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Bloqueio em Ormuz vira o jogo do petróleo e favorece a Rússia

A Rússia assume o papel de principal vencedora da crise no Estreito de Ormuz, em março de 2026, enquanto China e Europa encaram choques econômicos imediatos. O fechamento da rota por onde passa um quinto do petróleo mundial transforma a geopolítica da energia em questão de dias.

Da rota bloqueada ao salto de preços

O estreito de 58 quilômetros que separa o Irã de Omã para o trânsito internacional agora funciona como gargalo global. Após ataques americanos ao Irã, a passagem de petroleiros é interrompida e o mercado reage em tempo real. O barril do tipo Brent rompe os US$ 90, bem acima da faixa de US$ 60 a US$ 70 que vinha prevalecendo nos meses anteriores.

Nesse ambiente, a posição da Rússia muda de lado. Até poucos dias atrás, Moscou aceitava vender petróleo com desconto médio de US$ 15 em relação às cotações internacionais, uma forma de compensar sanções e restrições logísticas herdadas da guerra na Ucrânia. Com o bloqueio de Ormuz e a redução imediata da oferta do Oriente Médio, o petróleo russo passa a ser disputado. O desconto vira ágio: o barril é negociado cerca de US$ 4 acima do mercado.

Artur Wichmann, CIO da XP Inc, resume a reviravolta na live mensal da XP Asset, ao lado do economista Thales Maion e do gestor Danilo Gabriel. “A Rússia é o grande beneficiário dessa história”, afirma. Para ele, o país encarna a ideia de “antifrágil”, conceito popularizado por Nassim Taleb: quem se fortalece em meio à desordem.

Essa desordem atinge em cheio o lado que mais depende da rota bloqueada. China, Índia, Coreia do Sul e Japão recebem praticamente todo o petróleo importado por navios que cruzam o Estreito de Ormuz. Com a interrupção, refinarias desses países correm para refazer contratos, diversificar fornecedores e disputar cargueiros em outras rotas, mais caras e longas.

Choque na Ásia, pressão na Europa e posição do Brasil

A Ásia sente primeiro. No pregão que segue ao bloqueio, o índice acionário da Coreia do Sul despenca 18%, reflexo do pânico com energia mais cara e risco de desabastecimento. “Os asiáticos e os europeus foram os que mais sofreram na largada”, observa Wichmann, ao comentar o comportamento dos mercados entre domingo e segunda-feira, pelo horário de Brasília.

A China entra na crise em posição desconfortável. O país já revisa para baixo sua meta de crescimento e enfrenta desaceleração industrial. O fechamento de Ormuz adiciona um choque de oferta clássico: menos petróleo disponível empurra preços para cima e atividade econômica para baixo. “É exatamente o que ela não precisa a essa altura do campeonato”, diz o CIO da XP. A leitura em Pequim é que a crise de energia pode se somar a um mercado imobiliário frágil e ao enfraquecimento das exportações.

A Europa chega ao novo capítulo energético ainda marcada pela guerra da Ucrânia. A dependência do gás natural, somada ao encarecimento do petróleo, renova o temor de contas mais altas para indústrias e consumidores durante o inverno seguinte. Governos voltam a discutir subsídios e uso mais intenso de estoques estratégicos, na tentativa de conter pressões inflacionárias e preservar competitividade.

O Brasil observa a turbulência de um ponto relativamente protegido. O país é exportador líquido de petróleo e não depende do Estreito de Ormuz para escoar sua produção. A Petrobras chega à semana com o diesel vendido a distribuidoras cerca de R$ 2,74 por litro abaixo da chamada paridade de importação, segundo analistas do JPMorgan, o que oferece alguma margem de manobra para amortecer choques externos. Ainda assim, a valorização internacional do barril tende a reforçar receitas de exportação e, ao mesmo tempo, alimentar debates internos sobre reajustes de combustíveis.

Nos Estados Unidos, o governo enfrenta um dilema conhecido. Como maior produtor global de petróleo e gás, o país se beneficia de preços altos para seu setor de energia, mas paga a conta em combustíveis mais caros e inflação resistente. A Casa Branca tenta calibrar sanções ao Irã, suporte a aliados no Oriente Médio e estabilidade doméstica, enquanto o presidente promete que o confronto com Teerã será “curto”.

Inflação, bancos centrais e uma nova geopolítica da energia

O manual tradicional da macroeconomia recomenda que bancos centrais ignorem choques de oferta passageiros, como um bloqueio temporário em uma rota específica, e mantenham a política de juros sem mudanças bruscas. A experiência recente, porém, pesa. Pandemia e guerra da Ucrânia deixaram cicatrizes nas expectativas de inflação e nos orçamentos públicos.

“O problema é quando o choque contamina as expectativas de inflação”, alerta Wichmann. Nesse cenário, autoridades monetárias da China, da zona do euro e mesmo do Brasil podem ser forçadas a manter juros elevados por mais tempo, sacrificando crescimento para evitar uma nova rodada de aumento generalizado de preços. A percepção de que a crise em Ormuz pode durar além de algumas semanas torna esse risco mais concreto.

O elemento militar adiciona outra camada de incerteza. O estreito fechado prejudica a China de forma tão intensa que o CIO da XP arrisca, em tom irônico, a hipótese de uma intervenção marítima. “Não seria de surpreender se destróieres chineses aparecessem na região para garantir a passagem dos petroleiros”, comenta. A movimentação não se materializa, mas ilustra a pressão sobre Pequim para buscar uma saída rápida.

Organizações internacionais tentam costurar cessar-fogo e algum tipo de corredor seguro para o transporte de petróleo, enquanto capitais europeias e asiáticas reforçam a diplomacia com Washington e Teerã. A Rússia, por sua vez, não tem pressa. Cada dia de bloqueio consolida sua posição como fornecedor alternativo e encarece ainda mais suas exportações.

O rearranjo em curso sugere uma geopolítica da energia menos previsível nesta segunda metade da década. Países que dependem de gargalos estratégicos tendem a acelerar programas de transição energética, diversificação de rotas e ampliação de estoques. Exportadores como Brasil e Estados Unidos colhem ganhos de curto prazo, mas convivem com a volatilidade de um mercado em que eventos militares redefinem preços em poucas horas.

A grande incógnita agora é a duração do conflito e do bloqueio em Ormuz. Se a crise se resolver em semanas, o choque pode ser lembrado como mais um solavanco em um mercado já acostumado a sobressaltos. Se se alongar por meses, a vantagem russa, a fragilidade chinesa e a pressão sobre consumidores do mundo inteiro tendem a redesenhar, de forma duradoura, o mapa do poder no mercado de petróleo.

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