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China pressiona por diálogo com EUA em meio a guerra no Irã

A China cobra dos Estados Unidos mais diálogo direto para evitar erros de cálculo que empurrem o mundo para um confronto global. O alerta parte do ministro das Relações Exteriores Wang Yi neste domingo (8), em Pequim, às vésperas de uma aguardada cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump prevista para o fim de março.

Pequim tenta conter escalada em plena guerra no Irã

Wang Yi escolhe a reunião anual do Parlamento chinês para enviar o recado. Perante jornalistas estrangeiros, ele afirma que a relação entre as duas maiores economias do planeta entra em uma fase em que qualquer ruído pode ter efeito imediato em vários continentes. A guerra lançada há uma semana por EUA e Israel contra o Irã, que já mata mais de 1.300 pessoas e leva à morte do aiatolá Ali Khamenei, transforma Teerã em novo epicentro da crise global.

O ministro admite que a agenda de alto nível com Washington está pronta, mas ainda depende de sinal verde político dos dois lados. “A falta de engajamento entre as duas nações só levaria a mal-entendidos e julgamentos errôneos, escalando em direção ao confronto e prejudicando o mundo”, diz ele. A frase sintetiza o temor em Pequim de que decisões tomadas a partir de cálculos internos de poder em Washington ou em Teerã respinguem em toda a Ásia.

Trump usa boa parte de seu capital político na frente iraniana. Em janeiro, autoriza a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em operação que testa abertamente a disposição da China de proteger parceiros estratégicos. Desde então, a diplomacia chinesa monitora de perto cada declaração vinda da Casa Branca sobre a América Latina, região em que empresas e bancos de Pequim investem dezenas de bilhões de dólares desde os anos 2000.

América Latina entra no jogo de pressões

A reedição, por Trump, de uma “Doutrina Monroe” atualizada expõe a colisão entre dois projetos. De um lado, a visão de Washington de que o hemisfério ocidental segue sob sua zona de influência. De outro, a estratégia de Xi Jinping de fincar presença duradoura no continente por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota e da chamada Iniciativa de Segurança Global. Não são apenas slogans: envolvem corredores logísticos, portos estratégicos e acesso a minérios que sustentam a indústria chinesa.

Trump ameaça com ação militar a Colômbia e o México e sugere que o regime de Cuba “parece estar pronto para cair” por si só. As declarações operam como teste de estresse para os laços latino-americanos com a China. Governos da região avaliam se os memorandos de entendimento com Pequim, assinados ao longo da última década, oferecem algum tipo de escudo político caso Washington decida transformar pressão diplomática em intervenção militar.

Wang reage com ironia calculada a essa ofensiva. Sem citar diretamente os EUA, ele questiona o comportamento de “grandes potências tradicionais” que, segundo ele, criam zonas de influência, alimentam confrontos em bloco e exportam seus problemas para vizinhos. “Se a China, assim como algumas grandes potências tradicionais, estivesse interessada em criar esferas de influência em sua vizinhança, alimentando confrontos em bloco ou até mesmo transferindo problemas para seus vizinhos, a Ásia ainda seria tão estável como é hoje?”, provoca.

Pequim endurece no entorno, mas vende imagem de freio à crise

O discurso de moderação convive com um ano de postura mais agressiva de Pequim em sua própria vizinhança. Em 2025, o Exército chinês promove grandes exercícios militares em torno de Taiwan, com dezenas de aviões cruzando a linha mediana do estreito em manobras que simulam bloqueio aéreo e naval. No mesmo período, a relação com o Japão desanda depois que a primeira-ministra Sanae Takaichi indica que um ataque chinês a Taiwan pode gerar resposta militar de Tóquio.

No Mar do Sul da China, navios da guarda costeira chinesa repetem abordagens de risco contra embarcações filipinas em áreas disputadas. Os incidentes alimentam preocupações no Sudeste Asiático de que qualquer falha de cálculo em uma dessas operações arraste o Tratado de Defesa EUA-Filipinas para o centro do palco. Um choque entre embarcações em recifes ocupados por Pequim poderia, em tese, acionar compromissos militares formais de Washington.

Mesmo sob essa pressão, Wang tenta enquadrar a China como força estabilizadora em meio à tempestade. Sobre o Irã, pede “interrupção imediata” das operações militares e afirma que a guerra “não deveria ter acontecido”. Reforça que o uso da força não resolve disputas de segurança e evita detalhar relatos de interesse iraniano em mísseis supersônicos antinavio fabricados por empresas chinesas. A mensagem é que Pequim prefere a mesa de negociações ao campo de batalha, sobretudo quando sua própria economia desacelera e depende de previsibilidade para sustentar o comércio exterior.

Cúpula de março define espaço de manobra

A cúpula entre Xi e Trump, prevista para o fim de março, passa a ser tratada em Pequim e em Washington como momento de teste para a capacidade das duas potências de controlar instintos domésticos em favor de um arranjo mínimo de coexistência. A agenda inclui Irã, América Latina, disputas no Pacífico e, de forma menos visível, regras para competição tecnológica e financeira. Um deslize em qualquer um desses dossiês pode ampliar sanções, taxar cadeias de suprimentos e afetar diretamente inflação, emprego e investimentos em diversos países.

Diplomatas avaliam que, se o encontro produzir um canal permanente de comunicação de crise, o risco de choque militar direto cai de forma significativa nos próximos meses. Se fracassar, aumenta a chance de que episódios locais, como um confronto naval no Mar do Sul da China ou uma operação americana na fronteira mexicana, ganhem dimensão global antes que as partes consigam frear a escalada. A pergunta que permanece, às vésperas da reunião, é se Xi e Trump estão dispostos a pagar o custo político interno de recuar um passo para evitar que o mundo avance muitos passos rumo ao confronto.

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