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Caso Master desgasta imagem do STF e expõe crise de confiança

O Caso Master passa a cobrar um preço direto da reputação das principais instituições do país. Pesquisa presencial da Quaest, feita entre 6 e 9 de março de 2026 com 2.004 entrevistas, mostra que a população enxerga desgaste na imagem do Supremo Tribunal Federal, dos governos Lula e Bolsonaro, do Banco Central e do Congresso Nacional.

STF lidera desgaste em meio a decisões sob holofotes

O dado mais sensível recai sobre o Supremo. Para 13% dos entrevistados, o STF é a instituição com a imagem mais prejudicada pelo escândalo do Master. O número, isolado, pode parecer modesto. Colocado no centro da crise política e judicial que cerca o caso, porém, revela um sintoma: parte relevante da população associa diretamente o tribunal à turbulência.

O levantamento, feito em todo o território nacional, com margem de erro de dois pontos percentuais e 95% de confiança, captura um momento em que o Supremo volta a ser personagem central de disputas de alto impacto. Decisões recentes da Corte abriram caminho para a CPI do Master no Congresso e reacenderam o debate sobre os limites da atuação dos ministros em investigações sensíveis.

O ministro Dias Toffoli se torna um dos focos dessa controvérsia. A suspeição declarada no caso não elimina, segundo juristas ouvidos ao longo das últimas semanas, a possibilidade de ele ainda influir em temas ligados ao inquérito. A leitura de bastidor dentro do Congresso é de que a suspeição abre espaço para novas disputas internas na Corte e incerteza sobre o alcance das decisões futuras.

Em paralelo, aliados e críticos do governo Lula monitoram com atenção o papel do ministro Cristiano Zanin. A ala do Congresso que comemorou a suspeição de Toffoli considera Zanin uma incógnita. Deputados e senadores avaliam, em conversas reservadas, que qualquer voto dele em processos ligados ao Master pode redesenhar o equilíbrio de forças no tribunal e no próprio Parlamento.

Governos Lula e Bolsonaro, Banco Central e Congresso também sangram

O desgaste não se limita ao Judiciário. Os governos de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva aparecem em empate técnico como alvos de rejeição associada ao escândalo. Para 11% dos entrevistados, o governo Bolsonaro é o mais afetado em sua imagem pelo Caso Master. Outros 10% apontam o governo Lula.

Os números mostram que a crise atravessa gestões e reforça a percepção de que o Master se transforma em um fio condutor de críticas à classe política como um todo. O escândalo, que envolve suspeitas de irregularidades de grande repercussão e travessia por diferentes governos, alimenta um sentimento difuso de descrença. Em conversas captadas por institutos de pesquisa, o tom é de frustração: “Parece que tudo termina em pizza”, resume um eleitor indeciso ouvido em São Paulo.

O Banco Central também entra na linha de tiro. Para 5% da população, a autoridade monetária é a instituição que mais perde com o episódio. A leitura é de que, em um caso que mistura dinheiro, poder e responsabilidade sobre o sistema financeiro, a instituição que deveria ser sinônimo de estabilidade passa a ser vista com suspeita por uma fatia do público.

O Congresso Nacional aparece com 3% das citações como a instituição mais prejudicada. O percentual é menor, mas revela que o Legislativo não sai ileso. A criação da CPI do Master, celebrada por parte dos parlamentares como resposta política rápida, também é lida por eleitores como palco de disputa e exposição de rachas internos. O risco é que a investigação, em vez de reconstruir confiança, reforce a imagem de um Parlamento paralisado por brigas e cálculos eleitorais.

A pesquisa também registra um espaço de dúvida e fadiga. Para 1% dos entrevistados, nenhuma das instituições listadas teve a imagem afetada pela crise. Outros 17% dizem não saber responder quando questionados sobre quem perde mais com o escândalo. O índice reforça a sensação de saturação de boa parte do público em relação a crises sucessivas. “É tanta confusão que a gente já não sabe mais quem é o responsável”, afirma uma professora da rede pública do Recife.

Confiança em xeque e próximos passos do tabuleiro político

A reação captada pela Quaest indica que o Caso Master deixa de ser apenas um processo judicial complexo e passa a influenciar a percepção de legitimidade dos poderes. Quando o Supremo, dois governos seguidos, o Banco Central e o Congresso surgem como alvos de desgaste no mesmo episódio, a crise muda de patamar. A discussão deixa de girar só em torno de culpados individuais e passa a questionar o funcionamento do sistema.

Analistas políticos avaliam que a combinação de investigações, CPI e disputas no STF tende a manter o tema no centro da agenda ao longo de 2026. Governos, partidos e o próprio tribunal sabem que cada nova decisão, depoimento ou vazamento pode reabrir feridas e aprofundar a desconfiança registrada na pesquisa. A CPI do Master, em particular, corre o risco de virar palco de guerra entre governistas e oposição, com impacto direto no clima para votações econômicas e reformas.

O Banco Central, pressionado por um ambiente político instável, precisa preservar credibilidade para conduzir a política monetária e regular o sistema financeiro. A instituição tenta blindar decisões técnicas das turbulências do Master, mas encontra um cenário em que qualquer suspeita ganha eco rápido nas redes sociais. A percepção de independência, ponto central da atuação do BC desde a aprovação do mandato fixo para a diretoria, entra em observação.

No Congresso, líderes articulam uma estratégia para usar a CPI como espaço de exposição controlada. A ideia de parte da cúpula é mostrar ação e, ao mesmo tempo, limitar danos à imagem institucional. O resultado ainda é incerto. Investigações que começam com script definido muitas vezes escapam do controle, alimentadas por delações, quebras de sigilo e tensionamentos com o Judiciário.

No Supremo, a divisão de papéis entre ministros, as discussões sobre suspeição e a possibilidade de revisões de decisões mantêm o tribunal sob pressão. A Corte se vê diante de um desafio duplo: responder a um caso concreto de alta complexidade e, ao mesmo tempo, preservar a própria autoridade em um ambiente de confiança rarefeita.

O levantamento da Quaest não encerra o debate sobre o Caso Master. Ao mostrar que STF, governos, Banco Central e Congresso sangram em escalas diferentes, a pesquisa funciona como termômetro de um mal-estar mais profundo. A resposta das instituições a esse diagnóstico, nos próximos meses, definirá se o caso se torna ponto de virada na relação da sociedade com o poder ou apenas mais um capítulo em uma longa sequência de crises.

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