Ultimas

Temporal com ciclone causa alagamentos e mortes em SP

Uma forte tempestade associada a uma frente fria e a um ciclone extratropical provoca enchentes, desabamentos e mortes em São Paulo na tarde deste domingo (8). Entre 12h e 18h, córregos transbordam, ruas somem sob a água e o Corpo de Bombeiros registra uma escalada de chamados na capital e na região metropolitana.

Chuva transforma bairros em corredores de água

A Zona Sul vive as horas mais críticas do temporal. Na Subprefeitura do Ipiranga, os córregos Ipiranga e Moinho Velho saem do leito e avançam sobre as ruas. O Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) mede 103,8 milímetros de chuva na região até 17h30, volume próximo ao que muitas cidades registram em vários dias.

Carros ficam quase totalmente submersos em vias do Sacomã, enquanto moradores tentam se equilibrar em muros, portões e marquises para escapar da água barrenta. Vídeos enviados à CNN Brasil mostram pessoas ilhadas sobre veículos, aguardando o resgate dos bombeiros ou a queda do nível da água. Em alguns trechos, a enxurrada arrasta o que encontra pela frente, de caçambas de entulho a lixeiras metálicas.

A chuva intensa também coloca em alerta outras subprefeituras. Em Guaianazes, no extremo leste, o córrego Guaratiba Ponto 2 transborda e ocupa cruzamentos inteiros. Em Vila Prudente, o córrego Mooca não comporta o aumento repentino da vazão. Em Santo Amaro, o córrego Água Espraiada volta a assustar moradores que convivem com o risco de enchentes recorrentes. Todas as regiões entram em estado de atenção, com equipes da Defesa Civil e da Prefeitura mobilizadas para monitorar pontos históricos de alagamento.

Entre meio-dia e 18h, o Corpo de Bombeiros atende ao menos 183 chamados relacionados a enchentes em São Paulo e na região metropolitana. No mesmo intervalo, a corporação registra 15 ocorrências de quedas de árvores e três desabamentos. O balanço ainda é parcial, porque muitos pedidos de ajuda chegam com atraso, por telefone congestionado ou por aplicativos de mensagem.

Muro de Congonhas cede; mortes elevam alerta no estado

O muro que cerca o Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul da capital, desaba após a sequência de pancadas de chuva mais fortes, no meio da tarde. Imagens mostram uma grande lâmina de água escorrendo pela lateral da pista em direção à rua, que fica alagada em poucos minutos. A concessionária Aena afirma, em nota, que “a ocorrência não impacta a operação do aeroporto, nem a segurança do terminal”. A empresa informa ainda que ninguém se fere e que a área ao redor do muro é isolada por equipes de manutenção.

Enquanto a capital enfrenta alagamentos generalizados, o estado soma novas mortes ligadas às chuvas do fim de semana. No sábado (7), em São Bernardo do Campo, na região metropolitana, um homem morre afogado após ser arrastado pela força da água. Segundo o Corpo de Bombeiros, a vítima fica presa sob um veículo e não resiste. A equipe médica do Samu confirma o óbito ainda no local.

No mesmo dia, em Sorocaba, no interior paulista, outro homem é levado pela enxurrada no bairro Jardim Guadalupe. A Defesa Civil do Estado inclui o caso na contagem oficial de mortos. Com essas ocorrências, a Operação SP Sempre Alerta – Chuvas 2025/2026 chega a 21 óbitos no estado, sendo 11 provocados por enxurradas, cenário que evidencia o peso dos temporais concentrados em poucas horas.

As cenas deste domingo repetem um roteiro conhecido de moradores que vivem próximos a córregos canalizados ou em áreas de encosta. Famílias correm para erguer móveis, desligar a energia e proteger documentos quando a água começa a subir. Em ruas estreitas, vizinhos se ajudam com cordas e escadas improvisadas. Em alguns bairros, o barulho das sirenes dos bombeiros e da Defesa Civil se mistura ao de sirenes de carros particulares que tentam atravessar trechos já interditados pela força da água.

Frente fria e ciclone mantêm risco de novos temporais

A combinação de frente fria ativa e ciclone extratropical explica a rapidez e a violência da mudança no tempo. A massa de ar frio avança pelo país pela costa do Rio Grande do Sul e encontra ar quente e úmido que domina o Sudeste. Na prática, esse choque favorece a formação de nuvens muito carregadas, com chuva forte, rajadas de vento e trovoadas.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emite alertas de perigo para diversas áreas das regiões Sul e Sudeste. O aviso inclui a cidade de São Paulo, o litoral paulista, o interior do estado e faixas de Minas Gerais e Rio de Janeiro. A previsão indica pancadas de chuva que variam de moderadas a intensas desde o começo do dia em boa parte do território paulista, incluindo norte, nordeste, oeste, sul e litoral, além do Triângulo, noroeste, sul e região central mineira e o litoral fluminense.

Meteorologistas explicam que um cavado, espécie de área alongada de baixa pressão em níveis médios da atmosfera, ajuda a organizar as instabilidades. Esse desenho, somado à umidade que vem da Amazônia e à atuação da Zona de Convergência Intertropical no Norte e Nordeste, amplia o risco de temporais em praticamente todo o país. A consequência direta são episódios de chuva volumosa em curtos períodos, como o registrado no Ipiranga neste domingo.

A Defesa Civil do Estado e a Prefeitura de São Paulo reforçam o alerta para deslizamentos em áreas de morro e enxurradas em fundos de vale nas próximas horas. Técnicos orientam moradores de áreas de risco a ficar atentos a sinais como rachaduras em paredes, portas que emperram, postes inclinados e barulho de água correndo sob o solo. “A orientação é acionar imediatamente a Defesa Civil e deixar o imóvel ao primeiro sinal de instabilidade do terreno”, afirma, em nota, o órgão estadual.

Cidade em alerta e desafio permanente com a chuva

As autoridades municipais mantêm equipes em regime de plantão na madrugada e na segunda-feira (9), com prioridade para desobstrução de bueiros, cortes de árvores e atendimento a famílias desalojadas. As subprefeituras monitoram pontos críticos com apoio de câmeras e dados em tempo real sobre o nível dos córregos. Abrigos emergenciais são preparados para receber moradores que não conseguem voltar para casa.

O transporte público também sente o impacto do temporal. Linhas de ônibus desviam rotas em bairros alagados, o que aumenta o tempo de viagem e lota paradas improvisadas em calçadas mais altas. Motoristas enfrentam congestionamentos e trechos interditados, principalmente nas ligações entre a Zona Sul e o centro. Em algumas avenidas, a água invade calçadas e comércios, provoca prejuízo a pequenos lojistas e impede a abertura normal das portas no início da noite.

Especialistas em clima e urbanismo reforçam que a combinação entre chuva extrema e ocupação desordenada torna episódios como o deste domingo mais frequentes e mais graves. O assoreamento de córregos, a impermeabilização do solo e a presença de moradias em encostas íngremes ampliam o potencial destrutivo de cada temporal. A discussão sobre infraestrutura de drenagem, habitação e adaptação às mudanças climáticas volta ao centro do debate público, com pressão sobre governos municipais, estadual e federal.

O avanço da frente fria ao longo dos próximos dias mantém a região Sudeste em alerta. A expectativa de novas pancadas fortes, com rajadas de vento e risco de enxurradas e deslizamentos, obriga prefeituras a manterem planos de contingência ativos. Para quem vive nas áreas mais vulneráveis de São Paulo, a pergunta é quanto tempo a cidade ainda leva para transformar cada chuva intensa em rotina de risco e não em tragédia anunciada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *