Congresso comemora saída de Toffoli, mas vê incógnita em Zanin
Uma ala do Congresso comemora, nesta quarta-feira (11), a decisão do ministro Dias Toffoli de se declarar suspeito no processo da CPI do Banco Master no STF. O gesto abre espaço para o ministro Cristiano Zanin, sorteado novo relator, e alimenta a expectativa de um julgamento menos contaminado politicamente, embora parlamentares falem em “incógnita” sobre os rumos do caso.
Pressão política e disputa com o STF em ano eleitoral
A suspeição de Toffoli, formalizada em 11 de março de 2026, encerra semanas de desgaste em torno de sua atuação na chamada Operação Compliance Zero, que mira o Banco Master e operações financeiras sob suspeita. O ministro já havia deixado, há cerca de um mês, a relatoria de um outro processo ligado ao caso Master, depois de questionamentos públicos sobre sua conduta. A leitura de parlamentares é que ele agora tenta blindar o Supremo de novas acusações de favorecimento e reduzir a temperatura num momento em que a Corte enfrenta crise de imagem.
No Congresso, a decisão é recebida como correção de rota. Deputados e senadores que pressionam pela instalação da CPI do Banco Master enxergam na troca de relator uma chance de tirar o tema da disputa pessoal com Toffoli e recolocá-lo no terreno jurídico. O movimento acontece às vésperas do calendário eleitoral municipal ganhar corpo, quando qualquer gesto do Supremo tende a repercutir no tabuleiro político nacional e no Palácio do Planalto, hoje ocupado por Luiz Inácio Lula da Silva.
Zanin assume em clima de expectativa e incerteza
O novo sorteio realizado no STF definiu o ministro Cristiano Zanin como responsável pelo mandado de segurança apresentado pelo deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF). O parlamentar pede que o Supremo obrigue a Câmara dos Deputados a instalar a CPI do Banco Master, hoje parada apesar de requerimentos protocolados. Nenhuma CPI da Câmara consegue sair do papel neste início de 2026, o que amplia a pressão sobre o presidente da Casa e fortalece o argumento de interferência indevida da cúpula no poder de investigação da minoria.
Parlamentares ouvidos nos bastidores avaliam que Zanin, indicado por Lula em 2023 e no STF há menos de três anos, tende a conduzir o caso com maior distanciamento político. A lembrança imediata é de 2021, quando o Supremo determinou a instalação da CPI da Pandemia no Senado, após meses de resistência do então presidente da Casa, Rodrigo Pacheco. “Espero que o ministro Zanin siga o precedente da CPI da Pandemia e garanta o direito da minoria de investigar”, afirma Rollemberg, em referência à decisão que forçou a abertura da comissão sobre a Covid-19 há cinco anos.
O próprio Congresso, porém, reconhece que não há garantias. Integrantes da base governista e da oposição descrevem o novo relator como uma “caixa-preta” em temas de controle político do Legislativo. Zanin acumula, desde sua posse, decisões técnicas em matéria penal e constitucional, mas ainda não firma uma linha clara sobre o alcance do poder de investigação do Parlamento em CPIs que podem atingir aliados do governo.
Toffoli fala em foro íntimo e tenta conter desgaste
Na decisão em que se declara suspeito, Toffoli invoca “motivo de foro íntimo” e evita detalhar as razões objetivas do afastamento. Ele ressalta, porém, que não enxerga nenhuma hipótese formal de impedimento ou suspeição no caso Master e lembra nota divulgada em sua defesa, há semanas, assinada por todos os 10 ministros do Supremo. O texto, à época, buscou reagir à escalada de críticas à Corte, acusada por parte do Congresso de interferir de maneira seletiva em CPIs e inquéritos de interesse político.
Aos parlamentares que acompanham o caso, a mudança traduz um cálculo pragmático. Ao deixar o processo, Toffoli reduz a exposição pessoal num ambiente já hostil, marcado por ataques nas redes sociais, investigações cruzadas e movimentos de bastidor para limitar poderes do STF por meio de propostas de emenda constitucional. O recuo também é visto como tentativa de preservar a legitimidade das decisões futuras, num tema que envolve banco de médio porte com forte presença em contratos públicos e operações de crédito vultosas.
CPMI do INSS vira atalho para apurar o Banco Master
O impasse sobre a CPI do Banco Master leva o Congresso a buscar caminhos alternativos. A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS, criada para investigar fraudes no benefício previdenciário, passa a assumir papel paralelo na apuração das denúncias que cercam o banco. O colegiado detém hoje dados sigilosos extraídos do celular de Daniel Vorcaro, controlador do Master, obtidos com autorização judicial no âmbito das investigações sobre irregularidades em benefícios.
O vice-presidente da CPMI, deputado Duarte Júnior (PSB-MA), tenta rastrear um número de telefone que, em mensagens de Vorcaro, aparece como possível responsável por tentar obstruir os trabalhos da comissão. A linha de investigação inclui cruzamento de registros de ligações e mensagens, bem como análise de eventuais conexões com agentes públicos em Brasília. A ofensiva ocorre porque, na visão do grupo, o Congresso não pode ficar paralisado à espera do que o STF decidir sobre a CPI específica do Banco Master.
A comissão, porém, também esbarra na Justiça. Nesta quarta, a CPMI planejava ouvir Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro. Um habeas corpus concedido pelo Supremo, porém, garantiu ao empresário o direito de não comparecer, e a audiência foi cancelada poucas horas antes do depoimento. Parlamentares relatam que esse tipo de decisão se torna rotina em CPIs sensíveis, o que, na avaliação deles, “engessa” o poder de investigação do Congresso e alimenta o discurso de que o Judiciário tutela o Legislativo.
Tensão entre poderes e sinal amarelo para o Planalto
O cancelamento da oitiva de Augusto Lima levou o presidente da CPMI do INSS, senador Carlos Vianna (Podemos-MG), a procurar o ministro André Mendonça, relator no STF dos processos ligados ao Master e às fraudes no INSS. A reunião em Brasília durou pouco mais de uma hora e terminou sem decisões concretas. Parlamentares saíram com a sensação de que, por ora, o Supremo não pretende afrouxar o controle sobre quebras de sigilo, conduções coercitivas e convocações de investigados em comissões.
A sucessão de choques com o STF acende alerta no governo Lula em pleno ano eleitoral. Analistas políticos próximos ao Planalto avaliam que o ambiente de instabilidade entre poderes pode contaminar a campanha municipal, especialmente em capitais onde partidos governistas e de oposição disputam palmo a palmo o voto de centro. Cada decisão sobre o Banco Master ou sobre a CPMI do INSS tende a ser usada como munição em palanques regionais e redes sociais, com impacto direto na imagem do governo e da Corte.
No curto prazo, o foco se concentra em dois eixos. De um lado, Zanin precisa definir se seguirá o precedente de 2021 e determinará a instalação da CPI do Banco Master na Câmara, o que pode ocorrer ainda neste semestre. De outro, o Congresso tenta manter a CPMI do INSS operando com acesso a dados sensíveis, apesar das barreiras impostas por decisões individuais do Supremo. Até lá, a suspeição de Toffoli funciona como alívio momentâneo para o Congresso, mas não resolve a pergunta central que paira sobre Brasília: quem vai, de fato, controlar o ritmo e a profundidade das investigações que cercam o Banco Master?
