Irã ataca Bahrein e Iraque; Israel bombardeia Hezbollah em Beirute
O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã entra no décimo dia, nesta segunda-feira (9), com uma escalada de ataques no Bahrein, no Iraque e no Líbano. O Irã lança suas primeiras ofensivas sob a liderança de Mojtaba Khamenei, enquanto Israel bombardeia alvos do Hezbollah em Beirute. Países do G7 discutem mexer nas reservas estratégicas de petróleo para segurar a disparada dos preços de energia.
Ofensivas iranianas atingem civis e instalações estratégicas
No Golfo Pérsico, o Bahrein sente o peso direto da nova ofensiva. Um ataque contra o complexo petrolífero de Al Ma’ameer provoca um incêndio de grandes proporções, danos estruturais e deixa 32 civis feridos, todos cidadãos do país. O Ministério da Saúde local informa que quatro vítimas estão em estado grave, entre elas crianças, acendendo o alerta para o risco de uma crise humanitária em um Estado já vulnerável na disputa entre Irã e aliados dos Estados Unidos.
A imprensa estatal descreve o ataque como “agressão iraniana” e confirma que o alvo é uma instalação ligada ao setor de energia, peça importante na infraestrutura do pequeno reino. O incêndio é controlado, mas as imagens de chamas e fumaça na noite de domingo reverberam nas redes sociais da região. Em comunicado na rede X, a Bahrain News Agency registra “danos materiais significativos” e reforça que equipes de emergência trabalham para estabilizar a área.
No Iraque, a ofensiva assume outra forma. Foguetes e drones são disparados contra uma instalação diplomática dos Estados Unidos próxima ao Aeroporto Internacional de Bagdá. Fontes policiais ouvidas pela agência Reuters afirmam que o sistema de defesa C-RAM do aeroporto é acionado e intercepta os projéteis. Não há registro de mortos ou feridos, mas o episódio evidencia o grau de exposição das posições americanas em um país que, há anos, serve de palco para a disputa indireta entre Washington e Teerã.
As ações iranianas marcam o primeiro grande movimento militar atribuído a Teerã desde a nomeação de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo, após a morte de Ali Khamenei. O chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ari Larijani, afirma que a escolha de Mojtaba provoca “desespero” em Washington e em Tel Aviv e “enche de esperança” a base conservadora iraniana. A leitura em Teerã é de que a sucessão consolida a continuidade do regime em meio à guerra.
Israel amplia pressão sobre Hezbollah e tensão na região
Em paralelo à ofensiva iraniana, Israel volta a mirar o Hezbollah em território libanês. Na madrugada desta segunda-feira, o Exército israelense anuncia ter bombardeado “infraestruturas pertencentes à organização terrorista Hezbollah em Beirute”. O alvo fica no sul da capital, área considerada reduto histórico do grupo apoiado pelo Irã. Um correspondente da agência AFP relata uma forte explosão e colunas de fumaça sobre os subúrbios da cidade.
O ataque amplia o risco de abertura de uma frente ainda mais intensa no Líbano, país que já convive com grave crise econômica e política. O Hezbollah, com forte presença militar e política no território libanês, é visto por Israel como braço essencial da influência iraniana na fronteira norte. Cada míssil lançado sobre Beirute reforça o temor de um conflito mais amplo, que arraste o Líbano para uma guerra de alta intensidade e pressione ainda mais a população local.
No plano diplomático, o Irã tenta enquadrar a ofensiva como resposta a um ambiente hostil construído por Estados Unidos, Israel e aliados europeus. Em entrevista coletiva, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghai, acusa países europeus de terem “contribuído para a criação dessas condições”. Ele afirma que, ao apoiar a reinstalação de sanções contra Teerã no Conselho de Segurança da ONU, governos como o da França “encorajam os EUA e os países sionistas a continuarem cometendo seus crimes”.
