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SBT se distancia de Ratinho após ataque a deputada Erika Hilton

O SBT divulga em 12 de março de 2026 uma nota para se afastar de declarações de Ratinho sobre a deputada Erika Hilton. O apresentador afirma que a parlamentar “não é mulher” e provoca reação imediata de movimentos sociais e do público nas redes.

Emissora corre para conter desgaste

A reação da emissora vem poucas horas depois da circulação do vídeo com a fala de Ratinho. O apresentador, um dos rostos mais antigos da casa, questiona a identidade de gênero da deputada durante comentário político e afirma que Erika Hilton “não é mulher”. A frase ecoa em plataformas como X, Instagram e TikTok e coloca o SBT no centro de uma crise de imagem.

Na nota oficial, a empresa tenta traçar uma linha nítida entre o contratado e a instituição. “As opiniões emitidas pelo apresentador são de caráter pessoal e não representam a posição editorial do SBT”, diz o comunicado, divulgado no site da emissora e enviado à imprensa por volta das 18h daquele dia. O texto reafirma “compromisso com o respeito, a diversidade e a inclusão” e busca afastar a ideia de que a fala de Ratinho reflete a cultura interna do canal.

Conflito entre imagem pública e liberdade de expressão

O episódio ocorre em um ambiente político polarizado, em que discussões sobre identidade de gênero, direitos da população LGBTQIA+ e liberdade de expressão se cruzam diariamente. Erika Hilton, uma das vozes trans mais conhecidas do Congresso, elege-se deputada federal por São Paulo com mais de 250 mil votos em 2022 e se torna alvo frequente de ataques nas redes. A declaração de Ratinho reacende esse tipo de violência simbólica e expõe o risco para marcas associadas a figuras polêmicas.

Entidades de defesa de direitos humanos veem no comentário uma negação da identidade da parlamentar. Para ativistas, esse tipo de fala reforça estigmas e legitima agressões verbais e físicas fora da tela. Nas horas seguintes à repercussão, perfis ligados a movimentos LGBTQIA+ cobram publicamente uma posição do SBT e citam exemplos de outras emissoras que, nos últimos cinco anos, revisam contratos e quadros depois de declarações consideradas discriminatórias.

Dentro da emissora, o caso também acende alerta sobre padrões de conduta. Contratos de apresentadores de grandes canais costumam incluir cláusulas de compliance e regras de convivência, em linha com políticas de diversidade criadas desde 2018 por grupos de mídia nacionais. O comunicado da empresa não detalha medidas internas específicas, mas o tom de distanciamento sinaliza que a fala de Ratinho extrapola o limite considerado aceitável pelo departamento jurídico e pelo setor comercial.

Impacto comercial e pressão do público

O posicionamento rápido do SBT mira não apenas a opinião pública, mas também o mercado publicitário. Anunciantes de grande porte, responsáveis por dezenas de milhões de reais em receita anual, vêm exigindo políticas claras de diversidade para associar suas marcas a programas de TV. Em casos anteriores, empresas suspendem campanhas em menos de 24 horas após falas consideradas preconceituosas em horário nobre.

Executivos do setor de mídia reconhecem, em conversas reservadas, que a perda de um único contrato de patrocínio master pode representar um impacto de até 10% na receita anual de um programa de entretenimento de grande audiência. O risco é ainda maior em um cenário em que a TV aberta disputa verbas com plataformas digitais, onde crises de reputação ganham escala em minutos e pressionam respostas públicas rápidas.

A fala de Ratinho também alimenta o debate sobre responsabilidade de figuras públicas na construção do debate político. Ao atacar a identidade de uma parlamentar em exercício, o apresentador ultrapassa o campo da crítica a ideias e entra na esfera da dignidade pessoal, avaliam juristas ouvidos por entidades de direitos humanos. A discussão se desloca, então, da liberdade de expressão abstrata para o limite entre opinião e discurso discriminatório, tema que já rende ações judiciais e decisões importantes em tribunais superiores desde ao menos 2019.

Clima político e possíveis desdobramentos

O episódio deve ganhar fôlego no Congresso nas próximas semanas. Parlamentares da frente LGBTQIA+ articulam manifestações em plenário e avaliam a apresentação de representações formais a órgãos como o Ministério Público Federal e o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, o Conar. A possibilidade de uma ação por dano moral coletivo também entra no radar de organizações civis, que mencionam decisões anteriores envolvendo ataques a minorias em programas de rádio e TV.

Erika Hilton, que já move ações judiciais contra ofensas semelhantes, tem à disposição instrumentos legais previstos na Constituição e na legislação antidiscriminatória. A reação do SBT, embora rápida, não encerra a controvérsia. A emissora ainda precisa lidar com a expectativa de parte do público por medidas concretas, como advertências, suspensões ou revisão de contrato. A forma como o canal decide agir, ou se decide não agir para além da nota, indica até que ponto grandes empresas de comunicação estão dispostas a transformar compromissos públicos de respeito e diversidade em práticas internas verificáveis.

O caso expõe uma pergunta que permanece sem resposta definitiva: até onde vai a tolerância de emissoras, anunciantes e audiência com apresentadores que cruzam a linha entre opinião e desrespeito? A resposta, construída nos próximos meses, tende a influenciar o comportamento de outros comunicadores e o desenho das políticas de diversidade no setor de mídia brasileiro.

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