu posso mudar de ideia em segundos.” Em seguida, repreende o apresentador Brian Kilmeade: “Quem faria uma pergunta dessas e que tolo responderia a isso? Digamos que eu fosse fazer isso ou que não fosse fazer — por que eu contaria a você?”

História, poder e o que pode acontecer agora

A importância de Kharg não nasce com a atual crise. A pequena ilha desempenha papel estratégico no Golfo há mais de dois mil anos, desde o Império Persa. Nos séculos 16 e 17, passa por domínio português e holandês e consolida sua fama como porto de trocas comerciais, impulsionado pela administração neerlandesa. No século 20, abriga uma prisão de segurança máxima, até que uma vantagem geográfica muda seu destino: suas águas profundas, ao contrário das áreas rasas da costa iraniana, tornam-se ideais para a navegação de petroleiros de grande porte.

Na década de 1950, sob o xá Mohammad Reza Pahlavi, o Irã constrói ali um grande centro de armazenamento e distribuição de hidrocarbonetos, que rapidamente vira principal ponto de exportação do país. Parte da infraestrutura pertence a empresas americanas até a Revolução Islâmica de 1979, quando o novo regime rompe alianças com Washington. Durante a guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, a ilha vira alvo de bombardeios, mas volta a operar como “linha vital” do petróleo iraniano após o conflito.

O ataque anunciado por Trump agora desloca Kharg novamente para o centro de uma disputa que combina geopolítica, energia e sobrevivência de regimes. Ao mirar alvos militares, os Estados Unidos tentam enfraquecer a capacidade de defesa do Irã em uma região de valor econômico incomum. Ao poupar, pelo menos por enquanto, tanques, dutos e terminais, buscam enviar ao mesmo tempo um recado militar e um sinal aos mercados, prometendo não chacoalhar de imediato a oferta global de petróleo.

Analistas de conflitos observam que essa margem é estreita. Qualquer erro de cálculo na ilha ou no Estreito de Ormuz pode arrastar aliados e rivais para uma escalada com alcance muito além do Golfo Pérsico. Para Teerã, resta decidir até onde responder sem provocar exatamente o cenário que tenta evitar: um ataque direto à infraestrutura que financia o Estado iraniano. Para Washington, a dúvida é quanto tempo conseguirá manter a pressão máxima sem disparar um choque de petróleo que também atinge consumidores americanos.

Entre ameaças públicas e mensagens codificadas, Kharg volta a encarnar um velho dilema do Oriente Médio: como travar uma guerra sem incendiar o mercado que sustenta as economias que a financiam. As próximas movimentações de navios e aviões militares no Golfo, e as primeiras reações nos preços do barril, vão indicar se o bombardeio desta sexta-feira inaugura um ciclo de intimidação controlada ou abre a porta para uma confrontação que nenhum dos lados parece disposto a admitir em voz alta.

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