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Israel destrói ponte no Líbano, ameaça Beirute e amplia ofensiva

Israel amplia a ofensiva no Líbano nesta sexta-feira (13) com a destruição de uma ponte estratégica, panfletos ameaçando Beirute e envio de novas tropas contra o Hezbollah. A ação aprofunda a crise humanitária e eleva o risco de uma guerra mais ampla na região.

Capital sob ameaça e país à beira do colapso humanitário

O ataque atinge a ponte Zrarieh, no sul do Líbano, que cruza o rio Litani e liga áreas usadas pelo Hezbollah para se deslocar entre o norte e o sul do país, segundo Israel. Em paralelo, aviões lançam panfletos sobre Beirute ameaçando impor à capital libanesa uma devastação semelhante à da Faixa de Gaza após dois anos de guerra contra o Hamas. O recado mira não só o grupo armado apoiado pelo Irã, mas a população civil, que já vive exausta após semanas de bombardeios.

As ruas da capital recebem centenas de milhares de deslocados internos que fogem do sul e do Vale do Bekaa. O ministro do Interior, Ahmad Al-Hajjar, admite que o Estado perde o controle sobre a crise. “Não importa quantos abrigos sejam abertos em Beirute, eles não podem acomodar todos os deslocados”, afirma. Pelo menos 800 mil libaneses deixam suas casas desde o início da ofensiva israelense em 2 de março, segundo o governo.

O Ministério da Saúde do Líbano contabiliza 773 mortos em pouco menos de duas semanas, entre eles dezenas de crianças e profissionais de saúde. Na madrugada de sábado, um ataque a um centro de atenção primária em Burj Qalawiya, no sul, mata pelo menos 12 médicos, enfermeiros e paramédicos que estavam de plantão. Outro bombardeio, horas antes, atinge Sawaneh e mata dois paramédicos ligados ao Hezbollah. As equipes de resgate ainda procuram sobreviventes entre os escombros.

Ofensiva coordenada e recado político para Teerã e Beirute

A destruição da ponte marca o primeiro reconhecimento público de Israel de que ataca infraestrutura civil na campanha atual contra o Líbano. O ministro da Defesa, Israel Katz, avisa em comunicado que o governo de Beirute “pagará custos crescentes por meio de danos à infraestrutura e perda de território” até que o Hezbollah seja desarmado. O direito internacional humanitário proíbe ataques a alvos civis, a não ser quando usados diretamente para fins militares, algo que Israel alega, mas não comprova no caso da Zrarieh.

A ofensiva nasce de uma escalada rápida. Em 2 de março, Israel lança uma campanha intensificada contra o Hezbollah em resposta ao disparo de foguetes do grupo. Os ataques são apresentados como vingança pela morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em uma operação atribuída a Estados Unidos e Israel no início da guerra. O Hezbollah promete proteger a “honra” de Teerã e abre uma nova frente no Líbano, reacendendo o temor de um conflito regional direto entre Israel, Irã e seus aliados.

Os panfletos arremessados sobre Beirute deixam claro que a batalha se trava também no campo psicológico. Um deles fala no “grande sucesso em Gaza” e anuncia que “o jornal da nova realidade chega ao Líbano”, em referência à destruição em massa no território palestino, que deixa quase toda a população deslocada. Outro conclama os libaneses a desarmar o Hezbollah e traz dois QR codes que, segundo o Exército libanês, conduzem a um sistema de recrutamento israelense via WhatsApp e Facebook. As autoridades locais recomendam que ninguém acesse os links.

O governo libanês tenta mostrar que não é refém do Hezbollah. Antes da guerra atual, o Exército do país registra avanços tímidos na retirada de armas da facção em áreas próximas à fronteira com Israel. O processo é lento e recheado de recuos. Políticos em Beirute temem que um choque direto com o grupo, que mantém presença social e militar capilarizada, reacenda uma guerra civil semelhante à dos anos 1975 a 1990.