A sucessão em Teerã também movimenta outras capitais. A China afirma ter “tomado conhecimento” da nomeação de Mojtaba Khamenei e pede que todas as partes retornem às negociações “para evitar uma escalada ainda maior do conflito”. Em Pequim, o porta-voz Guo Jiakun reforça a posição tradicional chinesa contra “qualquer interferência nos assuntos internos de outros países” e destaca que a soberania e a integridade territorial do Irã “devem ser respeitadas”.
Em Moscou, Vladimir Putin corre para registrar apoio ao novo líder supremo iraniano. Em mensagem oficial, o presidente russo promete “apoio inabalável” a Teerã e afirma que a Rússia “tem sido e continuará sendo uma parceira confiável” da República Islâmica. Segundo Putin, o Irã enfrenta “agressão armada” e o cargo assumido por Mojtaba exigirá “grande coragem e dedicação”. O gesto reforça a aliança estratégica entre os dois países, já visível na cooperação militar e energética.
Pressão nos preços de energia e dilema do G7
A escalada militar repercute imediatamente nos mercados de energia. O temor é de interrupções em rotas de exportação de petróleo e gás no Golfo Pérsico e de novos ataques a infraestrutura estratégica, como o complexo de Al Ma’ameer. Em meio à volatilidade das cotações, o presidente da França, Emmanuel Macron, afirma que os países do G7 discutem o uso das reservas estratégicas de petróleo para tentar segurar a alta dos preços. “A utilização das reservas estratégicas é uma opção prevista”, diz, a caminho de uma visita ao Chipre.
O movimento do G7 mira, sobretudo, o impacto direto sobre consumidores e empresas na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia. Uma disparada prolongada do barril pode pressionar inflação, elevar custos de transporte, encarecer alimentos e travar a recuperação econômica pós-crises sucessivas desde a pandemia. A liberação coordenada de estoques, por outro lado, tem efeito limitado no tempo e carrega um sinal político claro de que as grandes economias estão dispostas a intervir para conter o choque.
No Oriente Médio, quem paga imediatamente o preço são as populações presas entre bases militares, refinarias e zonas urbanas densas. No Bahrein, famílias aguardam notícias de parentes feridos no ataque a Al Ma’ameer enquanto autoridades avaliam a extensão dos danos à produção local. Em Bagdá, o som do sistema C-RAM em ação perto do aeroporto reacende memórias de anos de guerra em uma cidade que nunca se distancia totalmente da linha de frente.
Risco de guerra mais ampla e impasse diplomático
A combinação de ofensivas iranianas, bombardeios israelenses e ameaças contra posições americanas desenha um cenário de risco crescente de regionalização plena do conflito. Cada novo ataque amplia a chance de erro de cálculo, com potencial de atingir alvos civis ou instalações ocidentais sensíveis e forçar uma resposta direta de Washington, que até agora atua sobretudo por meio de defesa de suas bases e pressão diplomática.
O apelo da China por negociações contrasta com a retórica de Moscou e de Teerã, que insistem em enquadrar a crise como reação a uma “agressão” ocidental. Capitais europeias tentam equilibrar condenações formais à escalada militar, defesa de Israel diante de ataques do Hezbollah e críticas às ações iranianas, ao mesmo tempo em que calculam o impacto da guerra sobre contas de energia e humor de eleitores.
Diplomatas veem pouca margem para um cessar-fogo imediato. A sucessão de Khamenei, o fortalecimento de grupos alinhados a Teerã na região e a pressão interna sobre governos em Israel e nos Estados Unidos reduzem o espaço para concessões rápidas. O décimo dia de guerra termina com mais fumaça sobre Beirute, instalações danificadas no Bahrein e sistemas de defesa em alerta máximo em Bagdá. A dúvida, entre chancelerias e mercados, é se a próxima semana trará algum gesto de contenção ou se o Oriente Médio caminha para um confronto ainda mais amplo, com custos imprevisíveis para a região e para a economia global.
