Ultimas

Irã restringe Estreito de Ormuz e pressiona fluxo global de petróleo

O Irã limita, nesta quinta-feira (12), a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz em meio à guerra com Estados Unidos e Israel. A restrição atinge países considerados alinhados à ofensiva militar e coloca sob risco uma rota que escoa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo.

Rota vital sob pressão militar

O aperto no tráfego marítimo ocorre em um dos pontos mais sensíveis da economia global. Entre o Irã e Omã, o estreito conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico, por onde passam petroleiros carregados por Arábia Saudita, Kuwait, Iraque, Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e pelo próprio Irã. Toda a região vive sob tensão desde 28 de fevereiro de 2026, quando a guerra entre Teerã, Estados Unidos e Israel começa e transforma a rota em palco direto da disputa.

A administração norte-americana estima que, só na primeira metade de 2023, cerca de 20 milhões de barris de petróleo cruzam diariamente o estreito, movimentando quase US$ 600 bilhões em um ano. Qualquer interrupção nesse fluxo afeta de forma imediata o comércio internacional e os preços da energia. O canal, que mede cerca de 50 quilômetros na entrada e na saída e se estreita a pouco mais de 33 quilômetros, é organizado em duas faixas de navegação com 3 quilômetros cada, uma de ida e outra de volta.

Disputa entre direito internacional e força regional

Embora o Estreito de Ormuz fique integralmente em águas territoriais de Irã e Omã, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar define o local como via marítima internacional. O regime de “passagem em trânsito” garante, em teoria, que nenhum Estado pode impedir a navegação pacífica de navios estrangeiros. Na prática, a capacidade militar iraniana e o clima de guerra deslocam o equilíbrio para o poder de fato, mais do que para o texto jurídico.

Desde o início do conflito, o Irã reforça sua presença na região e ameaça atacar embarcações de países que considera hostis. Ilhas estratégicas próximas às rotas de navegação também estão sob controle iraniano, o que amplia a capacidade do país de monitorar e pressionar o tráfego. Em entrevista à agência AFP, o vice-ministro das Relações Exteriores, Majid Takht-Ravanchi, admite que Teerã seleciona quem pode cruzar o estreito com mais segurança. “Alguns países já falaram conosco sobre atravessar o estreito e nós cooperamos com eles”, afirma. Em seguida, deixa o recado para os aliados de Washington e de Israel: “Os países que se juntaram à agressão não devem se beneficiar de passagem segura pelo estreito de Ormuz”.

Mercado de energia sente o risco

O estrangulamento de uma rota por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no planeta assusta governos, petroleiras e investidores. A região é o principal corredor de exportação dos membros do Golfo na Opep, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait, e também escoa a maior parte do gás natural liquefeito vendido pelo Catar. Qualquer sinal de que navios podem ser retidos, atacados ou desviados costuma se traduzir em alta imediata nas cotações do petróleo e do gás.

O risco não é apenas teórico. A navegação permanece parcial e seletiva desde o início das hostilidades, com petroleiros ajustando rotas, seguros mais caros e empresas avaliando alternativas em oleodutos terrestres. Ainda assim, a dependência da passagem é evidente. Na quinta-feira, o petroleiro Shenlong, carregado com petróleo saudita, chega ao porto de Mumbai após cruzar Ormuz e se torna o primeiro navio de petróleo bruto a alcançar a Índia desde o início do conflito, segundo dados da LSEG citados pela Reuters. O episódio funciona como termômetro da vulnerabilidade indiana e de outros grandes importadores asiáticos, que veem na segurança do estreito uma condição básica para manter suas economias em funcionamento.

Choque geopolítico prolonga incerteza

A estratégia iraniana de usar o estreito como instrumento de pressão insere o comércio de energia no centro da disputa militar e diplomática. Washington acusa Teerã de colocar minas na via marítima, alegação rejeitada pelo vice-chanceler iraniano. “De forma alguma. Isso não é verdade”, diz Takht-Ravanchi à AFP, em resposta às declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que forças americanas atingem 28 embarcações usadas para esse tipo de operação.

Enquanto a troca de acusações se intensifica, capitais de todo o mundo calculam o custo de uma crise prolongada. Países fortemente dependentes de importações de petróleo do Golfo, como os asiáticos e europeus, enfrentam a perspectiva de energia mais cara, inflação pressionada e menor crescimento. Exportadores, sobretudo dentro da Opep, convivem com a combinação incômoda de receitas potencialmente maiores com preços em alta e risco constante de não conseguir embarcar o produto. A disputa em torno de uma faixa de mar com pouco mais de 30 quilômetros de largura expõe até que ponto a estabilidade da economia global continua ancorada em um gargalo geográfico vulnerável. A pergunta que permanece é por quanto tempo o mundo consegue conviver com uma artéria vital da energia sob o controle direto de um ator em guerra aberta com duas das principais potências militares do planeta.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *