Ataques dos EUA matam 27 em milícia pró-Irã e elevam tensão no Iraque
Ataques aéreos coordenados dos Estados Unidos matam ao menos 27 combatentes das Forças de Mobilização Popular (FMP) no Iraque em 13 de março de 2026. Mais de 50 milicianos ficam feridos. A ação aprofunda o confronto indireto entre Washington e Teerã em território iraquiano.
Escalada em várias frentes no território iraquiano
Os bombardeios atingem instalações da poderosa coalizão paramilitar xiita em ao menos sete províncias: Diyala, Kirkuk, Anbar, Nínive, Salah al-Din, Wasit e Babil. Segundo comunicado da própria FMP, aviões de guerra americanos realizam 32 ataques em sequência, em áreas que, afirma o grupo, funcionam sob a estrutura oficial de segurança do Estado iraquiano e em coordenação com o Comando Conjunto de Operações do país.
A Comissão das FMP chama a ofensiva de “ataques aéreos pecaminosos” e fala em “transgressão flagrante” da soberania nacional. O grupo insiste que as bases atingidas não participam de ações contra forças americanas no Iraque ou em outros países. Washington não detalha publicamente a lista de alvos, mas amarra os ataques ao quadro mais amplo de ameaças contra tropas, diplomatas e empresas dos EUA na região.
A operação acontece em meio a alertas crescentes da Embaixada americana em Bagdá. Em comunicado de segurança divulgado em 11 de março, a representação adverte que o Irã e milícias alinhadas a Teerã podem planejar novos ataques contra interesses dos Estados Unidos no território iraquiano, incluindo hotéis frequentados por cidadãos americanos em Bagdá e na região autônoma do Curdistão. O texto também menciona risco de sequestro de norte-americanos.
Horas antes da divulgação do balanço dos bombardeios contra as FMP, a polícia iraquiana registra outro episódio de violência. Um acampamento militar ao sul de Bagdá, que abriga unidades das Forças de Mobilização Popular e da Polícia Federal, é atingido por um ataque que mata duas pessoas. As FMP atribuem a ação aos EUA e a Israel, o que amplia a percepção de cerco entre as facções ligadas ao Irã dentro do próprio aparato de segurança iraquiano.
As Forças de Mobilização Popular surgem em 2014, quando o avanço do Estado Islâmico ameaça Bagdá. Formadas a partir de dezenas de milícias, em sua maioria xiitas, as FMP se tornam peça decisiva na derrota territorial do grupo jihadista. Com o tempo, são formalmente incorporadas às forças armadas iraquianas, respondendo ao primeiro-ministro. Na prática, porém, diversas facções mantêm comando próprio, forte alinhamento com Teerã e presença pesada na política, na economia e em esquemas de segurança paralelos.
Guerra aberta com o Irã amplia risco de efeito dominó
O ataque de 13 de março não é um episódio isolado. Ele se encaixa na guerra aberta que Estados Unidos e Israel travam contra o Irã desde 28 de fevereiro de 2026, quando uma operação coordenada mata o aiatolá Ali Khamenei, então líder supremo iraniano, em Teerã. Na mesma ofensiva, diversas figuras do alto escalão do regime são mortas, e Washington afirma destruir dezenas de navios, sistemas de defesa aérea, aeronaves e outros alvos militares iranianos.
Teerã responde com uma campanha de mísseis e drones contra vários países do Golfo e do Levante – Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Iraque e Omã. As autoridades iranianas dizem mirar apenas interesses americanos e israelenses nessas nações, mas o impacto recai sobre o conjunto da região. A Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, sediada nos EUA, calcula mais de 1.200 civis mortos no Irã desde o início da guerra. A Casa Branca reconhece pelo menos sete soldados americanos mortos em ataques diretamente atribuídos ao Irã.
No Líbano, o Hezbollah, grupo armado apoiado por Teerã, passa a atacar o território israelense em retaliação à morte de Khamenei. Israel responde com uma série de ofensivas aéreas contra o que descreve como bases e depósitos de armas do Hezbollah. Centenas de libaneses morrem em bombardeios e confrontos ao longo das últimas semanas, enquanto moradores fogem de áreas fronteiriças e cidades estratégicas.
A morte de grande parte da cúpula iraniana leva à escolha de um novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei. Analistas ouvidos por veículos internacionais o veem como sinal de continuidade e não de abertura. O novo líder é associado à ala mais repressiva do regime e a um estilo de comando pouco propenso a concessões. Donald Trump, provável candidato republicano à Casa Branca, chama a escolha de “grande erro” e diz que Mojtaba é “inaceitável” para comandar o Irã.
Em paralelo, o comando iraniano envia recados duros. Autoridades ameaçam “queimar” instalações de petróleo e gás em países do Golfo caso sejam alvo de novos ataques. No estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo exportado no mundo, Teerã declara que embarcações só podem navegar em segurança se coordenarem seus movimentos com a marinha iraniana. A mensagem mira diretamente empresas de energia e governos ocidentais dependentes do fluxo de hidrocarbonetos da região.
Iraque volta ao centro do tabuleiro e vive risco de nova implosão
O bombardeio contra as FMP recoloca o Iraque no centro do tabuleiro regional, mais de duas décadas após a invasão liderada pelos EUA em 2003. O país tenta se equilibrar entre Washington e Teerã, mas convive com forças armadas fragmentadas, partidos rivais e milícias que, muitas vezes, respondem mais a comandos externos do que ao governo em Bagdá. À medida que a guerra entre EUA, Israel e Irã se amplia, o território iraquiano volta a servir de palco para acertos de contas indiretos.
Na prática, os ataques de 13 de março fragilizam ainda mais a autoridade do Estado sobre as Forças de Mobilização Popular. A morte de ao menos 27 combatentes e o ferimento de mais de 50 alimentam o discurso de vingança dentro das facções pró-Irã. A acusação de “violação da soberania” ecoa no Parlamento iraquiano, onde blocos alinhados às FMP pressionam por restrições à presença americana, inclusive o fechamento de bases usadas por tropas dos EUA e da coalizão internacional.
Empresas estrangeiras que operam no país, em especial do setor de energia e serviços ligados à indústria petrolífera, monitoram o aumento dos riscos. Qualquer ataque contra oleodutos, campos de petróleo ou rotas logísticas pode afetar contratos, elevar seguros e interromper produção. A ameaça iraniana de atingir infraestrutura de petróleo e gás em países vizinhos adiciona um componente extra de incerteza sobre preços internacionais e segurança de abastecimento.
A população iraquiana assiste a essa nova rodada de confrontos sob o peso de crises recorrentes de segurança, desemprego e serviços públicos precários. A promessa de estabilidade feita após a derrota do Estado Islâmico não se cumpre. Em muitas áreas, a presença das FMP garante certa ordem, mas também impõe controle armado e redes de influência econômica pouco transparentes. Ataques diretos dos EUA contra essas estruturas podem reconfigurar o equilíbrio interno, sem garantia de que o resultado seja mais estabilidade.
Diplomaticamente, governos europeus, países árabes e organismos multilaterais tentam reabrir canais de negociação para frear a escalada. Em Bagdá, líderes políticos discutem como evitar que o país volte a ser palco principal de uma guerra por procuração entre potências. A resposta das FMP aos ataques de 13 de março, e a capacidade do governo iraquiano de controlá-la, devem indicar se o Iraque caminha para um novo ciclo de violência ampla ou se ainda há espaço para conter o incêndio antes que atinja todo o Oriente Médio.
