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Trump avalia suspender Jones Act para conter alta da gasolina

O governo Donald Trump considera suspender por 30 dias a Jones Act, lei centenária do transporte marítimo dos EUA, a partir desta quinta-feira (12). A medida abre espaço para navios estrangeiros levarem combustíveis e cargas agrícolas entre portos americanos, em meio à disparada da gasolina provocada pela guerra com o Irã.

Casa Branca corre contra alta dos combustíveis

O sinal público da mudança vem da secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt. Em comunicado divulgado nesta quinta-feira (12), ela afirma que o governo avalia uma suspensão temporária das exigências da Jones Act para evitar gargalos no abastecimento de energia e de produtos agrícolas. “No interesse da defesa nacional, a Casa Branca está considerando suspender a Jones Act por um período limitado de tempo para garantir que produtos vitais de energia e produtos agrícolas essenciais fluam livremente para os portos dos EUA”, diz.

A avaliação ocorre enquanto a guerra de Estados Unidos e Israel com o Irã atinge a rota estratégica do Estreito de Ormuz, por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Ataques iranianos a navios petroleiros reduzem a oferta global, elevam o custo do frete e pressionam os preços internos nos EUA. Nesta quinta, o preço médio da gasolina no varejo atinge US$ 3,60 o galão, o maior nível desde maio de 2024. O diesel chega a US$ 4,89, o valor mais alto desde dezembro de 2022, segundo a associação de motoristas AAA.

O impacto nas bombas acende um alerta político na Casa Branca. Trump constrói sua narrativa de campanha em torno de energia barata e abundante e promete gasolina acessível como prova de sucesso econômico. Uma alta prolongada, a poucos meses das eleições legislativas de meio de mandato, ameaça esse discurso e oferece munição aos democratas, que acusam o governo de não proteger as famílias da inflação.

O que muda com a possível isenção

A Jones Act, em vigor desde 1920, exige que todo transporte marítimo entre portos americanos seja feito em navios construídos nos EUA, com bandeira americana e majoritariamente de propriedade de cidadãos do país. A regra, criada após a Primeira Guerra para fortalecer a marinha mercante, hoje limita a frota disponível para o transporte doméstico de combustíveis e grãos. Há poucos navios-tanque que atendem a todos esses requisitos, o que torna o frete mais caro e lento.

Na prática, a suspensão por 30 dias criaria uma espécie de corredor de emergência dentro do próprio território americano. Em vez de depender apenas de embarcações americanas, refinarias e distribuidoras poderiam contratar navios estrangeiros para levar gasolina, diesel e etanol de áreas exportadoras, como o Golfo do México, para regiões dependentes de importações, como a Costa Oeste e o Nordeste. Duas fontes ouvidas pela agência Reuters afirmam que o anúncio pode sair ainda hoje, caso Trump dê o aval final.

Analistas veem efeito limitado na média nacional, mas relevante em pontos de maior aperto. Patrick De Haan, da consultoria GasBuddy, especializada em monitorar preços de combustíveis, calcula que a isenção não derruba os valores na bomba, mas ajuda a conter novas altas em mercados mais vulneráveis. Em estados onde a oferta depende de navios, alguns centavos por galão fazem diferença imediata para frotas de transporte, agricultores e caminhoneiros.

A medida mexe em interesses poderosos. Armadores americanos, estaleiros e sindicatos marítimos defendem a Jones Act como barreira estratégica contra concorrentes estrangeiros e como garantia de empregos bem remunerados. Qualquer flexibilização desperta reação no Congresso, sobretudo entre parlamentares de estados com forte indústria naval. Ao acenar com uma suspensão temporária, o governo tenta se proteger de acusações de desmontar a lei e enquadra a decisão como resposta pontual a uma crise de segurança nacional.

Impactos econômicos e disputa política

O debate sobre a Jones Act reaparece sempre que choques externos atingem o mercado de energia dos EUA. Furacões no Golfo, interrupções em oleodutos e, agora, a guerra com o Irã expõem a fragilidade de uma logística baseada em poucos navios autorizados a operar na cabotagem. Ao recorrer a embarcações estrangeiras, Trump tenta ganhar tempo enquanto a crise no Oriente Médio mantém o petróleo sob pressão.

Se a isenção sair, empresas de navegação internacional ganham um acesso raro ao mercado interno americano, ainda que por apenas 30 dias. Companhias de transporte rodoviário e ferroviário podem sentir o impacto, já que parte das cargas migra para o mar em busca de custos menores. Consumidores podem não perceber queda direta na bomba, mas uma estabilização dos preços em torno dos atuais US$ 3,60 por galão já seria considerada vitória política na Casa Branca.

A leitura entre aliados de Trump é que qualquer alívio nos postos reduz o desgaste com eleitores da classe média, que ainda sentem o impacto da inflação acumulada nos últimos anos. Adversários democratas, porém, argumentam que suspensões pontuais da Jones Act não substituem uma estratégia energética de longo prazo e criticam a dependência de rotas vulneráveis como o Estreito de Ormuz.

Dentro do próprio Partido Republicano, a discussão divide bancadas. Parlamentares ligados à indústria naval pressionam contra a flexibilização e tentam limitar o alcance da isenção. Já representantes de estados agrícolas e consumidores de energia barata defendem a medida como necessária para escoar grãos e garantir combustível acessível para o campo.

Pressão por resposta rápida e incerteza adiante

A decisão de Trump ocorre sob relógio político e geopolítico. Quanto mais tempo o Irã mantiver pressão sobre o tráfego no Estreito de Ormuz, maior tende a ser a volatilidade do preço do petróleo e do combustível nos EUA. A suspensão temporária da Jones Act, se confirmada, vira um teste sobre quão flexível o país está disposto a ser em sua própria legislação quando a segurança energética entra em jogo.

A Casa Branca evita cravar prazos além dos 30 dias cogitados, mas a experiência pode abrir precedente para novas isenções em crises futuras. Produtores de navios, sindicatos e militares acompanham de perto, atentos a qualquer sinal de mudança permanente no regime de cabotagem. Enquanto isso, o eleitor americano vê a disputa refletida em números frios nas bombas e se pergunta se um alívio passageiro será suficiente para atravessar a guerra e a próxima eleição.

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