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Ações de petroleiras caem na B3 com desmonte do prêmio de guerra

As ações de grandes petroleiras brasileiras recuam nesta terça-feira (10) acompanhando o tombo do petróleo no mercado internacional, após novas declarações de Donald Trump sobre o conflito com o Irã. Os papéis de Petrobras, PRIO, PetroReconcavo e Brava Energia estão entre as principais quedas do Ibovespa pela manhã.

Petróleo desaba e desmonta prêmio de risco da guerra

No começo do pregão, o movimento é claro: o mercado desarma o chamado “prêmio de guerra” embutido nas cotações do petróleo desde a escalada das tensões no Oriente Médio. Às 10h35 (horário de Brasília), o WTI cai 6,51%, negociado a US$ 88,60, enquanto o Brent recua 7%, a US$ 92,01. O ajuste forte nos contratos internacionais se traduz em correção imediata nas ações ligadas ao setor de óleo e gás na B3.

Nesse mesmo horário, PetroReconcavo (RECV3) perde 2,26%, a R$ 12,57. Petrobras PN (PETR4) recua 1,76%, cotada a R$ 42,40. PRIO (PRIO3) e Brava Energia (BRAV3) também figuram entre as principais baixas do índice, com quedas de 1,64%, a R$ 58,72 e R$ 19,20, respectivamente. O recuo acontece depois de uma virada de humor que começa na véspera, quando Trump alterna sinais de distensão e ameaças duras ao Irã.

Trump fala em fim do conflito, mas mantém tom de ameaça

Na noite de segunda-feira, o presidente dos Estados Unidos indica que o conflito com o Irã pode terminar em breve. A mensagem acalma parte dos investidores, que veem menor risco de uma ruptura prolongada no fornecimento global de energia. As cotações do petróleo chegam a reagir em alta logo após o fechamento dos mercados, em um reflexo imediato da expectativa de trégua.

Horas depois, o tom muda. Trump afirma que o Irã será atingido “vinte vezes mais duramente” se tentar interromper o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, rota por onde escoa parte relevante da produção do Golfo Pérsico. A combinação de promessa de negociação com ameaça de retaliação cria um cenário de alívio parcial, mas ainda cercado de incerteza. Os preços, que haviam disparado com o fechamento do estreito, passam a devolver a alta diante da aposta de que a interrupção não vai se sustentar.

Para Bob McNally, presidente do Rapidan Energy Group, o movimento desta terça-feira traduz a força do discurso presidencial sobre o mercado. “Acho que há muito otimismo no mercado”, diz. “Vimos isso hoje com o colapso dos preços do petróleo devido ao que costumávamos chamar de intervenção verbal do presidente.” Ele lembra que, por décadas, investidores presumem que nenhum país teria permissão para fechar o Estreito de Ormuz, considerado o gargalo mais sensível do comércio mundial de petróleo.

McNally classifica o fechamento do estreito como “completamente calamitoso e inesperado”, lembrando que nem mesmo durante as tensões da década de 1980 a via marítima foi totalmente bloqueada. Ainda assim, ele avalia que, neste momento, os mercados apostam que a situação não deve se prolongar e que a navegação será restabelecida. Esse diagnóstico ajuda a explicar a forte correção negativa das cotações após os comentários de Trump.

Impacto direto sobre Petrobras e petroleiras da B3

No pregão brasileiro, o desfecho da virada no petróleo se traduz em ajuste rápido nas ações de empresas com receita atrelada à commodity. Petrobras, maior peso do Ibovespa, recua e pressiona o índice, refletindo a percepção de que um petróleo mais barato reduz a geração de caixa futura da estatal. PRIO, PetroReconcavo e Brava Energia sentem o mesmo impacto, ainda que com perfis de operação diferentes e maior foco em produção independente.

Para investidores, a mensagem é objetiva: menos prêmio de risco geopolítico significa preços mais baixos da commodity e redução, ao menos no curto prazo, do potencial de valorização de ações do setor. A queda desta terça-feira também corrige parte dos ganhos acumulados nas últimas semanas, quando a escalada entre EUA e Irã levou o mercado a precificar um choque prolongado no fornecimento, com reflexos imediatos nas empresas exportadoras de óleo.

Analistas do JPMorgan apontam que as recentes medidas adotadas por grandes produtores, aliadas ao discurso mais brando de Washington, tendem a limitar o impacto de longo prazo da crise sobre a oferta efetiva de petróleo. O diagnóstico reforça a visão de que o movimento atual é menos um colapso estrutural e mais um ajuste técnico após a sequência de altas impulsionadas pelo temor de uma guerra duradoura.

Nem todos enxergam o caminho tão claro. Andy Lipow, presidente da consultoria Lipow Oil Associates, adota tom mais cauteloso. “Teremos que esperar para ver como o Irã responderá aos comentários do presidente e se o Irã atacará ou não alguma infraestrutura petrolífera nas próximas horas”, afirma. A leitura é compartilhada por gestores que preferem reduzir exposição ao risco enquanto não houver sinais concretos de desescalada.

Volatilidade deve seguir guiando preços e decisões

O movimento desta terça-feira indica que a volatilidade continua ditando o rumo dos mercados de energia e, por consequência, das bolsas globais. Caso o conflito de fato caminhe para um desfecho rápido e o fluxo pelo Estreito de Ormuz seja normalizado, os preços do petróleo tendem a se estabilizar em patamar mais baixo do que o visto nos dias de pânico. Nesse cenário, ações de petroleiras podem encontrar novo ponto de equilíbrio, com foco maior em fundamentos operacionais do que em manchetes geopolíticas.

Se o Irã reagir com novos ataques ou ameaças concretas à infraestrutura de produção e transporte, o mercado volta a acionar o prêmio de risco, com nova rodada de altas na commodity e oscilações intensas nas bolsas. Para empresas e investidores brasileiros, o recado é de prudência: a mesma fala que hoje derruba o petróleo pode, em questão de horas, reacender o temor de choque de oferta. O desfecho da crise no Golfo e a forma como Teerã responderá a Trump definem não apenas o rumo do barril, mas também o humor da B3 nas próximas semanas.

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