Trump diz que Cuba vive seus últimos momentos e eleva tensão com Havana
Donald Trump afirma que Cuba vive “seus últimos momentos de vida” e amplia a pressão sobre o governo de Miguel Díaz-Canel. A declaração ocorre neste sábado (7/3), durante a cúpula Escudo das Américas, em Doral, na Flórida, em meio ao agravamento da crise econômica e ao bloqueio energético imposto à ilha.
Escalada verbal em cúpula na Flórida
Trump fala a aliados reunidos para discutir o combate a cartéis e a segurança regional. Diante de chefes de Estado e ministros de governos alinhados a Washington, o presidente americano descreve um regime em colapso em Havana. “Cuba está em seus últimos momentos de vida. Eles estão no fim da linha. Eles não têm dinheiro, não têm petróleo. Eles têm uma filosofia ruim, têm um regime ruim, que já é ruim há muito tempo”, diz, em tom de ultimato político.
A frase ecoa em um momento em que a ilha enfrenta uma das piores crises desde o fim da União Soviética, com apagões diários, filas por combustível e queda na oferta de alimentos básicos. Desde 9 de janeiro, nenhum petroleiro atraca em portos cubanos, após a suspensão do fornecimento de óleo venezuelano exigida por Washington do governo interino em Caracas, que assume após a captura de Nicolás Maduro por forças americanas.
Trump aproveita o palco da cúpula, batizada de Escudo das Américas, para reforçar o isolamento do governo cubano e sinalizar que vê a crise como irreversível sem uma mudança de regime. O encontro reúne principalmente governos de direita da região, interessados em estreitar a cooperação militar e de inteligência com os Estados Unidos.
Ao mesmo tempo em que endurece o discurso, o presidente americano menciona que Havana estaria em conversas com Washington. Segundo ele, o governo comunista negocia com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com ele próprio, sem revelar prazos, propostas ou condicionantes. A referência a diálogos, feita de passagem, sugere uma combinação de pressão máxima e canal político aberto, estratégia que já marca outras frentes da política externa americana.
Díaz-Canel reage e denuncia ameaça à “Zona de Paz”
Em Havana, Miguel Díaz-Canel reage poucas horas depois, pelas redes sociais. O presidente cubano chama o encontro na Flórida de “pequena reunião de cúpula reacionária e neocolonial”, organizada pelos Estados Unidos “com a participação de governos de direita da região”. Para ele, os participantes se comprometem a “aceitar o uso letal da força militar americana para resolver problemas internos e garantir a ordem e tranquilidade de seus países”.
O líder cubano enquadra a Escudo das Américas como um ataque direto à Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, assinada em Havana em 2014 por chefes de Estado da região. O documento, usado com frequência pela diplomacia de Cuba, prega a solução pacífica de controvérsias, rejeita intervenções militares e defende a não ingerência em assuntos internos. “É um atentado contra a Proclamação da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, um ataque às aspirações de integração regional e uma manifestação da disposição de se submeter aos interesses do poderoso vizinho do norte sob os preceitos da Doutrina Monroe”, escreve Díaz-Canel.
A referência à Doutrina Monroe, formulada no século 19 para afirmar a primazia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental, resgata um vocabulário de confrontação que parecia atenuado em fases recentes da política latino-americana. Ao acusar os vizinhos de aceitarem a lógica de “pátio traseiro”, o presidente cubano tenta isolar politicamente os governos que se alinham a Trump e reforça a narrativa de resistência nacional diante do bloqueio.
No plano interno, Díaz-Canel enfrenta protestos esporádicos, queda do PIB e uma inflação que corrói salários e pensões. Empresas privadas locais começam a importar combustível por conta própria, tentativa limitada de aliviar os apagões e o transporte paralisado. A escassez, porém, afeta sobretudo os 11 milhões de habitantes da ilha, que convivem com racionamentos sucessivos de eletricidade e longas filas em postos de venda de gás e gasolina.
Crise energética, risco de intervenção e efeitos regionais
O bloqueio energético imposto de fato por Washington se soma ao embargo econômico vigente há mais de seis décadas e amplia a vulnerabilidade cubana. Sem o petróleo venezuelano, que chegou a responder por até 60% das necessidades de combustível da ilha em anos anteriores, o governo reduz serviços, corta viagens de ônibus, limita operações industriais e estende os horários de cortes de luz. O impacto recai sobre hospitais, escolas, pequenas empresas e, de forma mais aguda, sobre famílias de baixa renda.
Governos latino-americanos observam o movimento com atenção. A captura de Nicolás Maduro em janeiro, em operação de forças americanas, é lida por aliados de Cuba como um sinal de que Washington está disposto a ir além de sanções econômicas. Setores militares e diplomáticos na região calculam que qualquer passo adicional, como exercícios conjuntos perto das costas cubanas ou novas bases em países vizinhos, pode reacender memórias da Guerra Fria e da crise dos mísseis de 1962.
A declaração de Trump de que Cuba está no “fim da linha” não se limita ao terreno retórico. Ao reforçar a ideia de colapso iminente, o presidente americano tenta testar a coesão do núcleo dirigente em Havana, estimular dissidências e pressionar aliados de fora, em especial México e países do Caribe, a se afastarem do regime. Dias-Canel, por sua vez, usa o confronto verbal para consolidar apoio interno, apresentar a crise como produto de uma agressão externa e convocar solidariedade de governos ainda simpáticos a Havana.
O choque de narrativas ocorre em um continente mais polarizado. Na prática, a crise cubana afeta cadeias de serviços em saúde e educação em países que recebem médicos e profissionais enviados por Havana, contratos que já somam milhares de trabalhadores e movimentam centenas de milhões de dólares por ano. Também pressiona rotas migratórias na região, com o risco de novos fluxos de cubanos tentando chegar aos Estados Unidos por via terrestre ou marítima.
Próximos movimentos e incertezas
Trump indica que pretende manter a combinação de sufocamento econômico e negociação seletiva, com prazos em aberto. A Casa Branca aposta que o bloqueio energético e a interrupção do petróleo venezuelano obriguem Havana a aceitar concessões políticas profundas ou acelerem uma transição. O cálculo, porém, abre espaço para imprevistos, como uma onda migratória de grande escala rumo à Flórida ou uma crise humanitária mais aguda na ilha.
Díaz-Canel se apoia em acordos com aliados remanescentes e em iniciativas de importação privada para evitar o colapso total do abastecimento. A resposta de Cuba à Escudo das Américas será medida pelas próximas semanas: eventuais exercícios militares conjuntos na região, novas sanções setoriais ou, ao contrário, sinais mais claros de diálogo poderão redesenhar o tabuleiro. Em um cenário de economia asfixiada, energia racionada e discursos cada vez mais duros, a questão que permanece em aberto é quanto tempo o regime cubano consegue resistir à pressão sem ceder em pontos que, até aqui, tratou como inegociáveis.
