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Vereador do Rio é alvo de operação por acordo com Comando Vermelho

A Polícia Civil do Rio de Janeiro prende, nesta quarta-feira (11), o vereador Salvino Oliveira (PSD) e outros suspeitos de negociar apoio eleitoral com o Comando Vermelho na Gardênia Azul. A operação mira ainda familiares de Marcinho VP, policiais militares e operadores econômicos ligados à facção. A suspeita é de troca de favores políticos por controle de territórios e negócios na comunidade.

Acordo entre político e facção para transformar favela em reduto eleitoral

Os investigadores afirmam que Salvino Oliveira negocia diretamente com o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma espécie de autorização para fazer campanha na Gardênia Azul, zona oeste do Rio. A área é dominada há anos pelo Comando Vermelho e, segundo a polícia, passa a ser tratada como base eleitoral em troca de benefícios ao grupo criminoso.

Relatórios da operação apontam que uma das principais moedas de troca é a instalação de quiosques na região, apresentados publicamente como ação social. Integrantes do crime organizado escolhem parte dos beneficiários desses pontos comerciais, sem edital, disputa aberta ou qualquer critério transparente. O controle dos quiosques garante renda, influência e circulação de informações à facção.

As prisões e mandados de busca ocorrem ao longo do dia em diferentes bairros da capital e em municípios da região metropolitana. A Gardênia Azul, foco do acordo entre o vereador e o tráfico, concentra grande parte das diligências. Policiais civis apreendem documentos, celulares e computadores que podem detalhar como essas decisões políticas se alinham aos interesses do Comando Vermelho.

A operação recebe o nome de “Contenção Red Legacy” e resulta de meses de escutas, quebras de sigilo e cruzamento de dados. Os investigadores descrevem uma engrenagem que envolve traficantes, políticos, empresários de fachada e policiais militares, com o objetivo de transformar territórios armados em currais eleitorais e plataformas de negócios ilegais.

Familiares de Marcinho VP, PMs e elo com o PCC entram na mira

O inquérito revela a participação direta de familiares de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, um dos principais líderes históricos do Comando Vermelho, preso desde a década de 1990. A polícia identifica Márcia Gama, esposa do traficante e mãe do artista Oruam, como peça central fora dos presídios. Ela atua, segundo os investigadores, como intermediária de interesses da facção, repassando recados, alinhando acordos e articulando operadores financeiros.

Outro nome citado é Landerson, sobrinho de Marcinho VP, apontado como elo entre o comando da facção, equipes que atuam nas comunidades e sócios em negócios usados para lavar dinheiro. Relatórios mencionam serviços, imóveis e outros empreendimentos que funcionam como fonte de receita e expansão do poder do grupo. Márcia e Landerson não são encontrados nos endereços informados e passam a ser considerados foragidos da Justiça.

Os investigadores identificam ainda criminosos que se passam por policiais militares para obter vantagens, inclusive acesso a informações sigilosas e simulação de operações. A Corregedoria da PM acompanha o cumprimento de mandados de prisão temporária e de busca e apreensão contra seis policiais militares. Eles são levados para a Cidade da Polícia e, em seguida, transferidos para a unidade prisional da corporação em Niterói.

Em nota, o comando da PM afirma que “não tolera desvios de conduta ou crimes cometidos por seus integrantes” e promete punição rigorosa quando houver comprovação. Documentos da investigação indicam também sinais de cooperação entre o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC), algo que preocupa autoridades federais desde pelo menos meados da década passada, quando as duas facções passam a dividir rotas e estruturas logísticas.

O gabinete de Salvino Oliveira diz, em comunicado, que o vereador ainda não recebe qualquer notificação formal sobre a operação. “A assessoria jurídica já foi acionada e aguardamos esclarecimentos das autoridades competentes para compreender os fatos”, afirma a nota. A defesa de Márcia Gama, representada pelo advogado Flávio Fernandes, declara que ainda não tem acesso aos autos, mas que confia na Justiça.

Segundo Fernandes, a família é surpreendida pela notícia. Ele afirma que Márcia viaja “como pessoa livre” desde segunda-feira (9) e que será orientada a se apresentar. “Acreditamos que ela irá se entregar, de acordo com o perfil dela”, diz o advogado na chegada à Cidade da Polícia.

Eleição sob pressão armada e desafio à segurança pública

A operação expõe um problema antigo do Rio de Janeiro: a interferência direta de grupos armados nas eleições. Ao transformar territórios sob domínio do Comando Vermelho em bases eleitorais, o esquema descrito pela polícia fragiliza o voto livre e obriga candidatos a negociar com criminosos para circular em áreas inteiras da cidade. O caso da Gardênia Azul evidencia como a fronteira entre campanha, assistência social e controle armado se torna quase invisível.

Especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem apontam que acordos como o atribuído a Salvino Oliveira tendem a se reproduzir em outras comunidades, com milícias ou outras facções. A presença de policiais militares no centro da investigação agrava o cenário, porque corrói a confiança na corporação justamente em territórios onde o Estado já chega de forma frágil. Quando agentes públicos se somam ao crime organizado, a população perde qualquer referência de proteção e justiça.

A suspeita de cooperação entre Comando Vermelho e PCC também preocupa investigadores que monitoram o crime organizado há pelo menos 20 anos. Essas alianças aumentam a capacidade de corrupção, compra de armas e financiamento de campanhas por meio de laranjas e empresas de fachada. Ao mesmo tempo, o uso de quiosques e outros negócios de bairro como fachada dificulta o rastreamento de dinheiro sujo e torna o controle das ruas parte essencial da estratégia política.

As prisões desta quarta-feira tendem a abrir novas frentes de apuração sobre conluios entre políticos, policiais e facções em outras regiões da cidade. Promotores e defensores públicos cobram, nos bastidores, regras mais claras para campanhas em áreas sob domínio de grupos armados e maior presença de órgãos de fiscalização eleitoral durante o período de propaganda.

As próximas semanas devem ser marcadas por novos depoimentos, quebras adicionais de sigilo e possível apresentação de denúncia formal contra os envolvidos. A repercussão já pressiona partidos a reavaliar alianças locais e a adotar filtros mais rígidos na escolha de candidatos em 2026. A principal dúvida que permanece é se o sistema político e de segurança do Rio conseguirá romper o ciclo em que cada eleição renova, em vez de enfraquecer, o poder das facções sobre os territórios mais vulneráveis.

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