Banqueiro alvo da PF bancou viagem de luxo de autoridades a Londres
Um evento de luxo em Londres, bancado pelo Banco Master em abril de 2024, reúne cerca de 60 autoridades brasileiras, entre elas ministros do STF e o diretor-geral da Polícia Federal. A conta passa de R$ 31 milhões em hospedagem, jantares exclusivos, shows internacionais e degustação de bebidas raras. O banqueiro que paga a festa, Daniel Vorcaro, hoje está preso e é alvo de uma investigação bilionária da PF.
Whisky raro, clube privado e shows milionários
Entre 24 e 26 de abril de 2024, Londres recebe o 1º Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, com patrocínio do Banco Master e organização do grupo Voto, em parceria com a British American Tobacco. O roteiro inclui debates políticos durante o dia e uma programação de alto padrão à noite, com clubes privados, museu fechado para convidados e apresentações de artistas internacionais.
Documentos enviados pela Polícia Federal à CPMI do INSS mostram que o custo total do encontro chega a cerca de US$ 6 milhões, o equivalente a R$ 31,4 milhões na cotação atual. Só a degustação de whisky escocês Macallan no George Club, um clube privado na capital britânica, custa US$ 640.831,88, cerca de R$ 3 milhões à época. No mesmo evento, os aperitivos saem por 1.770 euros, algo em torno de R$ 12,3 mil, enquanto o set de DJ custa 720 euros, perto de R$ 5 mil.
Os gastos detalhados pela organização incluem US$ 466 mil em segurança privada, US$ 220 mil para a banda do jantar e cerca de US$ 1 milhão em shows internacionais. Entre as atrações estão o grupo alemão de música eletrônica Keinemusik, o cantor britânico Seal e o dançarino ucraniano Nikita Kuzmin. As noites também reservam jantares em clubes de elite e um evento na Wallace Collection, museu que abriga uma das coleções de arte mais valiosas de Londres.
Cerca de 40 autoridades brasileiras participam da programação oficial. No total, a logística e a hospitalidade englobam aproximadamente 60 convidados, entre políticos, integrantes do Judiciário e formuladores de políticas públicas. A PF registra que toda a estrutura, do transporte à segurança, é custeada pelo banco que hoje está no centro de um inquérito por fraudes, lavagem de dinheiro e corrupção.
Ministros, diretor da PF e o peso político da viagem
Entre os convidados estão os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. A programação inclui cinco painéis sobre estabilidade institucional, processo eleitoral, inteligência artificial, o papel do Judiciário na democracia e desigualdade social e econômica. Pelo menos 21 políticos e autoridades figuram como palestrantes, com falas previstas de dez minutos e espaço para debates entre os presentes.
Constam na lista de participantes o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o ex-presidente Michel Temer, senadores como Ciro Nogueira e Davi Alcolumbre, ministros do STJ e conselheiros do Cade e do CNJ. Os documentos não revelam com precisão quem comparece a cada jantar, show ou reunião, mas deixam claro que o banco de Vorcaro financia a engrenagem inteira.
A presença das autoridades ganha outro peso quando a PF passa a detalhar, em relatórios, a aproximação entre Dias Toffoli e Daniel Vorcaro. O evento de Londres aparece em documentos enviados ao STF e é discutido em sessão fechada da Corte, em 12 de fevereiro deste ano, que termina com a suspeição de Toffoli no caso que investiga o Banco Master. Na reunião a portas fechadas, Alexandre de Moraes minimiza o impacto da viagem: “Nesse encontro (em Londres), vários estávamos lá. Eu estava lá. Andrei Rodrigues estava lá. Depois fomos todos juntos a um pub, tomamos Macallan”, afirma o ministro.
A revelação da viagem ocorre enquanto a Operação Compliance Zero avança sobre o grupo ligado a Vorcaro. A investigação aponta um esquema bilionário de fraudes financeiras com títulos de crédito supostamente falsos, além de suspeitas de ameaça, corrupção, lavagem e invasão de dispositivos eletrônicos. O dono do Master é preso pela primeira vez em novembro de 2025, ao tentar embarcar para Dubai, e volta a ser detido em nova fase da operação, no dia em que deveria depor à CPI do Crime Organizado, em Brasília. Ele está hoje no Presídio Federal de Brasília, de segurança máxima.
Ética, imagem institucional e pressão por explicações
A divulgação dos gastos em Londres expõe um conflito sensível para as instituições de controle. De um lado, o Banco Master tenta se afirmar como interlocutor de investimentos internacionais e patrocinador de debates sobre estabilidade democrática. De outro, enfrenta o escrutínio da PF e do Ministério Público por suspeitas graves, enquanto mantém relações próximas com autoridades que deveriam fiscalizar o sistema financeiro.
Juristas e parlamentares enxergam risco de desgaste para a imagem do STF e da própria Polícia Federal. A presença de ministros da Corte Constitucional e do diretor-geral da PF em um evento de luxo bancado por um investigado por corrupção alimenta dúvidas sobre a fronteira entre diálogo institucional e promiscuidade. Senadores já articulam a criação de uma CPI exclusiva sobre o Banco Master, que se somaria à CPMI do INSS e à CPI do Crime Organizado, ampliando a pressão política sobre as instituições.
A repercussão também atravessa a comunidade jurídica e o mercado financeiro. Bancos, fundos de investimento e empresas reguladas acompanham com atenção os desdobramentos, preocupados com o efeito reputacional e com eventuais mudanças em regras de compliance para relacionamento com autoridades. A viagem a Londres se torna símbolo de um modo de operação em que interesses privados se aproximam, em ambiente fechado e de alto luxo, de quem decide sobre leis, processos e investigações.
Os gabinetes de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli são procurados para comentar a participação no evento, mas ainda não respondem. A direção da Polícia Federal também é questionada sobre a presença de Andrei Rodrigues e não se manifesta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para esclarecimentos.
Investigação em curso e perguntas em aberto
As apurações sobre o Banco Master e Daniel Vorcaro seguem em diferentes frentes, com possibilidade de novas prisões, quebras de sigilo e denúncias formais. A PF já prendeu, além do banqueiro, o cunhado dele, o pastor Fabiano Zettel, ligado à Igreja Batista da Lagoinha, e outros dois investigados. Quinze mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Minas Gerais e São Paulo, em uma investigação que mira a origem dos recursos, a rota do dinheiro e a eventual compra de proteção institucional.
No Congresso, o episódio alimenta discussões sobre regras mais rígidas para viagens e participação de autoridades em eventos patrocinados por empresas investigadas. Propostas de reforma do sistema de controle do Judiciário e de transparência de agendas voltam ao debate, impulsionadas pela exposição dos gastos em Londres. O caso Master, hoje, testa não apenas os limites da lei, mas também o padrão ético que a sociedade espera de quem comanda a Justiça e a segurança pública no país.
