Primeiros treinos de Roger animam São Paulo antes de duelo no Canindé
Os dois primeiros dias de trabalho de Roger Machado à frente do São Paulo, nesta semana, mudam o clima no CT da Barra Funda e animam elenco e diretoria antes do duelo com a Chapecoense, nesta quinta-feira, às 20h, no Canindé, pela 5ª rodada do Campeonato Brasileiro. O treinador aposta em um modelo mais agressivo, com posse de bola e pressão no campo de ataque, para tentar levar o time à liderança do torneio ainda nesta rodada.
Apresentação no auditório e mudança de rota
Roger inicia a gestão com um gesto simbólico. Na terça-feira, assim que assume o comando, leva todo o elenco e a comissão técnica ao auditório do CT da Barra Funda. Ali, sem bola em campo, apresenta em quase uma hora de conversa a ideia central de jogo: um São Paulo que ocupa o campo ofensivo, valoriza a posse e tenta recuperar a bola em poucos segundos após a perda.
O encontro funciona como carta de intenções. Com o apoio de vídeos preparados pela nova comissão, o treinador detalha comportamentos esperados em cada setor. Explica onde a defesa deve subir a linha, como os meio-campistas participam da construção desde a saída e qual é o papel dos atacantes na pressão. A fala agrada dirigentes e jogadores ouvidos pela reportagem, que descrevem a exposição como “clara” e “direta”.
A partir da reunião, o gramado do CT vira laboratório. Nos dois primeiros treinos, entre terça e quarta-feira, Roger divide o elenco em blocos e trabalha situações específicas, sempre com bola. Em um exercício, a equipe precisa recuperar a posse em até oito segundos depois de perdê-la. Em outro, o foco recai sobre circulação rápida de passes em espaço curto, com no máximo dois toques por jogador. A ideia é acelerar a tomada de decisão sem abrir mão do controle do jogo.
O momento da mudança potencializa o impacto. O São Paulo chega à 5ª rodada do Brasileirão como vice-líder, igualado em pontos com o Palmeiras, mas com a sensação interna de que ainda pode render mais. A nova comissão técnica encontra um grupo confiante pelos resultados, porém cobrado para assumir o protagonismo no campeonato já em maio, quando restam mais de 30 rodadas pela frente.
Diretoria assume risco e aposta em estilo agressivo
Nos bastidores, a chegada de Roger é tratada como aposta calculada. A diretoria de futebol, hoje sob liderança de Rui Costa e do lateral Rafinha, assume a linha de frente da contratação e se responsabiliza pelo projeto. Uma pessoa próxima à presidência resume o clima no Morumbi: a cúpula está “muito confiante” e lembra que o acordo recebe aval formal do presidente Harry Massis Júnior.
O movimento não nasce do nada. Em 2021, ainda durante a gestão de Julio Casares, o então coordenador técnico Muricy Ramalho já havia sugerido o nome de Roger após a demissão de Fernando Diniz. À época, o clube segue outro caminho. Quatro anos depois, o cenário é diferente: o time briga na parte de cima da tabela nacional, dispõe de elenco mais encorpado e busca um treinador disposto a encaixar um modelo mais agressivo, em sintonia com o que se consolidou no futebol brasileiro recente.
O plano traçado para o Brasileirão é claro. A diretoria quer o São Paulo brigando pela liderança desde o início para tentar manter a equipe entre os três primeiros até a virada para o segundo turno, no fim de agosto. Em números, isso significa lutar por aproveitamento acima de 60% nas primeiras 19 rodadas, algo que o clube não alcança de forma consistente no torneio por pontos corridos desde a campanha de 2018, quando termina em 5º lugar.
Dentro do vestiário, o discurso encontra eco. Jogadores relatam entusiasmo com a ideia de protagonizar os jogos, especialmente em casa e em estádios de menor porte como o Canindé, onde a pressão sobre o adversário tende a ser maior. A proposta, porém, cobra preço físico e mental. Um dos alertas da comissão nos treinos iniciais é o controle emocional para manter o time compacto mesmo quando o rival escapa da primeira pressão.
Torcida em observação e primeiro teste valendo liderança
Do lado de fora, a recepção ainda é cautelosa. Na entrevista de apresentação, na terça-feira, Roger admite que precisa ganhar o torcedor tricolor. “Eu sei que eu tenho que conquistar a confiança do torcedor, eu sei, né, mas nunca foi diferente. E eu tenho certeza que ele vai me abraçar”, afirma o técnico gaúcho, ciente do histórico exigente das arquibancadas do Morumbi.
O primeiro termômetro vem já nesta quinta, no Canindé. O São Paulo entra em campo às 20h, pela 5ª rodada do Brasileirão, empatado em pontos com o Palmeiras e com chance real de assumir a liderança ao fim do dia. Um triunfo diante da Chapecoense, combinado a tropeço do rival, recoloca o clube no topo da tabela em um início de campeonato, cenário que não se repete com consistência desde 2018.
O jogo também serve como teste prático da nova proposta. A expectativa interna é ver o time com mais presença no campo ofensivo, índice maior de finalizações e posse de bola acima dos 55%, patamar que a comissão trata como referência para um controle efetivo da partida. No vestiário, o recado é simples: mais tempo com a bola significa mais tempo longe do próprio gol.
O impacto de um bom resultado vai além da classificação. Uma vitória convincente fortalece a posição de Rui Costa e Rafinha na condução do futebol, reforça a escolha avalizada por Harry Massis Júnior e dá lastro para Roger implementar ajustes mais profundos nas semanas seguintes. Um tropeço, por outro lado, expõe de imediato a nova comissão à pressão natural de um clube que mira o título brasileiro oito anos depois do último grande troféu nacional de liga.
O São Paulo pisa no gramado do Canindé com a missão de transformar discurso e treino em desempenho e pontos. A resposta das próximas 90 minutos não encerra o debate sobre o futuro de Roger no clube, mas indica se o projeto de jogo agressivo e de posse alta tem fôlego para levar o time da vice-liderança à condição de protagonista estável no Brasileirão.
