PF identifica 15 perfis que criaram trend misógina “caso ela diga não” no TikTok
A Polícia Federal identifica 15 perfis que criam e impulsionam a trend “caso ela diga não” no TikTok, que incentiva agressões contra mulheres. A apuração começa em março de 2026, após a onda de denúncias que marca o mês do Dia Internacional da Mulher.
Trend misógina cresce em meio a recorde de feminicídios
A investigação corre na Diretoria de Repressão a Crimes Cibernéticos e mira os perfis que originam os vídeos, publicados entre 2024 e 2025. Segundo integrantes da PF ouvidos pela reportagem, esse núcleo inicial é tratado como ponto de partida para entender como o conteúdo sai de nichos misóginos e atinge o grande público em questão de dias.
Os vídeos seguem um roteiro repetido. Um homem simula um pedido de casamento ou uma cena romântica. Ao ouvir um “não”, parte para chutes, socos, facadas imaginárias ou tiros encenados contra a mulher. A legenda costuma trazer a frase “treinando caso ela diga não”, ou variações, sempre em tom de piada.
Esse tipo de conteúdo não surge no vazio. Em 2025, o Brasil registra 1.568 feminicídios, o maior número da década, alta de 4,7% em relação a 2024, que teve 1.492 casos. Na prática, quatro mulheres são assassinadas por dia no país por serem mulheres. Delegados que acompanham o tema veem a trend como sintoma de um ambiente digital que trata essa violência como humor aceitável.
A reação vem rápida. Perfis de influenciadores, sobretudo mulheres, passam a expor os vídeos e convocar o público a denunciar. A influencer Hana Khalil publica que a trend “normaliza a violência contra a mulher e a criminalização da misoginia”, frase que viraliza em resposta ao próprio conteúdo. As críticas ajudam a transformar o que era visto como “brincadeira” em caso de polícia.
Como a PF chega aos responsáveis e o papel do TikTok
As primeiras representações chegam à PF no início de março, quando a repercussão da trend cresce com a agenda do 8 de Março. Delegados da Diretoria de Repressão a Crimes Cibernéticos abrem inquérito e acionam diretamente o TikTok para mapear a origem das publicações. A plataforma confirma que os vídeos violam suas diretrizes e remove todo o material associado à trend.
Em despacho enviado à empresa, a PF pede dois movimentos simultâneos: derrubar os perfis que divulgam o conteúdo e preservar os dados de criação, acesso e eventual monetização dos vídeos. As informações técnicas, que incluem IPs, datas e vínculos com outras contas, passam a integrar o inquérito. Investigadores avaliam se os autores agem de forma coordenada com outros grupos já monitorados por discurso de ódio.
O material identificado mostra que a maioria dos posts que viralizam é de 2025, embora alguns perfis tenham publicações similares desde 2024. A PF trabalha com a hipótese de que esses vídeos integram uma estratégia mais ampla de produção de conteúdo misógino, que depois é replicado em larga escala por usuários comuns. “A normalização da violência começa na piada que ninguém contesta”, resume um delegado ouvido reservadamente.
Dentro da corporação, a apuração se conecta a outros inquéritos sobre misoginia digital, que já mapeiam canais brasileiros no YouTube com mais de 23 milhões de inscritos dedicados a conteúdo de ódio contra mulheres. A suspeita é de que os mesmos perfis possam operar em várias plataformas, adaptando a linguagem a cada rede para driblar moderação e manter engajamento.
Impacto nas redes e disputa sobre limites do humor
A remoção dos vídeos pelo TikTok freia a circulação da trend, mas não encerra o debate. Especialistas em segurança digital lembram que conteúdos violentos costumam reaparecer em novas versões, com pequenas alterações em legendas e trilhas sonoras, para escapar dos filtros automáticos das plataformas. A PF tenta se antecipar a esse movimento ao pedir a preservação de dados e o rastreamento de contas espelho.
A ofensiva ocorre em um momento em que o governo Lula cobra explicações formais do TikTok sobre a circulação de vídeos que incitam violência contra a mulher. Integrantes da área jurídica do governo defendem que o caso se torne exemplo de atuação coordenada entre Estado e plataformas, com prazos claros para remoção, punição a reincidentes e transparência sobre recomendações de conteúdo.
Organizações de direitos humanos alertam que a banalização da violência de gênero nas redes tem efeito direto fora da tela. Pesquisas recentes apontam que a exposição contínua a piadas com agressões físicas reduz a percepção de gravidade dos casos reais. Em um país que registra mais de quatro feminicídios por dia, essa insensibilização tem custo mensurável.
Advogados criminalistas ouvidos pela reportagem avaliam que os autores dos vídeos podem responder por incitação à violência, crime previsto no Código Penal, e por infrações à Lei Maria da Penha, dependendo do enquadramento do Ministério Público. A defesa costuma alegar exercício de humor ou liberdade de expressão, argumento que perde força diante do contexto de aumento de feminicídios e da repetição sistemática das cenas.
Próximos passos da apuração e o desafio de conter a misoginia digital
Os próximos movimentos da investigação ainda estão em curso. A PF cruza agora os dados dos 15 perfis identificados com outras bases já usadas em inquéritos sobre grupos de ódio. A corporação não descarta pedir novas quebras de sigilo e aprofundar a apuração em outras redes, como Instagram, X e YouTube, onde já há investigações abertas.
Delegados defendem que a resposta ao caso não se limite à responsabilização individual dos autores. A avaliação interna é que a misoginia digital se consolidou como um fenômeno de massa, alimentado por incentivos de engajamento e pela falta de consequência concreta para quem produz esse tipo de conteúdo. “Se nada acontece com quem incentiva violência, a mensagem é de que a vida das mulheres vale menos do que uma piada viral”, diz um investigador.
O inquérito deve avançar nas próximas semanas, com novos pedidos de informação ao TikTok e possíveis representações ao Ministério Público. A expectativa é de que o caso ajude a consolidar parâmetros para remoção rápida de vídeos que incentivam violência de gênero e para punição mais ágil de reincidentes. A dúvida, entre investigadores e especialistas, é se essa reação chegará na velocidade necessária para conter uma cultura online que aprende, em tempo real, a testar os limites da lei e da tolerância social.
