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A cada dia, 4 mulheres são mortas por serem mulheres no Brasil

Todo dia, em média, quatro mulheres são assassinadas no Brasil por um mesmo motivo: serem mulheres. Em 2025, o país registra 1.470 feminicídios, 80% cometidos por companheiros ou ex-companheiros. A atualização dos dados, divulgada neste 8 de março de 2026, expõe o fracasso de uma proteção que se mantém no papel enquanto a violência cresce dentro de casa.

Violência começa antes do crime e se alimenta do controle

Os números de 2025 confirmam um padrão conhecido por delegadas, defensoras e pesquisadoras: o agressor quase sempre está perto. É o homem que divide a cama, a rotina, as contas, os filhos. Entre cada dez feminicídios, oito são praticados por companheiros atuais ou por homens que se recusam a aceitar o fim da relação.

Ciúme, posse e controle aparecem nas ocorrências com a mesma frequência da palavra medo nos depoimentos das vítimas. O homem controla o celular, decide com quem a mulher fala, escolhe as roupas, ameaça o trabalho, vigia os horários. A escalada é silenciosa. Começa com cenas de ciúme, passa por gritos, empurrões, humilhações, até chegar à agressão física mais grave.

Na ficha policial, o motivo costuma caber em poucas linhas. Na vida concreta, é um processo que se arrasta por meses ou anos, muitas vezes sob o olhar passivo de vizinhos e familiares. “O feminicídio é o ponto final de uma sequência de violências naturalizadas. Quando o tiro, a facada ou o espancamento acontecem, essa mulher já tentou pedir ajuda várias vezes”, afirma uma promotora especializada em violência doméstica, ouvida pela reportagem.

As estatísticas mostram que a lei chega tarde para parte dessas mulheres. Mesmo com a Lei Maria da Penha, em vigor desde 2006, e com o feminicídio incluído no Código Penal em 2015, o país mantém uma taxa alta e persistente de assassinatos de mulheres. A existência de normas não se converte automaticamente em proteção real quando o agressor é alguém que tem acesso diário à vítima.

Leis avançam, mas não mudam sozinhas a cultura da violência

A criminalização da violência doméstica e do feminicídio estabelece penas mais duras, cria medidas protetivas e orienta a atuação da polícia, da Justiça e da rede de saúde. Esse arcabouço jurídico é considerado um dos mais completos do mundo. Mesmo assim, o dado de 1.470 feminicídios em 2025 revela um limite claro: o direito escrito não altera, por si só, uma cultura que ainda associa amor à posse e masculinidade ao poder sobre a vida da mulher.

Delegacias especializadas seguem sobrecarregadas, serviços de acolhimento funcionam com equipes reduzidas e abrigos para mulheres em risco grave não dão conta da demanda em muitos Estados. Em várias cidades, a medida protetiva existe apenas como documento, sem monitoramento eletrônico do agressor nem rondas regulares. “Nós entregamos a decisão judicial e, no dia seguinte, o autor está na porta de casa, desafiando a ordem. A mulher liga, e não há viatura disponível”, relata uma policial civil.

Os efeitos dessa falha institucional se somam ao peso econômico e emocional que prende as vítimas ao agressor. Romper a relação significa, para muitas, perder renda, moradia e rede de apoio. Em casas onde o salário do homem sustenta a família, o medo da pobreza disputa espaço com o medo da morte. Em outras, o vínculo afetivo e a esperança de mudança retardam a denúncia. “Ele só perde o controle quando bebe”, “é um bom pai”, “não tenho para onde ir”: frases desse tipo aparecem recorrentemente nos atendimentos.

Pesquisas recentes indicam que o risco aumenta justamente após a tentativa de separação. É quando o agressor percebe que não controla mais a relação que a violência tende a se intensificar. “O feminicídio é um crime de mensagem. Ele diz: se você não é minha, não será de mais ninguém”, resume uma pesquisadora de gênero de uma universidade pública. Esse padrão se repete nos boletins de ocorrência e nos processos criminais que chegaram ao Judiciário em 2025.

Pressão por respostas integrais e mudança de comportamento masculino

A divulgação dos novos dados em pleno 8 de março amplia a cobrança por respostas que ultrapassem o campo jurídico. Especialistas em segurança, gênero e saúde defendem uma ação coordenada que envolva escolas, campanhas permanentes, atendimento psicológico a vítimas e agressores, qualificação das forças de segurança e políticas públicas que garantam renda, moradia e cuidados para mulheres que decidem sair de relações violentas.

Nesse cenário, ganha relevo a série especial “O que é ser homem?”, produzida pela Mais Conteúdo, de O TEMPO, que estreia com um episódio dedicado à violência contra a mulher. O projeto, com dez capítulos, discute comportamentos, expectativas e práticas que formam a ideia de masculinidade no país. Ao perguntar em que momento um homem decide matar uma mulher, a série aponta para um ponto sensível: não se trata apenas de punir quem mata, mas de questionar desde cedo o modo como meninos são educados a lidar com frustração, afeto e poder.

A resposta passa por decisões concretas. Governos podem ampliar a rede de atendimento 24 horas, integrar bases de dados de polícia, saúde e Justiça e investir em equipes multidisciplinares nos territórios onde a violência é mais recorrente. Empresas podem adotar protocolos internos para acolher funcionárias em situação de risco e orientar colegas a identificar sinais. Escolas podem incluir no currículo debates sobre respeito, igualdade e resolução não violenta de conflitos.

O custo da omissão já é conhecido: 1.470 mulheres mortas em um ano, famílias devastadas, crianças órfãs e uma sociedade que se acostuma a tratar a tragédia como estatística. O desafio, a partir de 2026, é transformar o choque desses números em compromisso contínuo. A pergunta que permanece é se o país está disposto a rever a forma como educa seus homens ou se seguirá contando, dia após dia, quantas mulheres ainda vão morrer por serem mulheres.

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