Desembargador entra em cena em morte suspeita de PM em SP
O desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan entra no apartamento onde a policial militar Gisele Alves Santana é encontrada morta, em 18 de fevereiro de 2026, no centro de São Paulo. Ele chega a pedido do marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, e vira peça central em um inquérito que já mudou de suicídio para morte suspeita.
Presença de magistrado amplia pressão sobre o caso
O chamado ao magistrado ocorre poucos minutos depois de Neto encontrar a mulher caída no chão, com intenso sangramento na cabeça e uma arma de fogo na mão. Abalado, ele liga para o resgate, para a Polícia Militar e, em seguida, para o amigo de confiança, que aparece na cena do crime ainda na manhã de terça-feira, 18 de fevereiro.
A presença de um desembargador em um apartamento que deveria estar preservado para perícia transforma um caso inicialmente tratado como suicídio em tema sensível para a cúpula da segurança pública paulista. O inquérito, conduzido pela Polícia Civil, passa a descrever em detalhes a circulação de autoridades no imóvel de Gisele, 32, soldado lotada na capital, encontrada morta em casa, no centro de São Paulo.
Relatos anexados ao inquérito, aos quais a CNN Brasil tem acesso, apontam que Cogan entra no apartamento junto com o tenente-coronel, mesmo depois de policiais militares orientarem que o local não seja violado novamente. Pelo menos duas testemunhas, ambas policiais, afirmam que Neto ignora a recomendação para preservar a cena e retorna ao imóvel acompanhado do desembargador.
Em nota, Cogan diz que só é acionado “como amigo do coronel após os fatos” e evita entrar em detalhes sobre sua atuação naquele momento. “Eventuais esclarecimentos, se necessários, serão dados à Polícia Judiciária”, afirma o magistrado, que até agora aparece no inquérito apenas como testemunha dos acontecimentos posteriores à morte.
Versões em choque e suspeitas sobre preservação da cena
O episódio que mais levanta dúvidas entre investigadores ocorre quando o tenente-coronel decide voltar ao apartamento para tomar banho. Segundo o boletim de ocorrência, ele comunica a intenção ainda na presença dos PMs que atendem a ocorrência. Os policiais o orientam a não entrar, lembram da necessidade de preservar o local, mas relatam que o oficial insiste e atravessa a porta na companhia do desembargador.
Uma das testemunhas conta que permanece ao lado de Neto, já dentro do imóvel, e observa a presença discreta de Cogan. O magistrado, segundo o depoimento, não explica por que está ali nem se identifica formalmente aos policiais. Outro PM registra que o tenente-coronel parece seco e que não se recorda de ter visto toalhas na área do banho, o que contrasta com a versão inicial do marido de Gisele. No primeiro relato, Neto diz que está no chuveiro quando ouve o disparo e encontra a esposa caída no chão.
O apartamento guarda outros detalhes que chamam atenção. No quarto de solteiro, um policial vê fardas penduradas em cabides na parte externa do guarda-roupa, ao lado de um colete balístico. Em cima da cama, uma árvore de Natal fora de época. Neto se irrita com o cenário, questiona a posição do enfeite e afirma que alguém mexe em seu quarto, antes da chegada dos peritos. Nenhum desses pontos, por enquanto, é conclusivo, mas alimenta a desconfiança sobre a integridade da cena do crime.
Após o resgate, o tenente-coronel é levado ao Hospital das Clínicas para atendimento psicológico. Antes disso, retorna ao imóvel junto do desembargador. O movimento, somado à entrada prévia para o banho, passa a ser examinado com atenção pela Delegacia responsável e pela Corregedoria da Polícia Militar, que acompanha o caso em paralelo.
Inquérito muda de rumo e investigação ganha peso político
O registro da morte de Gisele começa como suicídio consumado no 8º Distrito Policial, no Brás. Dias depois, a natureza do caso muda para morte suspeita, classificação que permite ampliar diligências, ouvir novas testemunhas e pedir perícias complementares. Em 6 de março de 2026, menos de três semanas após o óbito, o corpo da policial é exumado para novos exames no Instituto Médico Legal.
A Secretaria da Segurança Pública confirma a exumação e informa que aguarda os laudos técnicos para decidir os próximos passos. Os resultados vão se somar ao material já reunido no inquérito, sob sigilo judicial. A pasta informa que o oficial citado está afastado das funções a pedido e que a Corregedoria da PM continua à disposição para colaborar.
A defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto tenta conter danos. Em nota, o escritório Malavasi afirma que ele “não figura como investigado, suspeito ou indiciado no procedimento em curso” e que colabora desde o início das apurações. Os advogados dizem que há “conteúdos descontextualizados” sobre a vida privada do oficial, com “exposição indevida” e reflexos sobre sua honra.
O texto cita o artigo 5º da Constituição, que garante intimidade, vida privada, honra e imagem, e avisa que a equipe jurídica “irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação” que viole esses direitos. Ao mesmo tempo, a defesa reafirma “confiança na atuação das autoridades” e destaca que o cliente está à disposição para “completa elucidação dos fatos”.
Laudos e depoimentos devem definir próximos passos
A família de Gisele acompanha cada movimento. O advogado Miguel Silva, que representa os parentes, confirma à CNN Brasil que todos são informados sobre a exumação e sobre as novas perícias. Para a família, o recuo da tese de suicídio e a mudança para morte suspeita abrem espaço para uma apuração mais ampla, sem descartar nenhuma hipótese.
Os laudos do IML, esperados para as próximas semanas, devem indicar distância do disparo, trajetória do projétil e possível posição da arma na mão da policial. Essas respostas técnicas vão dialogar com as contradições das versões iniciais e com o relato de que o apartamento é acessado diversas vezes antes da chegada dos peritos. A presença de um desembargador nesse intervalo crítico pressiona ainda mais por transparência.
O inquérito segue sob sigilo, mas o caso já ultrapassa os limites de um drama familiar. O episódio envolve um oficial superior da PM, um magistrado de segundo grau, uma policial morta aos 32 anos e uma corporação sob escrutínio. A cada novo depoimento, a pergunta que se impõe é se o Estado será capaz de esclarecer, com rigor e sem privilégios, o que realmente acontece naquele apartamento no centro de São Paulo.
