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Erika Hilton assume Comissão da Mulher após disputa apertada

A deputada Erika Hilton (PSol-SP) é eleita, em 11 de março de 2026, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara. A votação em dois turnos expõe resistência à sua presença, mas consolida a primeira mulher trans no comando do colegiado.

Disputa em dois turnos expõe resistência interna

O resultado sai depois de uma tarde tensa na Câmara dos Deputados. A eleição, que em geral passa quase despercebida, se transforma em teste de forças sobre diversidade e representação feminina no Congresso. No primeiro turno, mesmo com chapa única, Erika não alcança a maioria absoluta exigida pelo regimento. Recebe 10 votos favoráveis, enquanto 12 deputados optam por votar em branco. O impasse impede a confirmação imediata do nome da parlamentar.

Diante do empate político, a então presidente da comissão, Célia Xakriabá (PSol-MG), abre um segundo turno. A regra muda: já não é preciso maioria absoluta de 13 votos, basta maioria simples entre os presentes. Nesse novo cenário, Erika é eleita com 11 votos favoráveis e 10 em branco. A diferença apertada evidencia o desconforto de parte dos integrantes da comissão diante da primeira travesti, mulher trans, à frente do colegiado responsável por debater e fiscalizar políticas para mais de 100 milhões de brasileiras.

A nova presidente assume em meio a um Congresso polarizado e com bancada conservadora fortalecida. A disputa pela Comissão da Mulher, que já foi espaço de consenso mínimo em torno do combate à violência, passa a condensar embates sobre identidade de gênero, direitos reprodutivos e papel do Estado na proteção das mulheres.

Agenda contra violência de gênero e reação conservadora

Ao tomar posse, Erika tenta deslocar o foco do debate. Reafirma que a prioridade do mandato à frente da comissão é enfrentar a violência de gênero e reduzir índices de feminicídio e agressões domésticas. “Eu estou preocupada mais em que nós vamos trabalhar em prol da dignidade das mulheres. Precisamos enfrentar o feminicídio, a cultura do estupro, a violência doméstica e facilitar legislações que salvem a vida das mulheres”, diz, em entrevista.

A parlamentar defende que o colegiado se torne um espaço de escuta ativa e elaboração de propostas legislativas. “Eu quero fazer da comissão um espaço de escuta e acolhimento das mulheres, mas também de discussão de legislações que tratem da vida das mulheres”, afirma. Ela insiste que a presidência não será usada para travar disputas identitárias estéreis, mas para articular políticas públicas concretas com impacto na ponta, em delegacias, serviços de saúde, escolas e abrigos para mulheres em situação de risco.

O gesto tem efeito simbólico. Erika afirma, em plenário, que sua eleição cria “um marco histórico”. “Está decidido por maioria: fui eleita a primeira travesti, mulher trans, presidenta da Comissão das Mulheres. Vamos trabalhar por todas as mulheres, pelas meninas, pelas mulheres trans, pelas mulheres cis, pelas mães e por todas as dignidades das mulheres”, declara.

Enquanto a Câmara formaliza a escolha, a reação vem do outro lado da Praça dos Três Poderes. No Senado, Damares Alves (Republicanos-DF) critica a indicação. Em discurso no plenário, a ex-ministra da Mulher afirma ver risco aos espaços historicamente ocupados por mulheres cis. “Não posso permitir que um movimento no Brasil queira me tirar, inclusive, o direito de eu falar na tribuna que eu sou mulher”, diz. Ela sustenta que a comissão deveria ser comandada por quem “nasceu mulher”. “Sou mulher, eu nasci mulher e ninguém vai tirar o meu direito de falar que eu sou mulher”, reforça.

As falas expõem a fronteira do debate atual sobre gênero no Legislativo. De um lado, grupos que defendem a ampliação da representação, incluindo mulheres trans e travestis, em espaços antes restritos a uma visão binária. De outro, setores que aceitam discutir direitos civis para pessoas trans, mas rejeitam que essas figuras ocupem posições de liderança em estruturas voltadas às mulheres.

O que muda na prática e os próximos passos

A presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher tem poder de pautar projetos, convocar audiências públicas e pressionar o governo federal por execução de políticas. Na prática, quem ocupa o cargo decide quais temas avançam e quais ficam engavetados por meses. Ao assumir o posto, Erika ganha uma plataforma de visibilidade que pode influenciar desde a destinação de recursos para casas-abrigo até ajustes na Lei Maria da Penha e em programas de atendimento a vítimas de violência sexual.

O colegiado também se torna termômetro das disputas mais amplas em torno de direitos das mulheres e da população LGBTQIA+. A presença de Erika tende a reforçar a pauta de inclusão de mulheres trans em políticas de proteção, como delegacias especializadas e serviços de saúde integral. Ao mesmo tempo, pode acirrar a resistência de grupos conservadores à ampliação da definição institucional de quem o Estado reconhece como mulher.

A mesa diretora eleita, com Laura Carneiro (PSD-RJ) na primeira vice-presidência, Delegada Adriana Accorsi (PT-GO) na segunda e Socorro Neri (PP-AC) na terceira, espelha um esforço de composição entre diferentes campos políticos. Essa configuração pode funcionar como freio ou como ponte, a depender da disposição para construir consensos mínimos em torno do combate à violência de gênero, agenda que segue urgente em um país em que centenas de mulheres são assassinadas todos os anos por parceiros ou ex-companheiros.

Os próximos meses indicam se a comissão conseguirá traduzir o simbolismo da eleição de Erika em resultados concretos. A nova presidente promete priorizar audiências com especialistas, movimentos de mulheres e gestores públicos para identificar gargalos na aplicação das leis já existentes. Também sinaliza disposição para negociar com bancadas adversárias em busca de maioria para projetos que reforcem a rede de proteção. Entre o marco histórico e a resistência explícita, a Comissão da Mulher passa a ser um dos espaços mais observados do Congresso. A pergunta agora é se conseguirá se firmar como arena de proteção efetiva a todas as mulheres ou se ficará presa ao conflito sobre quem tem o direito de falar em nome delas.

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