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Netanyahu diz que ataque israelense matou cientista nuclear iraniano

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirma nesta semana, em coletiva em Jerusalém, que um ataque israelense matou um cientista nuclear iraniano de alto escalão. A ação, segundo ele, integra uma campanha mais ampla para enfraquecer o programa atômico do Irã e conter sua influência militar na região.

Operação calculada em meio a tensão crescente

Netanyahu fala em tom assertivo diante de jornalistas e câmeras. Ele descreve o ataque como parte de uma série de operações iniciadas ainda em 2024 e intensificadas ao longo de 2025, voltadas a instalações e equipes ligadas ao programa nuclear iraniano. Sem revelar a data exata nem o local do ataque, ele destaca que a ação é “cirúrgica” e direcionada a alvos que, segundo o governo israelense, representam ameaça direta à segurança nacional.

Na coletiva, transmitida ao vivo pelas principais redes israelenses, o premiê afirma que o cientista morto ocupa posição central no desenho de novas centrifugadoras e em projetos de enriquecimento de urânio. “Enfrentamos um regime que declara abertamente seu desejo de nos destruir. Não vamos esperar que ele conclua sua capacidade nuclear militar”, diz Netanyahu. Ele insiste que Israel age dentro do que considera seu direito de autodefesa e ressalta que o país opera “sozinho, se necessário”, em referência à percepção de lentidão das negociações internacionais.

A declaração pública amplia um movimento que, por anos, se mantém envolto em sigilo. Israel nunca reconhece oficialmente todos os ataques atribuídos às suas forças, mas vem assumindo, com mais frequência, ações contra alvos iranianos na Síria, no Líbano e no próprio Irã. Agora, ao vincular diretamente a morte de um cientista nuclear a uma decisão de governo, Netanyahu envia um recado tanto a Teerã quanto às potências envolvidas em conversas sobre o futuro do programa nuclear iraniano.

Golpe ao programa nuclear e risco de escalada

A morte de um cientista de alto escalão atinge mais do que uma pessoa. Em programas altamente especializados, como o nuclear, a perda de um quadro-chave pode atrasar projetos por meses, às vezes por anos, dependendo da área em que ele atuava e do nível de sigilo das pesquisas. Assessores militares de Israel, em conversas reservadas, estimam que o impacto imediato recai sobre a capacidade de integração de novas tecnologias às instalações iranianas, mas evitam apresentar números ou prazos públicos.

No Irã, a avaliação preliminar de analistas independentes é que o governo enfrenta agora pressão interna por uma resposta “proporcional”. Episódios anteriores de assassinatos seletivos, como os de cientistas em 2010 e 2020, geram forte comoção doméstica e são usados por autoridades iranianas para reforçar o discurso de que o país é alvo de uma campanha externa de sabotagem. “Qualquer ataque desse tipo é percebido em Teerã como agressão direta ao Estado, não apenas a um indivíduo”, avalia um pesquisador iraniano radicado na Europa, sob condição de anonimato.

A região entra em um novo patamar de incerteza. Forças de segurança israelenses aumentam o nível de alerta em embaixadas e instalações civis no exterior, temendo atentados de retaliação. Em 2023, relatórios da ONU apontavam que o Irã já acumulava urânio enriquecido em níveis próximos a 60%, bem acima do limite de 3,67% previsto no acordo nuclear de 2015, hoje esvaziado. O ataque anunciado por Netanyahu ocorre nesse contexto de avanço técnico iraniano e de paralisia diplomática.

Governos ocidentais acompanham com preocupação. Em capitais europeias, diplomatas calculam o efeito da ofensiva israelense sobre qualquer tentativa de recompor negociações multilaterais. Países que tradicionalmente atuam como mediadores, como Alemanha e França, já admitem em privado que a janela para um novo acordo abrangente sobre o dossiê nuclear se estreita a cada novo episódio militar. O receio é que a dinâmica de ação e reação entre Israel e Irã empurre a região para uma espiral difícil de conter.

Próximos passos e incertezas no tabuleiro regional

No discurso, Netanyahu sinaliza que a operação não é ponto fora da curva. “Vamos continuar a agir contra qualquer tentativa do Irã de avançar rumo a uma arma nuclear. Faremos o que for necessário, pelo tempo que for necessário”, afirma. A frase é interpretada por analistas como aviso de que ações semelhantes podem ocorrer novamente, seja contra cientistas, instalações ou comboios ligados ao programa militar iraniano. Fontes de defesa em Tel Aviv falam em planejamento de longo prazo, com horizonte de pelo menos cinco anos de operações clandestinas e abertas.

Em Teerã, a expectativa é de uma resposta em múltiplos níveis. O Irã dispõe de redes de aliados armados em países como Líbano, Síria, Iraque e Iêmen, o que amplia o raio de possíveis retaliações. Ao mesmo tempo, o governo iraniano tenta evitar um confronto direto e amplo que possa envolver os Estados Unidos e leva em conta, também, o impacto econômico de uma escalada sobre exportações de petróleo e comércio regional. Em 2024, cerca de 20% do tráfego mundial de petróleo cru passa por rotas próximas a áreas de influência iraniana, o que torna cada novo incidente motivo de apreensão para mercados e governos.

Organismos multilaterais, como a Agência Internacional de Energia Atômica, enfrentam agora um desafio duplo. De um lado, monitoram o programa nuclear iraniano com acesso limitado a instalações estratégicas. De outro, lidam com o avanço de ações militares que ocorrem fora de qualquer quadro negociado. Sem um canal político estável entre Teerã, Washington e Jerusalém, a margem para mediação diminui.

A declaração de Netanyahu, ao assumir o ataque e exaltá-lo como vitória de inteligência, torna a crise mais explícita e mais difícil de reverter. A partir de agora, a questão central para a região e para as potências globais não é apenas se o Irã vai buscar vingança, mas até que ponto Israel está disposto a manter uma campanha prolongada de ataques seletivos. A resposta, ainda em aberto, tende a definir o equilíbrio de poder no Oriente Médio pelos próximos anos.

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