Policiais limpam cena da morte suspeita de soldado da PM em SP
Três policiais entram no apartamento da soldado Gisele Alves Santana e fazem a limpeza do local horas após sua morte, em 18 de fevereiro de 2026, em São Paulo. A cena ainda é tratada como suspeita pela Polícia Civil, que agora tenta reconstituir o que aconteceu no imóvel onde a ocorrência foi registrada inicialmente como suicídio.
Depoimento sobre limpeza reacende dúvidas na investigação
O relato da inspetora de condomínio Fabiana Capinan de Carvalho Pereira altera o rumo de um inquérito já cercado de contradições. Em depoimento prestado em março de 2026, ela afirma que, por volta das 17h48, acompanha três policiais militares até o apartamento de Gisele para realizar a limpeza do imóvel. Entre eles, segundo o registro, estão a própria soldado Gisele, o cabo Selma e o soldado Lobão.
A informação causa estranheza entre investigadores porque a Polícia Civil trata a morte como suspeita desde a alteração do boletim de ocorrência, antes classificado como suicídio no 8º Distrito Policial do Brás. Cada minuto conta na preservação de vestígios, e qualquer intervenção na cena pode comprometer laudos, reconstituições e a própria narrativa oficial do que se passou no apartamento onde Gisele vivia com o marido, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto.
O relato de Fabiana soma-se a outros elementos que pressionam por respostas mais claras. Um bombeiro militar que participa do atendimento no dia 18 registra, em depoimento, estranheza com a posição do corpo, a ausência do cartucho deflagrado e o comportamento do marido. Ele descreve a policial caída entre o sofá e uma estante da sala, com grande quantidade de sangue na cabeça, parte já coagulado, mas sem rigidez cadavérica aparente.
O socorrista conta que retira com facilidade a arma da mão direita de Gisele, que segura o revólver com o dedo fora do gatilho. “Decidi fotografar a cena por conta própria para preservar o registro do local”, diz, segundo o inquérito. As imagens funcionam como um contrapeso à intervenção posterior no imóvel e podem ajudar a reconstituir a dinâmica do disparo e a posição original do corpo.
Versões em choque e presença de autoridades no local
Gisele é encontrada morta na sala do apartamento em 18 de fevereiro, data em que a ocorrência entra no sistema da Segurança Pública como suicídio. A partir dos primeiros depoimentos, a Polícia Civil muda a classificação para morte suspeita e aciona a Corregedoria da Polícia Militar. O caso passa a ter acompanhamento interno e externo, enquanto o tenente-coronel Neto pede afastamento de suas funções.
O marido da soldado sustenta na versão inicial que tomava banho quando ouve o disparo e encontra a esposa caída ao sair do banheiro. A narrativa contrasta com a percepção do bombeiro sobre o cenário. Ele declara que a cena não apresenta características típicas de suicídio e destaca dois pontos: o local do disparo, em ambiente social da casa, e o perfil da vítima, uma mulher com filhos pequenos. “Em oito anos de trabalho como socorrista, suicídios assim são raros”, registra o depoimento.
O comportamento de Neto também entra no radar dos investigadores. Testemunhas ouvidas pela polícia relatam que o oficial anuncia que pretende tomar banho no apartamento após a morte, mesmo depois de ser orientado a não entrar no imóvel para preservar o local. De acordo com o inquérito, ele retorna ao apartamento acompanhado do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, antes de seguir para atendimento psicológico no Hospital das Clínicas.
O envolvimento do magistrado amplia a dimensão política do caso. Segundo registros da apuração, Cogan entra no imóvel junto com o tenente-coronel. Em nota, afirma que comparece ao endereço como amigo pessoal de Neto e diz que está à disposição para prestar esclarecimentos formais. A presença de uma autoridade do Judiciário numa cena em tese sob preservação policial reforça questionamentos sobre a condução inicial da ocorrência.
As investigações apontam ainda outro ponto de tensão: durante a análise do ambiente, o bombeiro diz não encontrar o cartucho da arma usada no disparo. Em cenas de tiro único, esse pequeno cilindro metálico costuma ser um dos principais vestígios no chão, em móveis ou sob objetos. A ausência do projétil ogival exposto no local levanta a hipótese de remoção, intencional ou não, do elemento balístico.
Fragilidade na preservação de cenas e busca por respostas
A decisão de limpar o apartamento em 18 de fevereiro e a posterior exumação do corpo, feita em 6 de março de 2026, expõem um problema antigo na apuração de mortes envolvendo agentes de segurança. Quando a cena se altera antes da perícia completa, a investigação se torna mais lenta e dependente de depoimentos, registros fotográficos informais e laudos complementares. A SSP de São Paulo informa que os exames do Instituto Médico Legal ainda estão em andamento e vão integrar o conjunto de provas do inquérito.
O impacto prático é direto: peritos passam a trabalhar com uma sequência de fatos marcada por intervenções sucessivas no local da morte. Primeiro, o atendimento de emergência e a movimentação do corpo. Depois, a circulação do marido, de policiais militares e de um desembargador. Por fim, a limpeza apontada pela inspetora Fabiana. Cada evento adiciona uma camada de incerteza sobre o que era original e o que é resultado da ação humana posterior.
Organizações que acompanham casos de letalidade policial e violência doméstica dentro das corporações veem no episódio um caso-teste para a capacidade do Estado de investigar seus próprios agentes. A morte de uma policial militar dentro de casa, com o marido oficial de alta patente, coloca em choque a imagem de disciplina interna com a demanda social por transparência. Em disputas assim, a forma como o inquérito é conduzido tende a pesar tanto quanto o resultado final.
Os próximos passos da investigação incluem a reconstituição da morte no apartamento, ainda sem data divulgada, e a análise detalhada dos laudos da exumação. A expectativa é que a nova perícia aponte distância do disparo, trajetória do projétil e possíveis sinais de defesa no corpo de Gisele. Esses dados vão dialogar com as fotografias feitas pelo bombeiro e com o relato de que o cartucho não é encontrado na cena.
Reconstituição e pressão por transparência
Dentro da Polícia Militar, o afastamento de Neto sinaliza o desconforto da corporação com a repercussão do caso. A Corregedoria acompanha os desdobramentos e pode abrir procedimentos disciplinares específicos a partir das conclusões da Polícia Civil. A presença de três policiais na limpeza do apartamento, a participação de uma autoridade do Judiciário e a contradição entre versões oficiais e relatos técnicos alimentam cobranças por responsabilização em diferentes níveis.
Do lado de fora, a morte de Gisele se transforma em símbolo de uma disputa maior: quem controla a cena quando o suspeito, a vítima e o responsável pela preservação do local pertencem ao mesmo sistema de segurança. A reconstituição programada, a análise dos laudos do IML e eventuais quebras de sigilo telefônico e digital vão determinar se o caso se consolida como suicídio, homicídio ou algo ainda sem nome certo. Até lá, permanece aberta a pergunta que move a investigação desde o início: o que, exatamente, acontece naquele apartamento antes que a porta se feche e a limpeza comece.
