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Trump condiciona sobrevivência de novo líder do Irã à aprovação dos EUA

Donald Trump afirma, em entrevista à ABC neste domingo, 8, que o novo líder supremo do Irã “não vai durar muito” sem aval prévio de Washington. A declaração ocorre em meio à escolha do sucessor de Ali Khamenei e ao nono dia de guerra entre Estados Unidos, Israel e o regime iraniano.

Pressão sobre Teerã em meio à sucessão de Khamenei

O presidente dos Estados Unidos fala à TV americana em um momento raro: o Irã se prepara para anunciar o novo líder supremo, a autoridade máxima do país desde 1979. A morte do aiatolá Ali Khamenei, em 28 de fevereiro, abre uma disputa silenciosa em Teerã enquanto mísseis e bombas caem sobre cidades iranianas.

Trump não deixa margem para dúvidas sobre a intenção de Washington de influenciar esse processo. “Se ele não tiver nossa aprovação, não vai durar muito”, diz à ABC News. Em seguida, associa a sucessão em Teerã à sua própria agenda política interna. “Queremos garantir que não tenhamos que voltar a cada 10 anos, quando não houver um presidente como eu que faça isso”, afirma, ao defender uma linha dura contra o regime iraniano.

A entrevista vai ao ar poucas horas depois de a mídia estatal iraniana informar que a Assembleia dos Guardiões escolhe, neste domingo, o novo líder supremo. O nome ainda não é divulgado. Autoridades do órgão, responsável por supervisionar as principais instituições da República Islâmica, confirmam que um candidato já é indicado e descrevem o escolhido como “o mais apropriado” para o cargo.

Mohsen Heydari, representante da província de Khuzestão na assembleia, afirma à agência estatal Irna que “o candidato mais apropriado foi nomeado”. Outro membro, Mohamad Mehdi Mirbagheri, reforça em vídeo divulgado pela agência Fars que um nome é apresentado e sugere que se trata de uma figura malvista por Washington. Segundo ele, a pessoa escolhida para liderar o país é alguém a quem “os Estados Unidos se opunham”.

Guerra, explosões e disputa por influência

As declarações de Trump chegam enquanto o Irã encara o nono dia de guerra contra a aliança formada por Estados Unidos e Israel. Explosões sacodem ao menos três regiões do país neste domingo, incluindo a capital Teerã e as províncias centrais de Yazd e Isfahã, de acordo com o noticiário estatal iraniano.

Na província de Yazd, no centro do país, detonações atingem áreas periféricas da capital provincial, também chamada Yazd. A Irna relata explosões simultâneas em outros pontos do território, mas as autoridades locais ainda não divulgam balanço de mortos ou feridos. Em Teerã, o alvo são depósitos de petróleo e infraestrutura de combustível, centrais para a logística de guerra e para o abastecimento da população.

No início da madrugada no horário de Brasília, ataques aéreos de Estados Unidos e Israel contra depósitos de petróleo na capital e em regiões próximas interrompem temporariamente a distribuição de combustíveis. “Em razão dos danos na rede de fornecimento de combustível, a distribuição foi temporariamente interrompida”, afirma o prefeito de Teerã, Mohammad Sadegh Motamedian, citado pela Irna. Em plena crise militar, a dificuldade de abastecimento ameaça o transporte urbano, o funcionamento de indústrias e a operação de hospitais.

Em Washington, Trump tenta transformar o conflito em ativo político. Ele diz estar “no ponto mais alto” de popularidade junto à base do movimento Make America Great Again, o MAGA, que o impulsiona desde a campanha de 2016. “O que estamos fazendo é algo muito típico do MAGA. Muito, muito típico do MAGA”, declara, ao vincular a ofensiva contra o Irã a sua marca política e a promessas de protecionismo e força militar.

A sucessão de Khamenei ocorre sob esse clima de confronto direto. Desde que o aiatolá assume o poder, em 1989, após a morte de Ruhollah Khomeini, o posto de líder supremo concentra as decisões finais sobre o programa nuclear, a política externa e o comando das Forças Guardiãs da Revolução. A escolha do novo chefe religioso e político, portanto, define a orientação do Irã para as próximas décadas, em um momento em que o país enfrenta pressão militar, econômica e diplomática sem precedentes desde a guerra Irã-Iraque, nos anos 1980.

Risco de escalada regional e impacto econômico

A fala de Trump, ao condicionar a sobrevivência política do futuro líder iraniano à “aprovação” da Casa Branca, reforça a percepção em Teerã de que Washington tenta exercer controle indireto sobre o regime. Esse discurso alimenta narrativas nacionalistas locais e pode fortalecer alas mais radicais, dispostas a resistir a qualquer sinal de acomodação com os Estados Unidos.

Na prática, a escolha de um líder visto como hostil por Washington tende a prolongar a guerra de atrito e a manter sob tensão as rotas de petróleo do Golfo Pérsico. O estreito de Ormuz, por onde circulam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo em tempos de normalidade, volta ao centro das preocupações de mercados e governos. Ataques a depósitos de combustível em Teerã e outras cidades já provocam temor de interrupções maiores na cadeia de fornecimento, com efeito direto sobre os preços internacionais.

Analistas ouvidos por serviços de notícias internacionais avaliam que a escalada aumenta a chance de repressão interna no Irã, com o regime usando o estado de guerra para silenciar dissidências e reforçar o controle sobre a sociedade. Ao mesmo tempo, aliados de Teerã, como Rússia e China, observam espaço para aprofundar laços militares e econômicos, explorando o distanciamento entre o país persa e o Ocidente.

A postura de Trump também complica o jogo diplomático de países europeus que ainda tentam preservar algum canal de diálogo com Teerã. O discurso de que o líder iraniano precisa do “selo” americano para permanecer no cargo tende a ser rejeitado publicamente, inclusive por governos que criticam o regime dos aiatolás. A percepção de ingerência externa sobre um cargo religioso e político central amplia o fosso entre Washington e setores nacionalistas do Oriente Médio.

Sucessão indefinida e incerteza prolongada

Sem a divulgação do nome do novo líder supremo, a diplomacia internacional opera no escuro. Embaixadas na região tentam interpretar sinais vindos da Assembleia dos Guardiões, que reúne 88 clérigos e juristas islâmicos. O histórico do órgão mostra preferência por figuras leais à Revolução Islâmica e ao aparato de segurança, mas o grau de abertura ou confronto com o Ocidente ainda é uma incógnita.

O cálculo em Washington passa por uma equação delicada: pressionar o Irã o bastante para enfraquecer sua capacidade militar e sua influência regional, sem provocar uma ruptura que leve o país a intensificar ataques contra aliados americanos ou a desestabilizar ainda mais o mercado de energia. As palavras de Trump, porém, reduzem a margem para soluções intermediárias e empurram os dois lados para posições mais rígidas.

Enquanto a guerra entra em seu décimo dia, Teerã tenta provar que mantém o controle interno e que a sucessão de Khamenei ocorre “dentro da normalidade revolucionária”. Do lado americano, Trump transforma a pressão sobre o Irã em peça central de sua narrativa de força em política externa. A escolha do novo líder supremo e a resposta da Casa Branca ajudarão a definir se a região caminha para uma escalada prolongada ou para alguma forma de acomodação estratégica – ainda distante do horizonte imediato.

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