Eduardo Paes acusa uso político de prisão e mira Castro e Flávio Bolsonaro
O prefeito do Rio, Eduardo Paes, acusa o governador Cláudio Castro de usar politicamente a prisão de um vereador aliado e critica, em 13 de março de 2026, as indicações do senador Flávio Bolsonaro na gestão do Hospital Federal do Andaraí. Em entrevista na capital fluminense, Paes fala em perseguição política e alerta para o uso da máquina pública em plena pré-campanha eleitoral.
Crise aberta entre prefeitura e Palácio Guanabara
As declarações expõem uma ruptura que se arrasta silenciosa há meses entre o governo municipal e o estadual. O estopim agora é a prisão de um vereador próximo ao prefeito, detido por decisão judicial que aliados de Paes classificam como “claramente dirigida”. O prefeito afirma que o caso não se limita a uma disputa local, mas se insere num cenário de radicalização às vésperas das eleições de 2026.
Paes acusa o governador de explorar o episódio para se aproximar de grupos conservadores e fortalecer seu espaço na arena nacional. “Quando a prisão de um vereador vira instrumento de palanque, quem perde é a democracia carioca”, diz, em tom direto, diante de câmeras e microfones. A fala ocorre em meio a negociações de alianças partidárias, que envolvem pelo menos cinco siglas com presença no Rio e em Brasília.
O alvo indireto é o campo bolsonarista, que se reorganiza para 2026 e vê no Rio um palco estratégico. Paes afirma que a ação judicial contra seu aliado ganha contornos políticos ao ser celebrada em redes sociais de figuras ligadas ao governador e ao senador Flávio Bolsonaro. Para o prefeito, a prisão, tomada isoladamente, não explicaria o grau de exposição pública dado ao caso por auxiliares do governo estadual.
A entrevista reforça a imagem de uma cidade dividida entre dois projetos concorrentes de poder. De um lado, a prefeitura tenta se aproximar do Planalto e de partidos do centro. De outro, o governador busca preservar a base que o elege em 2022 com apoio explícito do bolsonarismo. O Rio volta a funcionar como laboratório de alianças, tal como em 2018, quando a cidade antecipa clivagens que depois se espalham pelo país.
Hospital do Andaraí e acusações de clientelismo
O Hospital Federal do Andaraí, na zona norte da capital, entra no centro da disputa. Paes critica o que chama de “fatiamento político” da unidade, um dos principais equipamentos de média e alta complexidade da região. Segundo ele, indicações de pessoas ligadas ao senador Flávio Bolsonaro, feitas nos últimos meses, transformam a gestão da unidade em moeda de troca.
O hospital, que atende em média 30 mil pacientes por mês e responde por cerca de 15% dos procedimentos de alta complexidade da rede federal no estado, convive com filas e falta de pessoal em setores essenciais. Paes afirma que a ocupação de cargos estratégicos por apadrinhados políticos agrava problemas antigos. “Quando o critério deixa de ser o currículo e passa a ser o gabinete, quem sofre é o paciente que espera três, quatro, seis meses por uma cirurgia”, afirma.
As críticas miram a prática do loteamento político, recorrente na história do sistema de saúde carioca. O Andaraí já enfrenta, em diferentes momentos da última década, denúncias de sucateamento, contratos emergenciais e atrasos no repasse de recursos. A novidade agora é a associação direta, feita por um prefeito em exercício, entre essas distorções e o nome de um senador com projeção nacional como Flávio Bolsonaro.
O embate ocorre no momento em que o Ministério da Saúde tenta reorganizar a rede federal no Rio, responsável por sete grandes hospitais e um orçamento anual que supera R$ 2 bilhões. Qualquer interferência política nesses cargos altera não só o fluxo interno das unidades, mas também o equilíbrio entre prefeituras, governo do estado e parlamentares que controlam emendas. A fala de Paes ecoa em gabinetes de Brasília, onde se discute, desde 2025, reduzir o espaço de indicações partidárias nesses postos.
Na prática, o embate em torno do Andaraí afeta diretamente moradores de bairros como Andaraí, Grajaú, Tijuca e Méier, que dependem do hospital para serviços de alta complexidade. Se a disputa política se intensifica, decisões administrativas podem ser retardadas por semanas, com impacto sobre cirurgias eletivas, exames de maior custo e contratação de equipes.
Polarização às vésperas de 2026 e próximos passos
As falas de Eduardo Paes funcionam como um aviso de que a campanha de 2026 já ocupa o centro da cena política do Rio. Ao acusar uso político da prisão e denunciar indicações no Andaraí, o prefeito tenta se posicionar como contraponto ao governador e ao bolsonarismo fluminense. A estratégia mira o eleitorado urbano que rejeita o radicalismo, mas também busca preservar sua própria base na Câmara Municipal, onde a prisão de um aliado acende o alerta sobre futuras investigações.
No Palácio Guanabara e nos gabinetes ligados a Flávio Bolsonaro, a expectativa é de reação pública. Assessores já discutem notas oficiais, entrevistas e eventuais ações judiciais, cenário que tende a prolongar a crise por semanas. A tensão promete influenciar debates em comissões da Alerj, onde tramitam projetos que envolvem segurança pública e saúde, duas áreas diretamente ligadas à disputa entre Paes e Castro.
O desfecho da prisão do vereador, ainda em análise nos tribunais, e a resposta oficial sobre as indicações no Hospital do Andaraí são pontos de inflexão. Se o governo estadual endurece o tom, a polarização se aprofunda e se torna combustível para a campanha presidencial. Se recua, abre espaço para que o prefeito se apresente como vítima de perseguição e defensor da institucionalidade.
O Rio volta a ocupar um papel desproporcional na política nacional, como ocorre em 2010, 2018 e 2022. As próximas semanas mostram se a disputa em torno de um hospital e a prisão de um vereador se consolidam como caso emblemático de uso político da máquina pública ou se acabam absorvidas pelo calendário eleitoral, à espera do próximo embate.
