Lula defende reforço militar e ataque à dependência de potências
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende, neste 9 de março de 2026, no Palácio do Planalto, um reforço da defesa nacional e da soberania brasileira. Ao lado do sul-africano Cyril Ramaphosa, Lula afirma que países do Sul Global não precisam comprar armas das grandes potências militares e devem buscar alternativas próprias de proteção.
Lula mira soberania e recado aos “senhores das armas”
Lula recebe o presidente da África do Sul em um Planalto sob forte simbolismo político. Nas conversas reservadas e nas declarações públicas, o tema da defesa domina a agenda. O brasileiro faz um movimento calculado: vincula o fortalecimento das Forças Armadas à ideia de independência em relação às potências que dominam o comércio global de armamentos.
Segundo assessores, a reunião se estende por mais de uma hora em um gabinete no terceiro andar. Lula insiste na tese de que o Brasil precisa elevar sua capacidade militar para dissuadir qualquer tentativa de invasão ou ameaça externa. “Países do Sul Global não podem continuar comprando dos senhores das armas”, afirma, em referência às grandes potências militares que concentram mais de 70% das exportações bélicas mundiais, segundo dados de institutos internacionais de pesquisa.
O encontro marca uma etapa da aproximação entre Brasil e África do Sul, dois dos cinco integrantes do Brics. Na avaliação do governo, a crise geopolítica dos últimos anos expõe, com clareza inédita, a vulnerabilidade de países que dependem de fornecedores externos para equipamentos estratégicos, de caças a sistemas de defesa cibernética. A guerra na Europa Oriental e a escalada de tensões no Oriente Médio funcionam como pano de fundo constante na conversa entre Lula e Ramaphosa.
No Planalto, auxiliares lembram que o Brasil destina hoje algo em torno de 1,3% do PIB para defesa, abaixo da meta de 2% defendida por alas das Forças Armadas. O presidente não fala em números na reunião, mas indica que pretende ampliar investimentos de forma gradual, vinculado a prazos de médio prazo, de cinco a dez anos. A ideia, repetida em reuniões internas desde o início de 2025, é reduzir gargalos em fronteiras, fortalecer a vigilância marítima e atualizar a doutrina militar para conflitos híbridos, que combinam ataques físicos e digitais.
Defesa autônoma e alianças no Sul Global
Lula usa o encontro com Ramaphosa para defender um esforço coordenado entre países em desenvolvimento. O foco é criar capacidade própria de produção de equipamentos, munições e tecnologia de defesa, sem prescindir de cooperação, mas limitando a dependência de contratos bilionários com Estados Unidos, Rússia, China e países europeus. “Não podemos ser eternos compradores de armas, temos de ser construtores de nossa própria segurança”, diz, segundo relatos de participantes da reunião.
A diplomacia brasileira enxerga na parceria com a África do Sul uma pista concreta para esse plano. Os dois países compartilham histórico de cooperação em tecnologia nuclear para fins pacíficos, em programas espaciais e em iniciativas industriais. O governo vê espaço para ampliar projetos conjuntos em vigilância costeira, veículos blindados e sistemas de monitoramento de fronteiras, setores que movimentam bilhões de dólares por ano no mercado global.
No Itamaraty, a análise é de que o discurso de Lula reforça uma linha que ele adopta desde seu primeiro mandato, entre 2003 e 2010. Naquela época, o país fecha acordos de longo prazo, como o programa de construção de submarinos, incluindo um modelo de propulsão nuclear, com cronograma até a próxima década. Agora, a ênfase recai sobre a necessidade de distribuir melhor a cadeia produtiva, para que empresas brasileiras não atuem apenas como montadoras, mas dominem partes críticas da tecnologia.
Especialistas em defesa ouvidos reservadamente por auxiliares do Planalto apontam que a indústria bélica nacional enfrenta desafios de escala e financiamento. Programas estratégicos sofrem cortes e atrasos recorrentes ao longo dos últimos dez anos, em meio a crises fiscais e mudanças de governo. A fala de Lula funciona como sinal político ao Congresso e ao mercado: novos contratos podem vir, desde que alinhados à ideia de autonomia e cooperação entre países do Sul.
Ramaphosa ecoa o diagnóstico ao afirmar, em declaração conjunta, que “a segurança da periferia do mundo não pode depender de decisões tomadas nas capitais do Norte”. A frase reforça a mensagem de que o eixo sul-sul não se limita a comércio de commodities ou energia, mas alcança também o campo sensível da defesa. Em privado, interlocutores dos dois governos discutem a criação de grupos de trabalho para mapear oportunidades, com metas plurianuais e possibilidade de participação de universidades e centros de pesquisa.
Reforço militar, disputas internas e cenário externo
O movimento de Lula não se dá no vazio. A defesa de mais recursos para o setor militar entra em um ambiente político marcado por disputas orçamentárias duras. A equipe econômica trabalha com margem fiscal apertada, depois de sucessivos déficits primários e compromissos assumidos em áreas sociais. Para liberar bilhões de reais adicionais para defesa até 2030, o governo terá de negociar com o Congresso, que decide cada centavo do Orçamento anual.
Setores da oposição tendem a explorar a ambiguidade desse discurso. De um lado, parlamentares conservadores concordam com o reforço das Forças Armadas, mas criticam a aproximação com parceiros do Sul Global em detrimento de alianças tradicionais com os Estados Unidos e a Europa. De outro, vozes da esquerda temem que a ampliação de gastos militares retire espaço de políticas de educação, saúde e combate à pobreza, em um país com mais de 70 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar em 2025.
A fala contra os “senhores das armas” também mexe com o mercado global. Grandes fabricantes estrangeiros disputam contratos bilionários na América Latina e acompanham com atenção cada sinal vindo de Brasília e Pretória. A opção por desenvolver projetos nacionais ou regionais pode reduzir, a médio prazo, o volume de importações diretas, hoje estimadas em bilhões de dólares ao ano em toda a região. Em contrapartida, abre espaço para participação acionária, transferência de tecnologia e parcerias industriais mais complexas.
No plano internacional, a defesa de um eixo de segurança do Sul Global fortalece a imagem do Brasil como articulador político no Brics ampliado, que já reúne mais de uma dezena de países após as últimas expansões. Essa posição, porém, cobra um preço. A diplomacia brasileira precisará equilibrar o discurso de autonomia militar com compromissos firmados em fóruns como a ONU e a Organização dos Estados Americanos, que incentivam transparência e controle de armamentos.
No encerramento da agenda no Planalto, Lula indica que o governo prepara novos anúncios na área, sem detalhar valores ou projetos específicos. Interlocutores falam em planos que atravessam mais de um mandato presidencial, com metas para 2035. A resistência de parte da classe política, o limite fiscal e a disputa entre fornecedores externos e a indústria nacional formam o trilho por onde essa estratégia terá de avançar. A pergunta, neste momento, é se o país conseguirá transformar o discurso de independência em capacidade real de se defender sem voltar a depender dos mesmos “senhores das armas” que o presidente critica.
