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Zelensky e líderes europeus reagem a liberação dos EUA ao petróleo russo

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e líderes europeus criticam, nesta sexta-feira (13), a decisão dos Estados Unidos de flexibilizar, de forma temporária, sanções ao petróleo russo parado em alto-mar. A medida busca aliviar a disparada dos preços causada pela guerra contra o Irã, mas expõe rachaduras na frente ocidental contra Moscou.

Alívio no bolso, pressão na coalizão

O anúncio do governo americano, feito em 13 de março de 2026, autoriza por prazo limitado a venda de carregamentos de petróleo russo que estavam retidos em navios. São embarcações que cruzam rotas no Atlântico e no Mediterrâneo desde o endurecimento das sanções após a invasão da Ucrânia, em 2022, e que não conseguiam descarregar em mercados tradicionais da Europa e da América do Norte.

A Casa Branca tenta conter uma escalada de preços que, em algumas praças, supera 30% desde o início da ofensiva contra o Irã, no começo do ano. O barril do tipo Brent ultrapassa a marca simbólica de US$ 110, depois de ter ficado abaixo de US$ 80 por boa parte de 2025. Em Washington, assessores econômicos defendem que liberar parte do petróleo russo já extraído e estocado em navios é uma forma rápida de injetar oferta no mercado sem mexer, por ora, na estrutura das outras sanções.

O gesto, porém, é lido em Kiev e em capitais europeias como recuo político. Zelensky afirma a interlocutores que a flexibilização envia “um sinal perigoso” ao Kremlin e pode ser interpretada por Vladimir Putin como fadiga na campanha de pressão econômica. Em conversas privadas que circulam entre diplomatas, o presidente ucraniano diz que “cada exceção enfraquece o regime de sanções e fortalece a máquina de guerra russa”.

Coleira mais frouxa para Moscou

Governos europeus que dependem menos do petróleo russo se posicionam de forma mais dura. Em Paris, assessores do presidente francês classificam a decisão americana como “um erro de timing” num momento em que Moscou reforça ataques no leste da Ucrânia. Em Berlim, integrantes da coalizão governista alertam para o risco de a Europa aparecer mais comprometida com a pressão sobre a Rússia do que o próprio aliado histórico do outro lado do Atlântico.

A União Europeia constrói, desde 2022, um regime de embargo progressivo ao petróleo e ao carvão russos, combinado com tetos de preços coordenados com o G7. Essa arquitetura busca reduzir a receita de Moscou com energia, que responde por mais de 40% do orçamento federal russo em anos de bonança. A decisão americana, ainda que restrita a cargas já em trânsito e limitada no tempo, é vista como brecha que Moscou pode explorar para negociar descontos agressivos e manter fluxo de caixa em plena guerra.

Analistas de energia calculam que o desbloqueio desses navios pode colocar no mercado o equivalente a algumas centenas de milhares de barris por dia ao longo de algumas semanas. O volume está longe de reverter sozinho a pressão sobre os preços, mas sinaliza ao setor que Washington prioriza, neste momento, o impacto da bomba no bolso do consumidor. Empresas de transporte marítimo, corretoras e refinarias asiáticas e do Oriente Médio aparecem como principais beneficiadas.

Na outra ponta, a Ucrânia teme ficar mais isolada. Líderes em Kiev avaliam que parte da opinião pública ocidental, cansada de anos de guerra, pode aceitar com menos resistência concessões graduais a Moscou, especialmente quando ligadas ao custo de vida. A liberação parcial do petróleo russo vira, assim, teste político para a coesão da coalizão que sustenta sanções há quase quatro anos.

Risco de fissuras duradouras

A reação europeia sinaliza possibilidade de atritos diplomáticos nos próximos meses. Se a medida temporária for prorrogada ou ampliada para outros carregamentos, governos do bloco podem pressionar por uma revisão conjunta da estratégia de sanções, ou até adotar regras próprias mais rígidas no espaço europeu. Negociadores em Bruxelas já discutem, nos bastidores, formas de monitorar com mais rigor o destino de barris russos liberados sob autorização americana.

O debate não se limita a princípios. Em um cenário de guerra simultânea contra o Irã e de conflito prolongado na Ucrânia, a segurança energética volta ao centro das agendas nacionais. Países altamente dependentes de importação de energia, como Itália e Espanha, se veem divididos entre a necessidade de conter a inflação e a de manter uma posição firme contra Moscou. Setores industriais intensivos em energia, da siderurgia à química pesada, acompanham cada movimento regulatório, atentos a custos e previsibilidade.

Nos Estados Unidos, a Casa Branca tenta calibrar o gesto. Integrantes do governo repetem, em público, que a autorização é “estritamente temporária” e não altera a postura de condenação à invasão russa da Ucrânia. Em privado, assessores reconhecem que a pressão eleitoral cresce à medida que a gasolina se aproxima de US$ 5 por galão em alguns estados, patamar politicamente sensível em ano pré-eleitoral.

A partir desta semana, diplomatas americanos e europeus intensificam consultas para evitar que a divergência sobre o petróleo russo contamine outros dossiês, da ajuda militar a Kiev às negociações nucleares com Teerã. A Ucrânia, por sua vez, vai usar cada fórum internacional para cobrar coerência dos aliados e tentar impedir que a exceção vire regra. Resta saber, diante de uma guerra que se arrasta e de uma nova frente aberta contra o Irã, quanto tempo a coalizão ocidental consegue sustentar sanções duras sem que o próprio custo político interno se torne insuportável.

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