Crise humanitária se agrava e pressão internacional aumenta

A cada novo bombardeio, a vida cotidiana se desorganiza. Hospitais funcionam no limite, muitos deles dependentes de geradores por causa da infraestrutura elétrica precária. O ataque ao centro de saúde em Burj Qalawiya elimina uma das poucas portas de entrada de atendimento básico na região rural do sul. O Ministério da Saúde descreve o episódio como “segundo ataque ao setor de saúde em poucas horas” e diz que a morte de profissionais agrava um sistema já fragilizado por anos de crise econômica.

Refugiados internos se espalham por parques, calçadas e carros no entorno de Beirute. Famílias chegam com poucas malas, colchões amarrados em cima de veículos e quase nenhum dinheiro. Escolas públicas convertem salas de aula em dormitórios improvisados. Organizações humanitárias relatam falta de remédios, alimentos e água potável em alguns abrigos. A pressão sobre serviços básicos cresce dia após dia, empurrando o país, que já enfrenta inflação alta e moeda desvalorizada, a um ponto próximo do colapso.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, desembarca no Líbano em meio ao agravamento do cenário. Ele anuncia que busca US$ 308 milhões, cerca de R$ 1,6 bilhão, em financiamento emergencial para conter a crise. “A solidariedade em palavras deve ser acompanhada pela solidariedade em ações”, afirma. Por enquanto, o gesto é mais um sinal político do que uma solução concreta, já que a captação desses recursos depende de negociações com doadores e da disposição dos principais governos envolvidos em não bloquear a ajuda.

Israel insiste que o Hezbollah sai enfraquecido desde a guerra de 2024, mas reconhece que o grupo mantém centenas de foguetes e capacidade de atacar alvos estratégicos em seu território. O premiê Binyamin Netanyahu declara na quinta-feira (12) que uma operação terrestre no Líbano ainda pode ser evitada, mas condiciona a trégua ao que chama de “compromisso de desarmar o Hezbollah” por parte do governo libanês. Ao ser perguntado sobre possíveis ações contra o novo aiatolá iraniano, Mojtaba Khamenei, e o líder do Hezbollah, Naim Qassem, responde que não emitiria “apólices de seguro de vida” para nenhum dos dois.

Risco de guerra ampliada e incerteza sobre saída diplomática

Diplomatas em Beirute e em capitais ocidentais avaliam que o risco de uma expansão do confronto nunca é tão alto desde 2024. Uma ofensiva terrestre israelense empurraria o Hezbollah a usar parte do arsenal de foguetes de médio e longo alcance, o que poderia arrastar diretamente o Irã e aumentar a pressão sobre Estados Unidos e países europeus para tomar posição mais clara. Cada novo alvo de infraestrutura civil, como a ponte Zrarieh, eleva também o debate sobre violações ao direito internacional e a eventual responsabilização posterior.

O governo libanês, enfraquecido por anos de crise política e econômica, tenta equilibrar contas internas e externas. Por um lado, sofre pressão popular para proteger civis e negociar um cessar-fogo que alivie o sul do país. Por outro, enfrenta a resistência do Hezbollah em abrir mão de seu arsenal, considerado por seus líderes como “escudo” contra Israel. A margem de manobra política é estreita, e qualquer movimento brusco pode reacender tensões sectárias entre sunitas, xiitas e cristãos, ainda presentes sob a superfície.

Organismos internacionais discutem possíveis sanções, resoluções e novas missões de observação na fronteira, mas esbarram em vetos e disputas no Conselho de Segurança da ONU. A busca por uma fórmula que combine desarmamento gradual do Hezbollah, garantias de segurança para Israel e proteção efetiva aos civis libaneses ainda parece distante. Enquanto a diplomacia patina, a vida de centenas de milhares de pessoas se resume a encontrar abrigo, comida e segurança a cada nova noite de bombardeios.

Os próximos dias indicam se a atual ofensiva se mantém limitada a ataques aéreos e à pressão psicológica sobre Beirute ou se avança para uma invasão por terra. A resposta de Teerã e do Hezbollah a cada nova morte, especialmente de líderes e quadros militares, pode acelerar ou frear essa escalada. No meio do tabuleiro geopolítico, o Líbano volta a viver uma pergunta recorrente em sua história recente: até quando o país consegue resistir sem se partir de vez.

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