Ultimas

PF identifica 15 perfis que divulgaram vídeos de violência simulada contra mulheres no TikTok

A Polícia Federal identifica 15 perfis no TikTok que publicam vídeos com simulações de agressões físicas contra mulheres na trend “caso ela diga não”. A ofensiva ganha força neste início de março de 2026, em meio às comemorações do Dia Internacional da Mulher e ao aumento dos feminicídios no país.

Trend violenta explode em mês de Dia da Mulher

A investigação nasce de um fenômeno específico da cultura digital recente. Entre 2024 e 2025, começam a se espalhar vídeos em que homens encenam pedidos românticos, quase sempre com gestos tradicionais, como o ajoelhar para um pedido de casamento. A sequência muda de tom em poucos segundos. Ao ouvirem um “não” encenado, os autores passam a simular socos, chutes, facadas e até disparos de arma de fogo contra a mulher que aparece na cena.

O enredo é embalado por frases como “treinando caso ela diga não” e variações semelhantes. As imagens usam efeitos sonoros de impacto e cortes rápidos, típicos da linguagem do TikTok, para transformar a simulação de violência em conteúdo de entretenimento. Os vídeos começam a circular em 2024, ganham tração em 2025 e explodem de vez no início de março de 2026, quando o debate sobre violência de gênero ocupa o centro das redes por causa do Dia Internacional da Mulher.

Nesse cenário, multiplicam-se reações indignadas. Influenciadores e coletivos feministas passam a denunciar a trend como apologia à violência e reforço da misoginia digital. A influencer Hana Khalil publica um vídeo em que afirma que os conteúdos “normalizam a violência contra a mulher e tratam a misoginia como piada compartilhável”. A repercussão pressiona autoridades, organizações civis e a própria plataforma.

As denúncias chegam à Diretoria de Repressão a Crimes Cibernéticos da PF, que abre um inquérito específico para rastrear a origem dos vídeos e identificar os responsáveis. O foco inicial recai sobre 15 perfis originais, apontados como criadores ou principais disseminadores do formato. Segundo investigadores ouvidos pela reportagem, esses perfis concentram a maioria das postagens que viralizam a partir de 2025.

Investigação mira normalização da violência em cenário de alta nos feminicídios

O inquérito parte de uma premissa central: o conteúdo não mostra apenas uma encenação exagerada, mas ensaia respostas violentas à negativa feminina em contextos afetivos. Para delegados envolvidos na apuração, esse roteiro se cruza com um cenário concreto de violência contra a mulher no país. Em 2025, o Brasil registra 1.568 feminicídios, o maior número da última década e 4,7% acima de 2024, que tem 1.492 casos. Em média, quatro mulheres são assassinadas por dia em razão de gênero.

Nesse ambiente, a investigação não se limita a enquadrar os vídeos como violação das regras internas do TikTok. A PF vê risco de estímulo a comportamentos violentos e de reforço de uma cultura que banaliza a agressão física como reação “natural” a um limite imposto por mulheres. Para investigadores, a frase “caso ela diga não” resume uma lógica em que a recusa feminina deixa de ser direito e vira gatilho para violência.

Com a abertura do inquérito, a PF passa a trocar informações diretamente com o TikTok. A diretoria de Crimes Cibernéticos solicita a remoção dos vídeos que violam as diretrizes da plataforma e pede a preservação dos dados dos perfis envolvidos. A plataforma confirma a derrubada dos conteúdos e o bloqueio das contas indicadas pela investigação. Os dados técnicos, como registros de acesso e informações de cadastro, ficam guardados para análise posterior.

As apurações avançam em paralelo a um debate mais amplo sobre a escalada da misoginia digital no país. Relatórios de organizações independentes apontam que canais misóginos brasileiros no YouTube somam mais de 23 milhões de inscritos, o que revela um público consolidado para discursos que atacam direitos das mulheres. O governo Lula já cobra publicamente que o TikTok explique o papel da plataforma na circulação de vídeos que simulam ou estimulam violência contra mulheres.

Especialistas em segurança digital e gênero ouvidos pela reportagem avaliam que a investigação da PF tem efeito simbólico e prático. Ao enquadrar a trend como objeto de inquérito, o Estado envia um recado direto aos criadores de conteúdo: transformar violência contra a mulher em entretenimento pode gerar consequências criminais, ainda que a agressão encenada seja “apenas” uma simulação gravada em vídeo.

Plataformas sob pressão e próximos passos da PF

Os próximos passos da apuração apontam para uma cadeia mais ampla que o TikTok. Delegados responsáveis pelo caso afirmam que não descartam a participação dos mesmos perfis em outras redes sociais, algumas já investigadas em inquéritos paralelos sobre incitação ao ódio e ameaças contra mulheres. A PF cruza dados para entender se os autores da trend também disseminam conteúdos semelhantes em plataformas como Instagram, X e YouTube.

A preservação de registros, solicitada à plataforma, permite mapear padrões de comportamento, possíveis financiadores e eventuais redes coordenadas de desinformação e ódio. Investigadores avaliam se os vídeos nascem de iniciativas isoladas em busca de engajamento ou se fazem parte de uma engrenagem organizada, que lucra com cliques e publicidade enquanto testa os limites das regras de moderação.

No campo regulatório, a atuação da PF alimenta a pressão sobre as plataformas digitais para reação mais rápida a denúncias envolvendo violência de gênero. Entidades de direitos humanos defendem prazos curtos para remoção de conteúdos que incentivem agressões e ameaças, além de maior transparência sobre algoritmos que podem amplificar esse tipo de material. A ofensiva contra a trend “caso ela diga não” reforça o argumento de que moderação tardia contribui para normalizar comportamentos violentos.

Para o usuário comum, o caso expõe a importância da denúncia como ferramenta prática. As primeiras comunicações que chegam à PF partem justamente de pessoas que veem os vídeos viralizando durante o mês do Dia Internacional da Mulher e acionam canais oficiais. A partir desse movimento, o inquérito se estrutura, a plataforma remove o conteúdo e os perfis passam a ser rastreados. O episódio mostra que o botão de denúncia, muitas vezes ignorado, pode acionar investigações reais.

A PF indica que a apuração segue em andamento e que novas quebras de sigilo de dados de internet podem ser solicitadas à Justiça, caso necessário. A tendência é que o inquérito se desdobre em outros procedimentos, a depender da identificação dos autores e de eventuais conexões com grupos organizados de ódio on-line. A maneira como o caso for conduzido deve influenciar, nos próximos meses, o debate sobre responsabilidade das plataformas e o limite entre humor violento, simulação e crime na internet brasileira.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *