Netanyahu diz que ofensiva contra Irã mira mudança de regime em Teerã
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirma nesta terça-feira (10) que a guerra contra o Irã tem como objetivo enfraquecer e substituir o regime em Teerã. O pronunciamento ocorre 10 dias após o ataque de 28 de fevereiro de 2026 que matou o líder supremo Ali Khamenei e levou o conflito a uma guerra aberta no Oriente Médio.
Operações miram estruturas de poder em Teerã
Netanyahu fala no Centro Nacional de Comando de Saúde, em Israel, transformado em um dos núcleos de planejamento das ofensivas. Diante de telas que exibem mapas do Irã e rotas aéreas, o premiê descreve uma campanha que, segundo ele, vai além da reação militar imediata. “Não há dúvida de que, por meio das ações tomadas até agora, estamos quebrando suas estruturas e ainda há mais por vir”, diz.
O alvo declarado de Israel são as bases político-clericais que sustentam o regime iraniano desde a Revolução Islâmica de 1979. Autoridades israelenses admitem, em caráter oficial, que o objetivo central da guerra é a mudança de regime em Teerã. Na prática, isso significa fragilizar a aliança entre a cúpula religiosa xiita, os Guardas Revolucionários e os centros de decisão política que se concentram na capital iraniana.
Desde o ataque de 28 de fevereiro, que atinge instalações de segurança ligadas à liderança de Ali Khamenei e resulta na morte do aiatolá, Israel coordena uma série de ações aéreas e cibernéticas contra o território iraniano. O governo evita detalhar a extensão dos bombardeios, mas descreve uma “campanha prolongada” para desarticular centros de comando, comunicações militares e estruturas de vigilância interna.
O vácuo provocado pela morte de Khamenei é preenchido rapidamente com a nomeação de seu filho, Mojtaba Khamenei, para o posto de líder supremo. A escolha sinaliza, na avaliação de diplomatas e analistas, uma aposta de Teerã na continuidade do modelo de poder construído ao longo de quatro décadas. Em público, Mojtaba repete a linha dura do pai e rejeita qualquer abertura política em meio aos ataques.
Escalada militar atinge petróleo, economia global e vizinhos
Enquanto Israel foca na elite política e religiosa iraniana, os Estados Unidos concentram seus esforços em alvos estratégicos, como instalações de mísseis e o programa nuclear do país. O governo americano afirma que pretende reduzir a capacidade de Teerã de ameaçar aliados na região e interromper o avanço tecnológico militar do Irã. As duas frentes correm em paralelo, com coordenação de inteligência e logística.
A resposta iraniana vem pela boca da Guarda Revolucionária, que ameaça bloquear totalmente o Estreito de Ormuz se os ataques continuarem. Cerca de 20% do petróleo consumido no mundo passa por essa faixa estreita de mar entre o Irã e Omã, o que transforma qualquer interrupção em risco imediato ao abastecimento global de energia. O simples anúncio de um possível bloqueio já basta para elevar a temperatura nos mercados.
Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reage com uma advertência pública. Ele declara que qualquer tentativa de interromper o fluxo de petróleo ou de gás pelo estreito provocará retaliações “vinte vezes mais fortes” contra o território iraniano. A fala amplia o clima de incerteza em capitais europeias e asiáticas, que dependem diretamente das exportações da região do Golfo Pérsico.
O nervosismo se reflete no preço do barril de petróleo, que oscila em torno de US$ 100 nos últimos dias, patamar que não se via de forma consistente desde crises anteriores no Oriente Médio. Bolsas na Europa e na Ásia registram quedas sucessivas em empresas de aviação, transporte marítimo e setores intensivos em energia, que já revisam para baixo previsões de lucro para 2026.
A instabilidade não se limita a Israel e Irã. Países vizinhos relatam danos diretos em suas infraestruturas. No Bahrein, autoridades confirmam ataques de drones contra a refinaria da Bapco, um dos principais complexos de processamento de petróleo do pequeno reino. As imagens de chamas e colunas de fumaça reforçam o temor de expansão do conflito para além dos dois protagonistas originais.
Em Teerã, o Ministério das Relações Exteriores rejeita qualquer abertura para negociação enquanto a campanha militar de Israel e dos Estados Unidos continuar. Em nota divulgada à imprensa estatal, o governo afirma que “não haverá espaço para diplomacia sob agressão” e acusa os dois países de tentar impor uma mudança de regime pela força. A retórica endurece o impasse e reduz as brechas para esforços de mediação.
Pressão por saída diplomática esbarra em cálculo de risco
A combinação de guerra aberta, ameaça ao fluxo de energia e sucessão acelerada em Teerã altera o equilíbrio de forças no Oriente Médio. Governos europeus discutem novas rodadas de sanções, mas evitam medidas mais duras que possam pressionar ainda mais o preço do petróleo. Importadores asiáticos buscam alternativas de abastecimento, reforçando contratos com produtores como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Dentro de Israel, o discurso de Netanyahu tenta responder a pressões internas por resultados rápidos e claros. Ao enfatizar que “estamos quebrando suas estruturas e ainda há mais por vir”, o premiê indica que a operação não se limita a uma série de ataques pontuais. A narrativa de mudança de regime, porém, levanta dúvidas sobre o dia seguinte e sobre quem preencheria um eventual vácuo de poder em Teerã.
No Irã, a ascensão de Mojtaba Khamenei consolida uma linha de resistência. Especialistas em política iraniana avaliam que o novo líder supremo tende a se apoiar ainda mais na Guarda Revolucionária para garantir controle interno. Esse movimento pode fortalecer alas mais radicais, interessadas em ampliar a capacidade de mísseis e aprofundar o programa nuclear como forma de dissuasão.
Organismos internacionais acompanham o conflito com preocupação crescente. agências ligadas à ONU alertam para os riscos humanitários de uma guerra prolongada, tanto em território iraniano quanto em eventuais frentes secundárias no Líbano, na Síria e no Golfo. Até agora, porém, não há sinal de uma iniciativa coordenada de mediação capaz de sentar todas as partes à mesma mesa.
A próxima etapa depende de duas decisões centrais: se o Irã vai transformar em ação a ameaça de bloquear o Estreito de Ormuz e se Estados Unidos e Israel estão dispostos a calibrar a ofensiva para abrir espaço a alguma negociação. A morte de Ali Khamenei, longe de encerrar um ciclo, expõe um novo capítulo de incerteza regional. A questão em aberto é se as potências envolvidas enxergam algum limite aceitável para testar até onde essa escalada pode chegar.
